Desigualtômetro: Bairros ricos em São Paulo continuam com os melhores resultados no acesso às políticas e bens públicos

Desde 2012  a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) Rede Nossa São Paulo avalia a desigualdade nos 96 distritos da cidade de São Paulo, a partir do levantamento de uma série de indicadores. O desigualtômetro da Nossa São Paulo foi lançado ontem (29/10)  em live da instituição e permite avaliar, em especial, as […]

Desde 2012  a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) Rede Nossa São Paulo avalia a desigualdade nos 96 distritos da cidade de São Paulo, a partir do levantamento de uma série de indicadores.

O desigualtômetro da Nossa São Paulo foi lançado ontem (29/10)  em live da instituição e permite avaliar, em especial, as desigualdades regionais de acesso a políticas e equipamentos públicos, considerando também o recorte de cor/raça,  gênero e renda. De acordo com a Rede Nossa São Paulo as assimetrias “ perpetuam ciclos viciosos de estagnação social e acesso a direitos básicos, como educação e saúde de qualidade; direito à moradia, ao trabalho, à cultura; direito a ter boas condições de mobilidade e segurança; direito a um meio ambiente saudável e a uma infância feliz.”

A OSCIP  analisa indicadores como meio ambiente, mobilidade, direitos humanos, habitação, acesso à saúde,  à educação, à cultura, esporte e trabalho e renda e busca oferecer comparativos em período eleitoral o que serve tanto à população como candidatos um retrato de seus 96 distritos. A seguir uma síntese dos resultados dos principais indicadores.

População

A cidade de São Paulo tem 11.811.516 de habitantes distribuídos desigualmente entre 96 distritos.  Marsilac é o  distrito com menor número de habitantes, com  8.398, o mais populoso é o  Grajaú com 387.148 habitantes. Mas embora o trânsito seja mais amigável em Marsilac isso não garante ao distrito figurar entre os dez distritos com melhores índices. Marsilac aparece em primeiro lugar com o distrito mais citado nos dez distritos com os  piores índices.

Quando o recorte de  cor/raça é feito na população paulistana, a cada 100 habitantes apenas 6 pessoas pretas e pardas vive no bairro rico como Moema que é um dos metros quadrados mais caros da cidade. No outro extremo, como no  Jardim Ângela, a cada 100 habitantes, 60 são pretos ou pardos.

Os jovens se concentram em Parelheiros a cada 100 habitante 51 são jovens e o bairro com menos jovens é Consolação, 20 jovens a cada 100 habitantes.

Os novos gestores precisam se atentar ao fator raça e geração para criar políticas públicas que atendam a população negra e jovem para distritos como Parelheiros e Jardim Ângela.

Meio Ambiente e mobilidade urbana

A produção de lixo está relacionada ao consumo, renda e a densidade seja da população que reside, como a que circula no território. O distrito paulistano que  mais produz toneladas de lixo por pessoa é a Sé: 0,61 e faz sentido já que a Sé é o marco zero da cidade e tem uma ampla circulação de pessoas. O que  menos produz lixo é a cidade Tiradentes, 0,19, pois apesar da densidade populacional é um dos distritos com menor renda da cidade. O valor médio da cidade de 0,31 ton/ano/ habitante equivale a 25,8 kg de resíduos sólidos por mês, por pessoa; o que também é igual a 0,86 kg de resíduos sólidos por dia, por pessoa.

Quando se trata de coleta seletiva o desigualtômetro chega a 42X. Se observarmos o total de resíduos domésticos coletados seletivamente dos domicílios, o bairro melhor assistido pelo poder público em coleta seletiva é a Vila Mariana que coleta 10,6 toneladas dos domicílios  e o pior com 0,3 toneladas  é o  Itaim Paulista. Novamente percebemos a desigualdade de oferta do poder público, Vila Mariana é um distrito  de classe média com bolsões nobres, Itaim Paulista está entre os distritos mais pobres,

Quando se foca no acesso ao transporte de massa dos quase 12 milhões de habitantes de São Paulo o desigualtômetro chega a quase 200 vezes! Considerando o critério de residir em um raio de até 1 km de estações de sistemas de transporte público de alta capacidade (trem, metrô e monotrilho), Vinte nove bairros  dos 96 distritos paulistanos tem facilidade  de acesso. O bairro mais  privilegiado neste quesito é a República 88% de seus habitantes mora num raio de até um quilômetro do metrô. Isso explica um outro indicador do Mapa da desigualdade:  os moradores da República são os que menos possuem automóvel na cidade: 78,7% das famílias deste bairro não têm carro, já a Vila Leopoldina é o bairro campeão neste quesito: apenas 16,4% das famílias não possuem automóveis.

