Invasão do Capitólio foi um não-acontecimento?, por Wilson Ferreira

“Baderneiros” ou “arruaceiros” foram as expressões mais usadas para nomear os manifestantes pró-Trump, incitados depois de um discurso de três horas do seu líder e herói, na praça do obelisco de Washington

Chocados e bestificados, jornalistas da grande mídia viam o mito da democracia americana se transformar numa república bananeira, ao vivo, no cerco e invasão ao Capitólio por um “white riot” trumpista. Diante de tudo, jornalistas buscaram criar uma narrativa com happy end – afinal, essa é a função do jornalismo corporativo: alarmar e, depois, tranquilizar. Porém, as coisas não são bem assim. Assim como o auge dos atentados terroristas “não acontecimentos” na Europa (psy ops, false flags e inside jobs), também o cerco e invasão do Capitólio suscitam algumas questões que, como sempre, a grande mídia passa longe. Como em todo não-acontecimento (repleto de paus de self e ativistas digitais fazendo lives), o ataque ao Capitólio possui em seu núcleo uma ambiguidade fundamental e implica numa pergunta: “quem ganha?”.

Choque! Consternação! Incredulidade! Como foi possível na considerada maior democracia do planeta centenas de manifestantes cercarem o prédio do Congresso dos EUA, invadirem, resultando em cinco mortos e 50 feridos? 

Esse foi o tom do jornalismo corporativo cujos apresentadores, ainda mais consternados, liam a manifestação de solidariedade do “ditador” Nicolas Maduro, presidente da Venezuela, desejando “estabilidade e justiça social” para os EUA… como assim? Um “ditador” latino-americano dando lição de moral aos EUA transformado por algumas horas em república bananeira? Algo parecia estar fora da ordem! 

“Baderneiros” ou “arruaceiros” foram as expressões mais usadas para nomear os manifestantes pró-Trump, incitados depois de um discurso de três horas do seu líder e herói, na praça do obelisco de Washington. “Você não cede quando há roubo envolvido”, disse ele. “Nosso país está farto e não vamos aguentar mais”, acrescentou. Pronto! Foi o comando para a multidão se dirigir ao Capitólio no momento em que os parlamentares debatiam a certificação da vitória de Joe Biden.

Entre incrédulos e bestificados, as narrativas dos telejornais buscavam algum happy end que colocasse as coisas em ordens e os EUA voltassem a ser o modelo de democracia para o mundo. E veio… Depois de várias horas de confronto entre manifestantes e policiais, os trabalhos foram retomados e a vitória de Biden foi ratificada às 3h40 da madrugada.

Para os analistas da grande mídia, a Democracia foi colocada de volta nos trilhos e os maiores derrotados foram Trump e os arruaceiros, jogados na lata do lixo da História… Shame on you!… Essa é a lição de moral que a grande mídia tenta passar ao distinto público. Afinal, essa é a sua função social: alarmar e depois tranquilizar, para que depois todos voltem para a cama e tenham um dia seguinte produtivo.

Porém, as coisas não são bem assim. Assim como o auge dos atentados terroristas “não acontecimentos” na Europa, de 2013 a 2016 (Paris, Nice, Berlim, Bruxelas, Londres etc.), cheios de fios soltos sugerindo psy ops, false flags e trabalhos internos (inside Jobs – sobre o conceito de “não-acontecimento”, clique aqui), também o cerco e invasão do Capitólio suscitam algumas questões que, como sempre, a grande mídia passa longe. Afinal, ela está sempre em busca de um happy end tranquilizador. Aquilo que não tranquiliza é rapidamente descartado como “teoria da conspiração”.

Como em todo não-acontecimento, o ataque ao Capitólio possui em seu núcleo de evento uma característica e uma pergunta: ambiguidade e “quem ganha?”.

“Por que a segurança do Capitólio não estava preparada para os ataques que já eram previstos?”, pergunta David Ignatius em artigo no The Washington Post. Para o articulista, o Departamento de Justiça e Defesa sabia que os manifestantes pró-Trump, incluindo extremistas supremacistas armados, poderiam invadir o prédio do Congresso. 

