Importa mais vidro de loja do que vida de preto, por Adriana Mendes

Cara gente branca, quantas vezes vocês, ou seus filhos brancos, consumiram alguma coisa dentro de supermercado e pagaram (ou não) na saída? Quantas vezes foram abordados?

Passadas as eleições, com o aumento de mulheres negras e trans eleitas para o Legislativo (ainda é pouco, porém, não retrocedemos), vem então o Dia da Consciência Negra chegando. Eu, entre leituras e análises de gráficos, pandemia e problemas familiares, gostaria de escrever sobre esse tema: mulheres negras na política. Mas o Brasil não é um país para pensadores. Não há tempo para pensar, filosofar, tem que ter ação e reação. Somos atacados o tempo todo, inclusive, por nós mesmos.

O assassinato por espancamento do negro João Alberto Freitas, no estacionamento de um Carrefour de Porte Alegre, por seguranças, anteontem (19 de novembro, véspera do Dia da Consciência Negra) foi repleto de simbologias. E o dia 20 de novembro de 2020 marcado por manifestações e protestos nas ruas. Racismo e revanches nas redes sociais. Aos que esperavam que a pandemia trouxesse reflexão e solidariedade, sinto que abriram ainda mais os portões para a bestialidade e egoísmo.

Não faltaram pessoas publicando a ficha corrida da vítima em comentários de matérias, justificando o assassinato no mais puro espírito do “bandido bom é bandido morto”. Na ficha, perdas de documentos e lesão corporal. Eu perdi muito mais documentos do que ele. Não sei o quanto João Alberto lesionou alguém corporalmente, mas ele foi lesionado até a morte e nada, absolutamente nada, justifica isso. E vi estudante de Direito (jovem branco) acusando a vítima por sua “ficha criminal”.

Claro que essas pessoas encontram razão para falar absurdos sobre o que quiserem, já que até o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, um afrodescendente, declara que racismo não existe no Brasil e repete várias vezes a expressão “gente de cor”, “pessoas de cor”. Isso não deveria me causar espanto, já que o mesmo, em outra oportunidade, declarou para o País sem racismo que seu neto era lindo, pois tinha “embranquecido”. Com uma ação dessas, o que esperar? Uma grande reação.

Menos de 12 horas após o assassinato, os movimentos negros e progressistas de várias capitais organizaram-se para fazer manifestações e protestos em frente a várias lojas Carrefour, Brasil afora. Faço parte de muitos grupos em redes sociais e sei quando a coisa vai ser grande. Já se falava em quebrar tudo e colocar “fogo no parquinho”. E então aparecem pessoas, que não se posicionaram contra o Carrefour, com discurso paz e amor, que não se pode vandalizar, que não se combate violência com violência, “onde já se viu ficar quebrando vidro?”. É muito triste viver num mundo em que importa mais vidro de loja do que vida de preto.

Mas o que podemos fazer para mudar isso? Boicote! Há muito tempo eu boicoto. Muita gente me diz que isso não vai mudar nada. Mas o que move o mundo? Sexo e dinheiro! Sobre sexo, escrevo em outro texto, mas por dinheiro se faz tudo: desmatamento, assassinato, desvio de verbas públicas, inflacionam o preço de respiradores para hospitais, trabalho sem folga, roubo, sequestro. Não se faz nada disso por amor. Essas empresas que usam trabalho escravo, que não se importam nem com a vida, nem com a morte das pessoas ou animais, não merecem que entremos em suas dependências, que gastemos lá. Passei a boicotar o Carrefour desde dezembro de 2018, quando uma cachorrinha foi envenenada e espancada por um funcionário da loja de Osasco (SP). O caso teve repercussão nacional e por ele fiquei sabendo que dois meses antes, seguranças de uma loja Carrefour em São Bernardo do Campo tinham espancado um jovem negro, que teve múltiplas fraturas e ficou com uma perna mais curta que a outra, porque abriu uma latinha de cerveja no estabelecimento. Ele nem tinha saído da loja e disse que ia pagar na saída.

Cara gente branca, quantas vezes vocês, ou seus filhos brancos, consumiram alguma coisa dentro de supermercado e pagaram (ou não) na saída? Quantas vezes foram abordados? Em julho, plena pandemia, eu estava no supermercado Extra, em Boiçucanga, litoral paulista, e vi uma família fazendo compras. Um casal, uma jovem adulta e dois pré-adolescentes, todos de máscara no queixo. O homem tomou duas latinhas de cerveja, na segunda fui falar com o gerente. A família era branca.

Segui no boicote e não me arrependo, porque em agosto deste ano um funcionário morreu numa loja Carrefour do Recife. Cobriram seu corpo com guarda-sóis e caixas por quatro horas e a loja seguiu funcionando. Não é caso isolado. É a política da empresa. É a administração da empresa, que terceiriza os seguranças. Que não valoriza a vida humana ou animal, treina para que protejam produtos e não pessoas. Os programas para diversidade, inclusão e igualdade acontecem no executivo, não no operacional. Na base, é peão derrubando peão. Temos o poder de escolher onde iremos consumir e gastar. Fazemos parte dessa roda de consumo que move o mundo. Sei que vai chegar uma hora que não teremos onde comprar, porque se procurar bem, sempre tem um trabalho escravo, infantil, testes em animais, desmatamento. Mas e se esse for o caminho, a diminuição do consumo e da produção em massa? Comprar comida do MST, agricultores familiares. Comprar roupas de pequenas confecções, valorizar a pequena escala. Acredito que isso possa fazer mais diferença do que notas de repúdios e cards indignados em redes sociais.

*Este artigo não representa, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Adriana Mendes

Jornalista, integrante dos Coletivos Vote Nelas e Mães na Luta, ativista pelo desarmamento.