E agora, cai?

Ingrid Gerolimich destaca que a prisão de Queiroz tem o poder de provocar sérios danos à imagem de Bolsonaro e é o evento com maior capacidade de produzir uma crise que pode levar à sua derrocada

Finalmente, a sorte de Bolsonaro começou a mudar, para pior. As fissuras na estrutura que sustenta o ignaro presidente no poder tornam-se cada vez mais evidentes, diante da publicização recente de vários casos que envolvem sua participação.

A prisão de Fabrício Queiroz, capturado em um sítio na tão badalada Atibaia, além de estrear um episódio de fazer inveja aos mais premiados roteiristas brasileiros, jogou luz novamente sobre o escândalo de corrupção envolvendo o filho mais velho do presidente e atual senador da República, Flavio Bolsonaro.

Flávio e Queiroz entraram na rota de investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro durante a operação Furna da Onça, que apura a prática de “rachadinha” e desvio de verbas nos gabinetes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Segundo consta nas investigações, Flávio Bolsonaro teria comandado uma organização criminosa de alto grau de complexidade, entre os anos de 2007 e 2018, na qual parte dos salários de seus funcionários de gabinete eram recolhidos e repassados a Queiroz, operador do esquema. Os recursos captados teriam sido lavados através de uma franquia de chocolates e outra parte do dinheiro, de acordo com a promotoria, financiou empreendimentos do miliciano Adriano da Nóbrega, chefe de uma organização mafiosa conhecida como Escritório do Crime, morto em uma operação na Bahia em fevereiro deste ano. 

Essas investigações atingem todo o clã Bolsonaro, porque têm potencial de revelar, ou ao menos deixar pistas, sobre o modus operandi da família em relação à evolução patrimonial incompatível que tiveram ao longo dos anos de atuação política. É bom lembrar que pai e filhos multiplicaram seus patrimônios em um curto período após ingresso na vida pública. Além disso, será que alguém ainda acreditará que Bolsonaro não fazia ideia do esquema montado pelo seu primogênito?

A má sorte de Bolsonaro não para por aí, outra pedra no sapato do mentecapto presidente é o inquérito das fake news, em curso no Supremo Tribunal Federal, e os processos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pedem a cassação da chapa de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, e que ganharam novo fôlego com o possível compartilhamento de provas entre as diligências. 

Todas essas apurações resultaram em eventos importantes, como os vários mandatos de busca e apreensão em casas de apoiadores do presidente. Entre os alvos das coletas estavam parlamentares como os deputados federais: Bia Kicis, Carla Zambelli, Daniel Silveira, Felipe Barros, Júnior Amaral; e os deputados estaduais de São Paulo, Douglas Garcia e Gil Dinis. Empresários bolsonaristas, como Luciano Hang, das lojas Havan, e Edgar Gomes Corona, da rede de academias Smart Fit, também foram objetos da ação. As diligências atingiram ainda os blogueiros e influencers: Allan dos Santos, Bernardo Kuster e Otávio Oscar Kafhoury. Por último, mas não menos importante, vimos ser ordenado por Alexandre de Moraes, no âmbito do inquérito das fake news, a prisão de Sara Winter. A líder do grupo 300 (que não chegam a 30) pelo Brasil é acusada de captar recursos para protagonizar ações que ferem a Segurança Nacional, cometendo crimes seguidos ao incitar a desordem política e o caos social.

Ainda é cedo para sabermos o quanto as investigações contra Flávio, o gatuno, serão capazes de prejudicar Jair, o capiroto, mas é fato que tendo sido eleito como paladino anticorrupção, a prisão de Queiroz tem o poder de provocar sérios danos à imagem de Bolsonaro e é, sem dúvida, até agora, o evento com maior capacidade de produzir uma crise que pode levar à sua derrocada.

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Isto, somado às ações judiciais que visam desbaratar a fábrica de fake news montada por sua família, mostram que o cerco está cada vez mais se fechando. Mas como no Brasil aprendemos que o jogo só acaba após o apito final, resta, frente a todos os indícios, questionar-nos: E agora, cai?

*Este artigo não reflete, necessariamente a opinião da Revista Fórum

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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