Divagações sobre Cuba – Por Mouzar Benedito

Cuba tem muitos problemas, claro, ninguém pode negar. Mas é preciso colocar os pingos nos is.

“Cuba só sobreviveu porque a União Soviética despejava dinheiro lá”… A gente ouve muita gente dizer isso.

A história é antiga. Há umas cinco décadas, lá por 1970/71, falavam que Cuba recebia da União Soviética (“da Rússia”, dizia quem não sabia diferenciar uma coisa da outra) um milhão de dólares por dia. Ficou sendo uma “verdade”. E vamos supor que seja.

Se a “ajuda” soviética era um milhão de dólares por dia, em um ano não bissexto seriam 365 milhões de dólares. E era um país de 10 milhões de habitantes. Supondo, ainda, que esse dinheiro era dado de graça, a ajuda anual seria de 36,5 dólares por habitante.

Falavam disso como uma coisa absurda. Mas ninguém falava, por exemplo, de Israel, que tinha 3 milhões de habitantes e recebia anualmente, dos Estados Unidos, 10 bilhões de dólares. Ou seja… 33 MIL dólares por habitante.

Mas isso é normal, né? O que tem de mal os Estados Unidos (direta ou indiretamente) “ajudar” Israel, seu aliado, com 10 bilhõezinhos de dólares por ano, 33 mil dólares por habitante? Absurdo era a União Soviética “ajudar” Cuba, país aliado, com 365 milhõezões de dólares, 36,5 dólares por habitante.

Cuba tem muitos problemas, claro, ninguém pode negar. Mas é preciso colocar os pingos nos is.

Quando a Revolução Cubana foi vitoriosa, pelo que li, Che Guevara, ministro da Economia, tinha planos de industrializar o país, explorar petróleo no entorno da ilha etc. E falava-se num socialismo diferente do que existia no bloco soviético. Mas veio o bloqueio econômico, de todos os países da América, só o México manteve relações com o país.

Cuba é um país pequeno e com poucos recursos. A energia elétrica, por exemplo, é totalmente dependente do petróleo, pois a ilha é estreita e seus rios são todos pequenininhos e pouco volumosos, sem possibilidade de construir hidrelétricas razoáveis.

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Sem poder comprar nada dos vizinhos, nem vender o que produzia, Cuba ficou sem alternativa, teve que “cair nos braços” da União Soviética. Entrou para o bloco, com suas vantagens e desvantagens.

Os planos de explorar petróleo e industrializar o país foram for água abaixo. Nas reuniões para tratar da integração ao bloco soviético, os “russos” argumentavam: Cuba produz algumas coisas que fazem falta nos países do leste europeu, como açúcar (principalmente), níquel, tabaco e frutas cítricas, então o negócio era produzir isso bem, tendo a garantia de que todo seu excedente de produção seria comprado pelos países do bloco. E por um preço “justo”, sem riscos de oscilações que poderiam levar a economia do país ao caos. Por exemplo: o preço do açúcar variava muito no mercado mundial, ano a ano, podendo atingir preços altos, mas também podendo não valer quase nada. A URSS se comprometia a pagar pelo açúcar o preço “justo”, daí a história de que ela dava de graça um milhão de dólares por dia ao país.

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Mas ainda segundo li, Guevara insistia nas suas propostas. “Por que se dedicar a explorar petróleo se temos de sobra na Rússia?”, rebatiam. Melhor seria dedicar os esforços que gastariam nisso à produção do que interessava ao bloco.

“Automóveis? A Polônia produz e pode exportar pra Cuba”, diziam também. “Ferramentas? A Bulgária produz bastante”. E assim foi. Qual a alternativa? Ou aceitavam isso ou Cuba ficava ⸻ desculpem-me o trocadilho ⸻ ilhada de vez, sem relações diplomáticas e comerciais com ninguém. E esse acordo incluía a aceitação de um modelo político que não era o previsto. Ah, e os automóveis que a Polônia forneceria não foram tantos nem tão bons, tanto que Cuba continuou com uma frota de carros velhos.

Bom… Há uns anos, quando começou a moda de direitistas falarem “vai pra Cuba”, pra quem defendia políticas de esquerda, e resposta da esquerda, mais irônica, era “vai pra Miami”, e eu dizia: já fui pra Cuba e já fui pra Miami. Gostei de Cuba e até voltei lá. Miami é uma cidade rica e geograficamente bonita, mas não tenho a menor vontade de ir lá de novo.

