Escalada de estupidez e de mentira – Por Chico Alencar

Diante do que está acontecendo no Brasil, vale lembrar uma frase lapidar de Albert Einstein: “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Se bem que não tenho certeza absoluta quanto à primeira”

Não passa um dia sem que altas autoridades da República mintam ou professem sua crença nas mais variadas idiotices. E não só o “Pinóquio mor”, Jair Bolsonaro, faz isso. É algo que parece contagiante. Autoridades das mais diversas áreas dizem bobagens inacreditáveis. Vejamos as mais recentes.

Augusto Heleno, ministro de Segurança Institucional – um daqueles generais que, embora não seja marechal, recebe proventos como se fosse – afirmou que “uma intervenção militar poderia acontecer em momento mais grave”. Heleno se refere a um golpe. Atribui às Forças Armadas um tal “poder moderador” (ou de tutela sobre o país) que existiu antes da República, no II Reinado do Império. Poder exclusivo do imperador. Hoje, está mais do que estabelecido que isso não existe na Constituição.

Já o ministro da Educação, Milton Ribeiro, que deveria trabalhar pela inclusão de mais crianças e jovens no sistema de ensino, afirma que quer ver os pobres longe das escolas de terceiro grau. “A universidade tem que ser para poucos”, afirmou. Claro que nenhum país tem toda a sua população no terceiro grau. E nem isso é necessário. Mas se espera que haja condições de que todos os que desejem isso e cumpram os requisitos possam ir à universidade. O que o ministro afirmou foi outra coisa, diferente e extremamente elitista. Para ele, se alguém é pobre deve tirar da cabeça a ideia de chegar à universidade. Ela não é para o seu bico.

Ribeiro não ficou por aí. Emendou com uma consideração que poderia ser encampada por Adolf Hitler e seu séquito nazista. Criticou a existência de políticas de inclusão de crianças com deficiência nas escolas, ao lado de outros colegas. Segundo eles, esses meninos em salas de aula “criam dificuldades, atrapalham”.

Isso é de uma desumanidade atroz.

O ministro não chegou a propor que crianças com deficiência fossem levadas a câmaras de gás, “para o aperfeiçoamento da raça”. Mas escancarou seu mais completo despreparo para o cargo que ocupa.

A presença dessas crianças nas salas de aula, além de beneficiá-las de forma direta, o que por si só já justificaria sua inclusão, representa uma experiência extremamente enriquecedora para as demais, por conta da convivência diversificada. Essa convivência não é positiva apenas para as crianças com necessidades especiais, que podem se desenvolver sem que fiquem segregadas, mas é riqueza de respeito à diversidade para as demais.

Já Diogo Mac Cord de Faria, secretário de Desestatização do Ministério da Economia, também deu sua contribuição para o festival de sandices. Para justificar a absurda proposta de leilão do histórico prédio Capanema, do MEC, no Centro do Rio, afirmou: “Uma empresa privada pode oferecer proposta para comprar qualquer imóvel público, e tentaremos vender”.

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Que uma empresa privada possa fazer uma proposta para comprar um imóvel público, tudo bem. Mas a segunda parte da frase é escandalosa. Sem entrar em qualquer consideração sobre a conveniência de fechar o negócio, Mac Cord já afirma, sem sombra de dúvida: “Tentaremos vender…” Isso é não ter a compreensão da importância do patrimônio público para a sociedade. Esse patrimônio não pode estar num balcão, pronto para ser negociado em qualquer outra consideração.

Felizmente, a pressão da opinião pública, sensível à importância do prédio, fez com que uma dose de bom senso surgisse ontem. No momento em que este artigo é escrito há indícios de que a ideia da venda seria cancelada. Melhor assim.

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O festival de asneiras prosseguiu. E estamos falando das bobagens surgidas apenas nuns poucos dias.

A subprocuradora-geral da República, Lindôra Araújo, parceira de Augusto Aras, o titular do Ministério Público Federal, que confunde a sua função de defesa da sociedade com a de guarda-costas de Jair Bolsonaro, não ficou para trás.

Na contramão de todo e qualquer resultado das investigações científicas, a doutora Lindôra vai na linha do seu chefe maior, Bolsonaro, e afirmou que não há evidências de que o uso de máscaras e o isolamento físico ajudem a prevenir a contaminação pelo Covid-19. Baseado nesse absurdo, ela concluiu que não constitui crime Bolsonaro promover aglomeração de pessoas e combater publicamente o uso de máscaras.

Como se sabe, o presidente chegou a retirar máscaras do rosto de crianças presentes num desses eventos em que ele faz campanha eleitoral fora de época. A afirmação estapafúrdia de Lindôra foi feita em resposta à representação de um grupo de subprocuradores-gerais aposentados ao Ministério Público Federal, pedindo que o procurador Augusto Aras fosse investigado por estar deixando de cumprir suas atribuições, preocupado que estava em blindar a todo custo o presidente da República.

Enfim, diante do que está acontecendo no Brasil, vale lembrar uma frase lapidar de Albert Einstein (1879-1955): “Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Se bem que não tenho certeza absoluta quanto à primeira”.

Como se vê, o governo Bolsonaro se esforça para comprovar esta afirmação de Einstein.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Chico Alencar

Professor e escritor foi o quinto vereador mais votado da cidade do Rio de Janeiro em 2020 pelo PSOL. É graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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