Há 60 anos, um ensaio de autogolpe (JQ ontem, JB hoje) – Por Chico Alencar

Bolsonaro tem pontos de aproximação com Jânio, mas é muito mais perigoso para o Brasil: seu projeto é de destruição (como já declarou e pratica) e seu moralismo é de ocasião

Agosto vai chegando ao fim e há no ar um clima de apreensão com a aproximação do Sete de Setembro. Enfrentando problemas crescentes e num isolamento cada vez maior, o presidente Jair Bolsonaro não se preocupa em esconder que pretende criar confusão na sociedade para evitar uma derrota nas eleições de outubro do ano que vem.

Até poucos dias, o mote para embaralhar o jogo democrático era a exigência de voto impresso. O presidente chegou a afirmar que ou ele seria aceito, ou não haveria eleição – como se dependesse dele essa decisão. Apesar das ameaças, que incluíram um desfile de blindados na Praça dos Três Poderes no dia em que foi votada a proposta de emenda constitucional instituindo a mudança do sistema de votação, deu com os burros n’água.

Passou, então, a agitar outra bandeira, sempre com a intenção de melar o jogo e inviabilizar um processo eleitoral democrático: anunciou que pretendia levar ao Senado a “proposta” (palavra que, com frequência, é trocada por “exigência”) de impeachment de dois ministros do STF. E anunciou que aproveitará o Dia da Independência para promover uma manifestação em Brasília em torno dessa bandeira, sendo apoiado por caminhoneiros e empresários do agronegócio, que promoveriam bloqueios de estradas, paralisando o país.

Teve dois escudeiros nessa bravata: o cantor sertanejo Sérgio Reis, com seu indefectível chapelão, e o ex-deputado Roberto Jefferson, hoje presidiário e proprietário de um partido de aluguel. O primeiro já se retratou, em lágrimas, das tenebrosas ameaças feitas, dizendo que foi mal-interpretado. O segundo, que tinha postado uma foto com armas nas mãos, agora se preocupa em pedir prisão domiciliar, alegando problemas de saúde.

Há exatos 60 anos, outro presidente, Jânio Quadros, criou uma crise institucional. Ele também se dizia contra o sistema, embora tivesse sido vereador, prefeito e governador. Sua campanha, com forte teor moralista, tinha como símbolo uma vassoura, que varreria toda a sujeira do país. Eleito, parecia mais um delegado de costumes: proibiu biquinis, brigas de galo e corridas de cavalo nos dias úteis à tarde.

Gostava de ter um comportamento que supostamente traria identificação com a população mais pobre. Assim, comia bananas ou sanduíches de mortadela em cima de palanques e em solenidades, enquanto – confundindo simplicidade com mau gosto – salpicava talco no paletó para parecer caspa. Tinha cabelos desalinhados, nem sempre muito limpos e costumava dizer frases fortes, sempre em português castiço, usando palavras que as pessoas comuns não conheciam.

Qualquer semelhança com Bolsonaro – exceto pelo zelo com a língua pátria – não é só coincidência: Jânio foi também um populista de direita e tinha fortes pendores autoritários.

Num 25 de agosto (Dia do Soldado), Jânio renunciou ao cargo, enviando uma carta ao Senado e responsabilizando supostas “forças terríveis” que estariam minando seu governo. Contava com a não aceitação da renúncia pelo parlamento, com um pronunciamento dos militares e com sua manutenção na Presidência, com poderes aumentados. O tiro saiu pela culatra e o golpista de si mesmo, desconcertado, resolveu ir, por conta própria, para o exterior.

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Criada uma situação de instabilidade, o povo foi para a rua, mas não para pedir a volta de Jânio, e sim para garantir a posse do vice-presidente João Goulart, o Jango, de centro esquerda (na época, as votações para presidente e vice eram separadas, o que permitia situações esdrúxulas como serem eleitos presidente e vice com posições contrárias).

O Alto Comando Militar informou que não aceitaria a posse de Jango. Por sua vez, Leonel Brizola, que governava o Rio Grande do Sul, liderou uma ampla mobilização popular em defesa do cumprimento da Constituição, criando a Campanha da Legalidade. Ao final, chegou-se a uma posição de compromisso. Os militares recuariam, permitindo que Jango assumisse a Presidência, mas antes seria aprovada uma emenda constitucional instituindo o parlamentarismo.

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Apesar das críticas de Brizola, Jango aceitou o acordo.

Depois, em 1964, os militares rasgaram de vez a Constituição, saindo das “quatro linhas”, mas aí já é outra História (tenebrosa, aliás).

Bolsonaro tem pontos de aproximação com Jânio, mas é muito mais perigoso para o Brasil: seu projeto é de destruição (como já declarou e pratica) e seu moralismo é de ocasião. Sempre se locupletou das benesses como parlamentar, pratica largamente o empreguismo familiar, sentou-se no colo dos corruptos do Centrão e, com seus amigos, está com rabo preso na “propinavac”, como mostrou a CPI da Covid.

Mas, sobretudo, ao contrário de Jânio, a sanha autoritária de Bolsonaro tem lastro em setores das Forças Armadas, nas polícias, em grupos milicianos e em agronegocistas, sendo favorecido pelo estímulo ao armamentismo crescente. Opera também com uma poderosa rede de ódio e fake news no mundo digital, coisa inexistente há seis décadas.

Isso faz dele um personagem muito mais nocivo do que Jânio Quadros.

A ver o que nos vai trazer o Sete de Setembro.

Mas, JQ ou JB, o Brasil já teve, e merece, coisa melhor.

Muito melhor.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Chico Alencar

Professor e escritor foi o quinto vereador mais votado da cidade do Rio de Janeiro em 2020 pelo PSOL. É graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Educação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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