A primeira vez que fui pra Cuba foi em dezembro de 1985/janeiro de 86, quando o país “nadava” na “ajuda” de um milhão de dólares por dia. Fui com minha namorada, Célia.

Já contei em alguns textos que gostamos muito da viagem, mas tínhamos críticas a algumas coisas. No meu caso, apreciador de botecos, eu tinha poucas alternativas lá. Com a estatização de quase tudo, os botecos (com exceção dos existentes nos hotéis e alguns outros) eram muito fracos, tinha uns que só vendiam cerveja, outros que só vendiam rum e café… Mas o que mais incomodava tanto a mim quanto à Célia eram lojas que só vendiam em dólares (para conseguir as famosas “divisas”, para o comércio internacional), em que cubanos quase não tinham acesso.

Porém, a vida lá era divertida, andava-se pelas ruas até de madrugada, sem medo de assaltos etc. E, nas madrugadas, via nas esquinas algumas macumbas, com galinha preta e velas. O país era materialista, pero… lá a “santería”, versão cubana das religiões de matriz africana, nunca deixaram de existir. E tinha muita música, muita alegria. Cheguei a comentar que Havana parecia uma Salvador sem riscos de assaltos.

Aí aconteceu o fim do bloco soviético, há 30 anos. Todos os países do bloco, com exceção de Cuba, seguiram o exemplo russo, bandearam para o capitalismo, num mergulho total. Um capitalismo corrupto e violento, em que líderes oportunistas se apoderaram das empresas estatais, enriquecendo rapidamente. E o regime político não é lá essas coisas na maioria dos países que surgiram.

Como Cuba não quis acompanhar a Rússia, país central dessa globalização socialista, foi abandonada pelos ex-associados. Aí deu pra ver como funciona a globalização (não estou defendendo o nacionalismo cego aqui): país periférico que não seguir o líder, é jogado às feras. Fizeram isso com Cuba. A Rússia já não fornecia mais petróleo, e ninguém a substituiu. Lembro-me que tentou comprar petróleo da Venezuela liderada por uma espécie de tucano de lá, Carlos Andrés Perez, e ele disse pomposamente, para agradar os Estados Unidos: “Não vendo petróleo para ditaduras”. Poucos anos depois, ele foi cassado como um corrupto de marca maior.

Assim, com a escassez, não havia combustível para os tratores e a produção de cana (e, portanto, do açúcar) desandou. Não havia combustível também para as usinas termoelétricas, e até na capital, Havana, o racionamento foi brabo. Às dez da noite toda a iluminação pública era cortada, e havia horários escalonados para fornecimento de energia para os bairros. Nem ligar a TV para ver as amadas novelas brasileiras podiam mais, nos horários de corte. Pelo que me contaram, nos bairros com luz naquele dia, os moradores viam e telefonavam para os amigos dos bairros sem luz para contar como foi a novela. Sem contar o racionamento de comida.

Situação terrível, acho que se fosse aqui teria acontecido uma avalanche política e social. Nessa época estive no Chile e encontrei uma amiga e seu marido, democratas-cristãos, nem um pouquinho de esquerda. Eram especializados em desenvolver programas de treinamento de mão-de-obra, e tinham acabado de chegar de Cuba, onde passaram dois meses. Contaram da situação brabíssima do país e o marido da minha amiga falou: “Passamos por mais de trinta países da América Latina, Europa e África”, fez uma pausa e pensei que ia falar muito mal de Cuba, mas concluiu: “Pela primeira vez em toda a vida vi funcionar pra valer a solidariedade cristã”. Católico praticante, foi encontrar a solidariedade que julgava ser obrigatória nos cristãos em um país comunista!

Voltei lá quando a situação ainda continuava braba, mas não tanto, em 1994, se me lembro bem, para participar de um congresso internacional de jornalistas. Detalhe: não era um congresso de jornalistas de esquerda, eu mesmo trabalhava no DCI (Diário do Comércio e Indústria), e na comitiva tinha gente da Folha, d’O Globo e até do SBT (este, um jornalista bem de direita). Países como o Canadá, Espanha e Itália já tinham relações mais fortes com Cuba, o que aliviava um pouco.