Perus é o distrito com maior porcentagem de viagem por transporte público motorizado 80,5%, Vila Guilherme o menor: 36,5%. O paulistano usa muito o transporte público motorizado e a desigualdade neste indicador é baixa, 2,2X.

O paulistano leva em média 56 minutos pra chegar ao trabalho, os moradores de Marsilac levam 125 minutos  e os do Brás 31 minutos.

Quando se trata de ciclovias/ciclofaixas o Pari tem 100% de seus moradores em um raio de 300 metros de uma ciclovia e 9 bairros de São Paulo não possuem infraestrutura cicloviária.

Violências e Direitos Humanos

A Barra funda com o coeficiente de 60,9  é o bairro com o maior número de acidentes de trânsito com  vítimas para cada dez mil habitantes e o distrito menos populoso de São Paulo, Marsilac tem o menor índice de acidentes: 3,6. Já o número de acidentes fatais é maior na Sé com 49 mortes e  Marsilac sem vítimas fatais de acidente de trânsito em 2019. O coração da cidade de São Paulo, a Sé é também o distrito mais violento contra as mulheres. Em 2019 a Sé  obteve o coeficiente de  865 contra 114 de Marsilac, considerando mulheres agredidas na faixa etária de 20 a 59 anos. A Sé também é campeã em racismo: o coeficiente de pessoas vítimas de violência de racismo e injúria racial para cada dez mil habitantes na Sé é 24,2.

Pirituba é o campeão em feminicídio e 31 bairros paulistanos não teve nenhum caso. Já a Liberdade é o bairro mais violento contra LGBTQIA+ e 29 bairros paulistanos tiveram 0 vítimas de violência homofóbica e transfóbica.

Comparadas a gestão de Haddad (2013 a 2016) e as de  João Dória e a de Bruno Covas (2017-2020), as mulheres perderam muito: Houve um aumento de 70% no número total de óbitos por causas maternas e de 72% no número total de mulheres vítimas de feminicídio.

Morumbi é o bairro mais violento para os jovens: o  coeficiente de  mortalidade de jovens por homicídio e intervenção legal para cada cem mil pessoas residentes de 15 a 29 anos naquele bairro é de 58,9 contra a média da cidade que é de 21. Dezenove bairros da cidade tiveram coeficiente 0.

Direito à Moradia

No Jardim São Luiz, 69,5% dos domicílios ficam em favelas. Dez bairros paulistanos, todos no centro da cidade não possuem favelas. O desigualtômetro neste quesito é gritante: uma diferença de  911 vezes.

Saúde e Educação

Quando o quesito é gravidez na adolescência de jovens que tiveram filhos com 19 anos ou menos o Jardim Paulista tem 0,6% contra 15,3% do bairro  São Rafael. Os moradores do rico bairro Jardim Paulista também vivem mais. O paulistano vive em média 68 anos, no Jardim Paulista vivem em  média 81,5 anos. Já quem vive no Jardim Ângela morrem em média com  58,3 anos.

Apenas 7% da  população do bairro nobre do Jardim Paulista  faz uso da atenção básica, contra seis bairros paulistanos que dependem 100% da cobertura do SUS, especialmente  das  equipes da Estratégia Saúde da Família e das  equipes de Atenção Básica. 66,6% da população paulistana depende essencialmente do SUS.

O paulistano demora em média 28 dias para conseguir uma consulta na atenção primária, se ele vive no Cambuci ele demora 5 dias em média, mas na Água Rasa pode esperar 43 dias.

Moema, o bairro nobre com a menor proporção de negros e pardos tem a menor percentagem   de Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (ICSAP) em relação ao total de internações, por distrito, apenas 4,5%. Jjá o Jaçanã o número de internações salta para 77,7%.

A Liberdade que vive um processo de  gentrificação é o bairro com maior mortalidade materna:  para cada cem mil crianças nascidas vivas de mães residentes naquele  distrito o coeficiente de mortalidade materna é de 182,1. Dezoito bairros paulistanos tiveram índice 0 de mortalidade materna.

Para  cada mil crianças nascidas vivas de mães residentes no distrito, São Miguel tem 20,3 crianças que morrem com menos de um ano, Marsilac nenhum óbito. Em São Miguel o número de óbitos é quase o dobro da média da cidade que é de 11,2.

