Estreia de WandaVision e Top séries de 2020 – Por Filippo Pitanga

Confira a estreia da nova série dos super-heróis da Marvel na Disney Plus e aproveite pra maratonar as melhores séries de 2020 enquanto esperamos a vacina.

Domingo, 17 de janeiro. Dia histórico. A vacina finalmente foi aprovada no Brasil e chegará em breve a todos, um grupo de cada vez. Enquanto isso, podemos dar dicas de séries para passar o tempo um pouco mais rápido, inclusive a estreia mais quente do início de 2021: “WandaVision”, da Disney Plus, com dois episódios que têm por volta 30 minutos, já liberados ontem no canal de streaming – fazendo uma homenagem toda especial a inúmeras séries de comédia clássicas como “I Love Lucy” (1.951), “Papai Sabe Tudo” (1.954), “The Dick Van Dycke Show” (1.961), “A Feiticeira” (1.964), “Jeannie é um Gênio” (1.965) e até “That ‘70s show” (1.998), etc.

A maior parte dos fãs que acompanha o universo expandido da Marvel no audiovisual, cinema, TV, Netflix e agora pela Disney Plus não via os seus super-heróis favoritos desde o desfecho da primeira parte da saga com “Vingadores: Ultimato”. O destino de muitos deles acabou em aberto, especialmente o de alguns personagens-chave, como o androide Visão (Paul Bettany), cuja poderosa joia do infinito que lhe dava poderes (e vida) foi retirada à força no final de “Vingadores: Guerra Infinita”… Um dos raros filmes da franquia a sair um pouco do padrão, pois apostava no desenvolvimento do roteiro a partir da “Jornada do Vilão”, em oposição à típica “Jornada do Herói”, como conceituado pelo antropólogo Joseph Campbell no livro “O Herói de Mil Faces” (leia mais aqui).

Dirigida por Matt Shakman e inspirada na premiada HQ “Visão: Pouco Pior que um Homem”, a esperada série “WandaVision” não começa de onde a história parou. Muito pelo contrário. O que pode intrigar muitos fãs de plano. Acompanhamos a dupla formada por Visão e Wanda Maximoff, vulgo Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), recém-casados, e tendo se mudado para um bairro suburbano perfeitinho e regrado tipo “The Stepford Wives”. Logo nos dois primeiros episódios já liberados, a estética é toda em preto e branco, o humor naïf, com as famosas gags e os aplausos da platéia tipo “sitcom” (expressão norte-americana que abrevia as palavras “situation comedy”, as típicas séries de comédia de 30 minutos). E tudo isso pode soar estranho inicialmente ao típico fã dos filmes de super-heróis…    

Eis que o estranhamento inicial está virando rapidamente aclamação, justamente por quebrar os moldes e trazer um pouco de algo que não costuma haver na proposta homogênea dos outros filmes e derivados: um conceito autoral. Mas o que é isso? O típico fã de quadrinhos que começou a virar cinéfilo junto com os primeiros filmes da Marvel no Cinema, seja na FOX e Sony, como “X-men” e “Homem-Aranha, respectivamente, seja no próprio estúdio, como com “Homem de Ferro” em diante… A maioria dos longas-metragens até hoje foram muito similares entre si, com propostas cromáticas bastante aproximadas, ritmo, roteiro, divisão de três atos e até trilha e efeitos especiais seguindo um padrão – com raríssimas exceções, como a comicidade retrofuturista de neon de “Guardiões da  Galáxia” (2014), que misturava passado e futuro vintage (leia aqui), ou como “Pantera Negra” (2018), que combinava ficção especulativa com afrofuturismo (leia aqui).

Agora, alguns fãs estupefatos não sabem muito bem como descrever a nova série. Outros estão ovacionando o status imediato de “Twin Peaks”, de David Lynch. Mas calma, não é para tanto. A verdade é que as analogias estão mais para a variação estética num nicho muito fechado do que necessariamente para um giro Copérnico de 180º graus no quesito inovação. Até porque a série só liberou míseros dois episódios até agora, e faltam muito para saber a que veio, ainda mais porque os criadores prometeram que sua trama teria relação direta com um dos próximos longas-metragens inéditos por vir: “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”.

A curiosidade de fato que esta ousadia nos traz é o quanto a linguagem audiovisual utilizada pelas produções contemporâneas andam sendo por demasiado condescendentes com seus espectadores. Não estamos dizendo que toda obra deve reinventar a roda. Nem que usaremos as complexas teorias sobre cinema do filósofo Gilles Deleuze aqui para defender patamares mais elevados de propostas cinematográficas com seu livro “Imagem-Tempo” (ok, não usaremos muito, só um pouco). E, na verdade, é muito bem-vinda a novidade, especialmente se alcançar novos públicos e olhares a partir de produtos de massas como os super-heróis, derivados de histórias em quadrinhos que muitas vezes foram bem mais intelectuais do que muitos dos filmes que as verteram, sem subestimar a inteligência do espectador.