Aí vi o que tinha acontecido. Uma solução encontrada para recuperar a economia foi abrir o país para o turismo, o que tem consequências que muitas vezes são desastrosas, pois turista (nem sempre, mas acho que na maioria das vezes) é um predador. E funcionou meio assim lá, mas diziam: “Não tínhamos alternativa”.

Com a falta de combustível, que tinha sido um pouco amenizada mas continuava, para substituir os ônibus transformaram carretas enormes em veículos de passageiros, com capacidade equivalente à de uns três ou quatro ônibus. E a bicicleta passou a ser meio de transporte para muita gente, até com altos cargos no governo. A China forneceu um milhão de bicicletas aos cubanos.

Fui a um coquetel oferecido aos jornalistas, e uns três ou quatro ministros estavam presentes, além de outros altos funcionários do governo. A bebida oferecida era só mojitos (feito de rum, açúcar, água com gás, hortelã e gelo). O coquetel era exclusivamente frango frito.

Uns anos depois, já durante o governo de FHC, quando virou moda uma globalização nada solidária, simplesmente comercial, para atender interesses do capital, que redundava inclusive em demissões de trabalhadores aos montes, fiquei pensando sobre certos aspectos dessa globalização, em que os países centrais forçavam os periféricos a se especializarem na produção de algumas coisas, como forma de dominá-los, impedir que pusessem as asinhas de fora. Pensava na globalização capitalista: se a Colômbia, por exemplo, especializada em café, entrasse em desacordo com os Estados Unidos, o que aconteceria? Certamente, ficaria com café encalhado aos montes, sem chance de vender pra ninguém, pois a potência central bloquearia, e sem grana pra importar nada. Iria pro brejo.

E no Brasil? Aqui a economia é mais diversificada, seria mais difícil a potência central nos destruir, mas ficaríamos também com café encalhado, minérios encalhados, frangos encalhados, carne de vaca encalhada… e a economia sentiria um baque enorme. Ainda não existiam relações comerciais com a China. E nós aguentaríamos o baque com a mesma força que os cubanos aguentaram seu isolamento e seu desabastecimento?

Imagino o Brasil de hoje, se a China, os países árabes e a União Europeia cortassem as relações comerciais com a gente. O agronegócio, que aliás os governos Lula e Dilma beneficiaram bastante e que pulou para o bolsonarismo com tudo (eu já criticava esses governos antes, por isso, nunca confiei em agronegociante, para quem só interessa o lucro e não produzir para alimentar o povo) ficaria à míngua, assim como a produção de minério de ferro e outros. Desemprego, fome…

E tem mais. Eu me lembro que o meu pai era trabalhador rural e se tornou barbeiro. Em vez de trabalhar debaixo de sol e de chuva ganhando pouco, passou a trabalhar limpinho, na sombra, ganhando bem mais. Ele queria que eu fosse barbeiro, mas eu não gostava da profissão e ele não entendia. Expliquei: se eu tivesse sido trabalhador rural como o senhor, também iria achar uma maravilha a profissão de barbeiro. Mas não passei por isso, então, embora valorize bastante a profissão, quero outras coisas.

Os jovens querem mais, é normal, não conheceram um passado mais duro. Mas reconhecer isso não significa submeter-se a um modelo consumista, desigual, e de submissão… Será que se ocorresse em Cuba uma mudança sob a batuta dos capitalistas gringos ela não se tornaria algo semelhante à Polônia, Belarus, Hungria ou a própria Rússia?

Enfim, eu achava que o socialismo soviético não era bom, precisava melhorar muito, e acreditava que isso iria acontecer. Evoluir para um socialismo mais efetivo e democrático. Mas o que aconteceu foi o contrário, uma reversão para um capitalismo com regime corrupto e violento, em que se perderam conquistas que de fato tinham acontecido. O que os mandões do mundo atual querem que ocorra com Cuba é a mesma coisa, não uma melhoria. Quero, sim, que Cuba evolua. Evolua mesmo. Como? Não sei. Mas não jogando no lixo suas conquistas nem revertendo para o capitalismo, como aconteceu no leste europeu.

 Parafraseando Che, eu diria que hay que evolucionar-se, pero sín perder la solidariedad y la fraternidad socialista jamás….

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Mouzar Benedito

Mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).

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