Alguns indicadores do Mapa da Desigualdade 2020 mostram algumas inclusões que foram resultados das últimas administrações,  como o tempo de espera de uma vaga na creche: em Guaianazes um bairro populoso e pobre o tempo é de 15 dias, no Itaim Bibi um bairro rico pode chegar a 183 dias. Essa diferença de tratamento mostra que o poder público fez neste quesito uma intervenção para diminuir desigualdades. A população de Guainazes depende das políticas públicas como creche, Itaim Bibi a dependência é muito menor.

No quesito saúde pública e educação pública percebemos a importância do poder público nos bairros mais pobres. Assim como 100% dos habitantes de 6 bairros paulistanos dependem do SUS contra 7% do Jardim paulista, 87,8% das crianças e adolescentes da  Cidade Tiradentes estão matriculados nas escolas públicas contra  5,4% das crianças e adolescentes do  Jardim Paulista. A média em São Paulo é de 67,1% de  matrículas na Educação Infantil (creche e pré-escola), no Ensino Fundamental I e II, Ensino Médio, Educação Especial e Educação Profissional.

A média da proporção de professores com curso  superior na mesma disciplina que leciona nas escolas públicas é de 77,2% o que mostra uma boa adequação dos docentes às disciplinas que ensinam.  No bairro  José Bonifácio, 93,2% dos professores lecionam disciplinas adequadas à sua formação e no Jardim Paulista isso cais para  60% .

A desigualdade aumenta quando consideramos renda familiar,  posse de bens, contratação de serviços de empregados domésticos pela família dos estudantes e  nível de escolaridade dos responsáveis. Quanto menor o índice (valor), maior é a vulnerabilidade da escola. A República tem o menor índice 49,6 e o Morumbi o maior: 73. Um distrito central como a República apresentar um dos menores índices  socioeconômicos mostra também o processo de resistência à  gentrificação, os pobres das ocupações dos prédios no centro explicam esses dados.

A evasão escolar é baixa na cidade de São Paulo, o distrito da  Saúde tem o melhor índice  0 e o Morumbi o pior, 4,1.

Lazer e Cultura

O acesso aos equipamentos públicos de lazer e cultura  é um dos mais desiguais, dezoito distritos paulistanos não contam com nenhum equipamento público municipal como  um centro cultural,  sala de teatro, museu, casa ou espaço de cultura, casas históricas, escolas de formação, biblioteca, bosques ou pontos de leitura, ônibus- biblioteca ou CEU ou equipamentos estaduais como museus, espaços musicais,t eatros, oficinas, bibliotecas, centros culturais, escolas de formação e fábricas de cultura etc. O distrito com melhor oferta no indicador cultural  é o Bom Retiro.

Quando a comparação é feita por equipamento a disparidade é imensa:  dos 96 distritos paulistanos 81 não contam com nenhum museu, 73 não tem salas de show, 70 não tem centros culturais, 53 não tem sala de cinema, 58 não tem teatros, 25 não tem bibliotecas públicas, um desigualtrômetro de  1776x. Dezesseis distritos não tem nenhum equipamento público para a prática de esportes.

Renda e trabalho

A desigualdade da oferta de emprego na cidade de São Paulo do Desigualtômetro da Nossa São Paulo, não reflete os dias atuais, especialmente pós pandemia, pois os dados não foram atualizados e são do ano base 2018 e alguns de 2017. Naquele período, a oferta de emprego formal, por dez habitantes  em idade ativa tornava a Sé o distrito com maior oferta 113,8 contra 0,39 do Anhanguera.

No quesito de massa salarial o distrito nobre de São Domingos era o melhor com  mais de 6 mil reais, já Artur Alvim a média salarial, em 2018, era de  R$ 2.016,55. A renda familiar em 2017 era mais alta em Alto de Pinheiros R$ 9.591,93 e a pior era em Lajeado,  R$ 2.628,63. No entanto, como o mapa não cobre a reforma trabalhista e a perda de direitos e de postos formais, assim como a depressão econômica com aumento de taxa de desemprego, corte de salários, redução de jornada, aprofundados com a epidemia,  os dados atuais  de  desemprego são muito maiores assim como  a média da massa salarial do brasileiro caiu.

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Sindicato Popular

O blog é uma parceria da Fórum com o Sindipetro-NF (Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense). Traz artigos e análises de temas de interesse dos trabalhadores.