Por que, então, não estavam melhor preparados para o ataque que se sucedeu?

“Esse é o enigma no centro do espasmo de anarquia violenta de quarta-feira: as autoridades viram a multidão chegando, mas não estavam prontos ou capazes de pará-la – e eles permitiram que centenas invadissem o Capitólio, ameaçassem legisladores e, por um tempo, fomentassem um golpe dentro o símbolo mais precioso da democracia dos EUA” (clique aqui).

A Polícia do Capitólio planejou expandir o perímetro normal ao redor do edifício e prender qualquer um que tentasse violá-lo. No final das contas, eles estavam totalmente despreparados para o ataque que veio. Segundo Ignatius, quando questionado o porquê da Polícia do Capitólio não ter agido de forma mais agressiva ou chamado reforços mais rapidamente, um oficial sênior respondeu apenas: “Essa é uma boa pergunta”.

Ao invés do Pentágono e Guarda Nacional, a segurança foi entregue ao gabinete do prefeito e Departamento de Justiça

A resposta do articulista do The Washington Post é fraca, tentando diluir a gravidade dessa “boa pergunta”: teria sido supostamente um cálculo proposital da chefia do Pentágono para que militares não fossem usados para reprimir um protesto civil, para não dar a Trump o pretexto de invocar a Insurrection Act. 

Mesmo que para todos parecesse uma insurreição, que acabou colocando em risco a vida dos legisladores no importante momento da liturgia democrática: a certificação do resultado das eleições.  Apesar da crônica anunciada de um desastre, a retirada dos insurgentes do interior do Capitólio acabou sendo feita pela SWAT, pelo Escritório de Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos e outras agências.

White Riot

Por outro lado, Derecka Purnell, do The Guardian, lembrou a imagem de um grupo de homens e mulheres brancos com bandeiras e vestindo camisetas com dizeres supremacistas perseguindo um policial negro, que empunhava apenas uma vara para se defender. Ele tentava desesperadamente conter a turba que o perseguia subindo por uma escadaria no interior do Capitólio.

Derecka Purnell acusa: “Onde há rebelião branca por causa conservadoras, há conluio com o Estado” (clique aqui).

Um White Riot, com bandeiras americanas, confederadas, imagens de crânios com rifles cruzados, serpentes em forma do “Q” do infame QAnon, red necks subindo por andaimes, quebrando janelas, invadindo escritórios de senadores e a grande cena: um sujeito com roupa de bisão, cara pintada, sem camisa, como fosse um personagem saído do filme Mad Max, sentado na cadeira do presidente do Congresso.

E um tratamento das forças policiais bem diferente das rebeliões negras, onde forças policiais militarizadas pisam, lançam bombas, atiram balas de borracha e prendem centenas de manifestantes.

“Por que não vemos policiais em manifestações fascistas? Da mesma forma como não vemos Batman e Bruce Wayne juntos”, ironizava um tuite lido por este humilde blogueiro no calor dos acontecimentos.

Ao ver as imagens da invasão do Capitólio, foi inevitável lembrar das imagens da também infames da guerra híbrida das “Jornadas de Junho de 2013” nas quais manifestantes fizeram fogueiras nos gramados em frente ao Congresso Nacional, invadiram a cobertura do prédio e tentaram forçar a entrada. Sob ações repressivas tímidas e pontuais. 

O resultado foi a crescente polarização política até a desconstrução do sistema político pela extrema-direita que chega ao poder prometendo destruir, por dentro, as instituições democráticas.

Quem ganha?

Parece ser estranho, mas poderíamos falar de um trabalho interno por trás dos eventos de Washington? Uma psy-op? Será que presenciamos a mesmas táticas da Guerra Híbrida, agora do “Deep State” contra as próprias instituições da democracia liberal norte-americana? Um não-acontecimento, destinado à irradiação pelo contínuo midiático, para solapar ainda mais a democracia liberal pelo reforço da polarização radical de corações e mentes? Como Biden e as instituições democráticas governarão em um país tão dividido?

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Wilson Ferreira

Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.

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