Eu tenho a prova de que as eleições foram fraudadas: a prisão de Lula – Por Raphael Fagundes

As eleições foram fraudadas, todos sabemos, mas não por conta da urna eletrônica. Não seria diferente se o voto fosse impresso. As fraudes ocorreram pelo golpe que levou à prisão de Lula

Bolsonaro tem o hábito de desviar o foco dos problemas que acometem o seu governo criando polêmicas. Em meio a um cenário de crise, no qual o presidente está sendo acusado de envolvimento em um esquema corrupto de compras superfaturadas de vacinas, ele acusa os ministros do STJ de serem coniventes com as fraudes eleitorais que afirma, sem provas, que existiram.

Diz que a urna eletrônica é facilmente violada. Para fundamentar seu argumento coloca vídeos de um acupunturista de árvores, de pessoas falando que digitavam o seu número e aparecia na urna voto nulo e outras bizarrices sem nenhum cabimento. Em uma estratégia retórica cabulosa, devolve a pergunta: “Me provem que não houve fraude?”.

Como muitos de seus seguidores confiam em sua palavra, mesmo sem nenhum fundamento empírico? Trata-se de um conhecimento pautado na crença. Lembra o mecanismo fascista que trabalha de modo a colocar as palavras do líder acima de qualquer evidência histórica ou empírica.

“Mussolini está sempre certo”, diziam os fascistas italianos. Lugones, um intelectual fascista argentino, disse ao general ditador José F. Uriburu: “Não dê ouvidos aos intelectuais universitários, meu general. Basta sua consciência de patriota e soldado”.

A legião fascista romena dizia em seus “dez mandamentos”: “o legionário só acredita nas ordens e na palavra de seu líder”.[1]

A partir dessa lógica, Bolsonaro afirma que a ditadura civil-militar foi um movimento democrático; recomenda medicamentos passando por cima da medicina; que não há queimadas na Amazônia, mesmo sendo registradas em imagens de satélites; que as eleições foram fraudadas sem apresentar nenhuma prova etc.. A palavra do líder está acima da verdade empírica.

As eleições foram fraudadas, todos sabemos, mas não por conta da urna eletrônica. Não seria diferente se o voto fosse impresso. As fraudes ocorreram pelo golpe que levou à prisão de Lula. O candidato petista estava na frente em todas as pesquisas de intenção de voto e, mesmo com a propaganda antipetista, com o golpe jurídico parlamentar de 2016 e com o foco da Lava Jato nos políticos do PT, a imagem de Luiz Inácio Lula da Silva não foi desgastada para o cidadão.

Todos lembram de um período em que havia comida na mesa. O Brasil havia saído do mapa da miséria. O poder de compra do proletário nunca havia sido tão alto. Sem falar nas universidades criadas durante a gestão do petista e da ampliação do acesso ao ensino superior.

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A maior parte da população brasileira lembra dessas conquistas.  E por isso depositam suas esperanças em Lula. O mercado financeiro, o Exército e outros grupos, em conluio, não queria mais um liberalismo light. Pelo contrário, com a crise no petróleo no mundo, as elites optaram por um liberalismo radical, mas para isso precisavam eliminar o personagem que poderia prejudicar os seus planos nefastos.

Foi assim que se armou todo um espetáculo que culminou na prisão de Lula. Porém, após sua saída da prisão e revelado que tudo não passava de processo arbitrário, a imagem do ex-presidente não se destruiu. E as pesquisas apontam que, se as eleições fossem hoje, ele venceria disparado.

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Bolsonaro afirma que se as eleições não fossem fraudadas, ele venceria no primeiro turno. Uma mentira deslavada. A verdade é que se Lula não for impedido de disputar as eleições em 2022, se não houver o golpe que o afastou do pleito de 2018, ele sim, vencerá no primeiro turno.

[1] FINCHELSTEIN, F. Uma breve história das mentiras fascistas. São Paulo: Vestígio, 2020, p. 66.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


 

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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