Para entender tal pequeno fenômeno, vale começar pelo fato de “WandaVision” usar de metalinguagem para referenciar várias outras séries da história da televisão (dos figurinos ao cenário, das piadas ao corte de montagem e ritmo). E não só. Logo séries de comédia – sendo que o esperado para dois dos personagens mais poderosos dos “Vingadores” seria uma trama de ação e aventura. No entanto, eis a segunda coisa interessante disso: a comédia não está ali realmente para fazer rir, e sim pra ampliar o estranhamento, a incógnita a ser desvendada e até o suspense (sim, a comédia pode gerar suspense!) – apesar, claro, de conter ironias explícitas e implícitas em trocadilhos bem inteligentes com o universo expandido que a originou e mesmo com o extracampo audiovisual.

Em outras palavras, o riso é muito mais de nervoso ou de constrangimento do que necessariamente de galhofa (ainda que não deixe de haver algumas). O constrangimento, no caso, é intencional, e serve pra derrubar as defesas do espectador. Quando ele ri, ele é afetado. E a câmera sabe disso, pois de planos abertos e compostos típicos de “sitcom”, a direção subitamente fecha o quadro em planos detalhes e closes nas expressões intrigadas de seus dois protagonistas – eles próprios não entendendo muito bem por que estão naquelas situações absurdas…

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Seria aquilo uma prisão virtual? Estariam numa espécie de “O Show de Truman” (1.998)? E a trilha e ruídos no desenho de som acompanham isso, pois quando a câmera dá seu close neles, distorcendo o fundo ao seu redor com lentes grandes angulares, é para que desvie nossa atenção de súbito. Esta surpresa nos deixa com uma pulga atrás da orelha, de forma ainda mais acentuada, até porque o clima ameno de comédia inicial deixa ainda mais contrastes.

Os próprios heróis não se lembram de nada antes de seu casamento. Nem como casaram. E para quem conhece os quadrinhos, sabe que Wanda possui poderes inimagináveis de distorção da realidade, e pode ela própria estar gerando esse pequeno microcosmo de casas conjugadas num bairro suburbano para protegê-los de algo maior… Muitas perguntas são deixadas no ar, principalmente no trato com excelentes coadjuvantes já conhecidas no universo das HQs, como Monica Rambeau, vulgo futura Pulsar/Fóton (Teyonah Parris), cuja personagem já havia aparecido ainda criança (Akira Akbar) em “Capitã Marvel” (2019) – leia mais aqui. Bem como outras personagens por enquanto inéditas, das quais ainda não se sabe muito, como a ótima vizinha fofoqueira Agnes (Kathryn Hahn, de “Transparent”), a perturbadora líder da comunidade Dottie (Emma Caulfield de “Buffy”), e Mrs. Hart (Debra Jo Rupp de “That ‘70s show”), dentre outros…

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Sem falar no fato de que, conforme os episódios avançam, foi prometido pelo atual presidente geral da Marvel, Kevin Feige, que cada episódio irá referenciar cada vez mais outras séries. Tanto que a estética em preto e branco que começou homenageando séries como “A Feiticeira” e “I Love Lucy” foi ganhando algumas cores, sempre com quebra do humor para o suspense e a intriga, como no filme “Pleasantville – A Vida em Preto e Branco” (1.998), acabou dominando escancaradamente todo o cenário na tela ao final, que virou completamente colorido (e parece que com a consciência total de Wanda, cuja amnésia pode estar sendo autodefesa ou mesmo manipulação por terceiros). Veremos o que esperar…

E, na onda das séries da Disney Plus, como “O Mandaloriano”, que conquistou a todos no final do ano passado com sua segunda temporada e seu fofíssimo Baby Yoda, a Fórum dará um ranking das séries estrangeiras de 2020 para que vocês possam maratonar até que a vacina chegue! Já o Top das séries brasileiras virá na próxima coluna.

Vale mencionar que esta coluna ainda não assistiu duas favoritas de muita gente, e que pode ser que entrassem no Top (ou não), então fica a dica: “Normal People”, da Hulu/Amazon Prime Video, e “I’ll Be Gone in The Dark”, da HBO. E lembrando que a excelente “Watchmen” na HBO foi de 2019. E “Cobra Kai” e “Faz de Conta que NY é uma Cidade”, de Martin Scorsese, ambas na Netflix, estrearam apenas na virada do ano para 2021, mas altamente recomendamos para quem quer se divertir muito.

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Filippo Pitanga

Jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema

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