Raphael Silva Fagundes

25 de fevereiro de 2019, 23h14

Eles não são burros, são covardes mesmo: as estratégias da desinformação

Raphael Silva Fagundes aborda o projeto da equipe econômica de Bolsonaro: “A reforma da Previdência está montada sobre o discurso fiscal, de que é preciso angariar recursos. Mas existem outras formas de buscar recursos”

Foto: Agência Brasil

Vamos fazer um exercício de reflexão simples. Por que não se investe em saúde (física e mental) para depois aumentar a idade da aposentadoria? O trabalhador teria uma maior disposição física e mental, tendo assim condições para efetuar sua atividade laboriosa por mais tempo.

Mas o que o governo faz? No momento em que se cortam os investimentos públicos (recuso-me a chamar de gastos), aumenta-se a idade de contribuição para a Previdência. Isso é burrice ou covardia?

Certamente covardia. O presidente da Câmara, aliado de Bolsonaro, disse que um trabalhador consegue trabalhar até os 80 anos. É burrice ou covardia? O que estão fazendo com os trabalhadores rurais e com os professores, é burrice ou covardia?

Assim como em um quadro de um filme, onde todos os objetos, as formas e os gestos estão intencionalmente em seu devido lugar, a palavra de um político é proposital, e pode ser covarde, como é constantemente, mas jamais burra.

O político se finge de burro para emburrecer o seu eleitor. Ele, no caso, pode ser chamado de “mais inteligente”, embora não exista inteligência superior; todos somos intelectuais. No entanto, só há inteligentes (e consequentemente burros) quando alguém se finge de burro para que os outros imitem o seu gesto, o seu suposto raciocínio equivocado. Logo, toda burrice e inteligência são uma questão de poder, uma dissimulação.

Foi assim ao afirmar que o PT era comunista. Ou quando se afirmou que o PT afundou o país, ou quando se acredita que o décimo terceiro salário é um benefício. Está sendo assim ao se dizer que a ajuda humanitária à Venezuela não tem interesses políticos; um país que sofre bloqueios econômicos dos mesmos países que hoje se dizem solidários.

O emissor dessas mensagens se fez de burro para que o seu auditório se emburrecesse. Ou seja, a burrice é uma imposição, algo externo à pessoa que se torna burra. É a vida sendo “contada por um idiota, cheia de som e fúria”, como diz Macbeth.

O que é diferente de alienação. Alienação é quando uma pessoa realiza uma ação cuja finalidade é outra. Como trabalhar para sustentar a família. Isso não é burrice. Burrice é o raciocínio equivocado para fins manipuláveis. E entendemos manipulação a partir de Phillipe Breton, quando “se constrói de modo artificial uma mensagem em função unicamente de sua capacidade de obter a todo custo a adesão das pessoas” (1).

Aquele que se acha inteligente e os outros burros, não passa de uma forma expressada pelo senso comum sobre o que é o saber. Não é disso que se trata o processo de dissimulação daquele que busca o domínio, a manipulação.

Esse tipo de procedimento faz com que aquele que chamamos aqui de “inteligente” formule um raciocínio lógico, mas equivocado, e o venda de forma sedutora. Aquele que compra é visto por esse “inteligente” como burro, mas não revela a sua verdadeira intenção. Ele não se importa com a verdade, quer somente convencer do seu interesse.

Por isso que para combater esse tipo de ser não adianta investigar a verdade. A verdade não importa no processo de manipulação. É necessário criar outras narrativas, trazer outras verdades que se diferenciem daquelas que o “inteligente” moldou.

O ser humano é um péssimo informante. “Não há dúvida de que o homem transmite informações, mas ele o faz muito mal. Assim como o homem tem, com relação ao macaco do qual (talvez) descende, dois cromossomos a menos (46 em lugar de 48), assim também sua capacidade de processar de modo conveniente a informação parece consideravelmente degradada com relação a seus ancestrais animais” (2). Duas pessoas contam versões diferentes do mesmo fato. É extremamente complicado confiar em uma testemunha, sem falar na capacidade de nossa memória em transformar, esquecer, misturar. Por isso, os jornais são um forte instrumento de manipulação. A “palavra é fracamente informativa e fortemente argumentativa”. Ou seja, quando o ser humano faz uso da palavra ele tem mais interesse em convencer que em informar.

A desinformação torna-se um vilão muito mais perigoso que a fake news. A reforma da Previdência está montada sobre o discurso fiscal, de que é preciso angariar recursos. Mas existem outras formas de buscar recursos, como abaixar os juros, aumentar os impostos das grandes corporações e derrubar o mito de que não pode aumentar a circulação de moeda com medo do aumento da inflação, já que diversos países, como China, Japão etc. têm 40% do PIB de base monetária e não se preocupam com uma crise inflacionária, enquanto que o Brasil tem menos de 5% de base monetária vivendo sob o fantasma da inflação. “Aqui, acabamos emitindo dívida, que gera juros e condiciona toda a economia” (3).

O rombo apontado desde 2015 na Previdência poderia ter sido coberto se o governo buscasse financiamento em fontes constitucionalmente asseguradas, como a Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social (Confins), a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido das Empresas (CSLL), Pis/Pasesp etc… Mas prefere uma reforma que aumenta os anos de trabalho isocronicamente à depreciação dos serviços públicos. Covardia!

(1)BRETON, Philippe. “A manipulação da palavra”. Trad. Maria S. Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1999. p. 21.

(2)Id, p. 26.

(3)FATTORELLI, Maria. “Qual é o impacto da alta dos juros na dívida pública e na vida das pessoas?”. Le monde diplomatique Brasil, ano 9, n. 99, out, 2017. p. 27.

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