Deu Match, mas ele é minion: Vuco-vuco em tempos de cloroquina – Por Henrique Rodrigues

Até o aprochego, a fungada no cangote e sagrada escorregância sofrem com a conversão em massa à seita do sicário. É aí que a promessa de uma noite tórrida leva um revés

Os relatos se avolumam nas redes, nos grupos de WhatsApp, no trabalho e pela vida. As barreiras naturais que sempre impediram a conexão de corpos e corações ficaram ainda mais rígidas no Brasil pós-golpe.

Até o aprochego, a fungada no cangote e sagrada escorregância sofrem com a conversão em massa à seita do sicário.

Quem não tem uma amiga que resmunga lamuriosa a chance perdida com o boy porque ele deu pistas de sua adesão à facção do coisa-ruim? Atrás daqueles óculos escuros, sentado ao volante do possante, mesmo que bem disfarçado e camuflado, havia um birolover sufocado.

Vinhozinho na mão, ou cervejinha trincando no copo. Sorrisos e gracejos. A mão da fuleragem chega a tremer, mas a missão aborta.

Em menos cinco minutos o disfarce se rompe e a carcaça protofascistinha de merda (GOMES, Ciro) se escancara.

Ele apoia o tratamento precoce. A pastilha de cloroquina anda logo ali, sempre à mão.

Pior, compartilha Alexandre Garcia e saúda os amigos do grupo com um “patriotas”. Ninguém te contou, está lá. Você viu as bandeirinhas no chat. A vontade é assumir o Baudelaire que mora em suas tripas e falar na cara do miseravi “sem cólera te espancarei, como o açougueiro abate a rês”.

Se bem que nunca entendi essa “rês” na tradução para português, que não existe no original em francês… Parece que alguém teve um presságio e previu que nosso problema seria o gado.

A promessa de uma noite tórrida sofre um revés. A cerveja esquenta, o vinho avinagra e os sorrisos faceiros que antes anunciavam a sacanagem quase assentida agora são substituídos pelo riso amarelo-brochância.

Só de imaginar, nos devaneios mais alucinados, você e ele passeando de moto, jaqueta de couro puída com dois fuzis bordados nas costas, numa motocada viral, gritando “mito”, como se não houvesse o amanhã… A bílis chega a escapar do duodeno, numa manobra digna de Valentino Rossi, e vem na goela.

Acredite, minha senhora e meu senhor. Ainda que vocês sejam oriundos do mundo pré-relação virtual, que sejam espécies clássicas do flerte roots, aquele olho no olho e mordiscada no beiço, hoje as coisas estão muito difíceis para quem procura sua cara-metade no cibermundão. Já não bastassem os perigos da selva violenta habitual, das trapaças e embustes convencionais, os desejosos por uma relação ainda precisam, às pedaladas, driblar o destino que traiçoeiramente pode colocar uma carniça reacionária em sua jornada.

Ainda bem que tô sussa. Minha Rosa Luxemburgo não abre mão da revolução. Lá em casa até o presunto espanhol que entra tem que ser republicano.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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