O que o brasileiro pensa?
30 de julho de 2020, 15h00

Jesus, o Cancelado; por Zé Barbosa Jr

"Não estranho essa atitude dessa ala fundamentalista e moralista religiosa, evangélica e dada às fake news que por ali sobejam. Essa é a turma que há muito tempo já pratica o cancelamento, bem antes de se tornar o que é hoje. E o primeiro a ser cancelado foi Jesus. Também, cá pra nós, ele fez por onde"

Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

Vivemos a era do cancelamento, ou usando o termo correto, a “cultura do cancelamento”. Digo “termo correto” porque este foi eleito como o termo do ano pelo Dicionário Macquarie. O fato é que, queiramos ou não, sejamos favoráveis ou não, ele está aí… e o que mais tem é gente e empresa sendo “cancelada”.

Geralmente o cancelamento vem após uma declaração, uma propaganda, uma postagem em uma rede social qualquer. Bastou incomodar os olhos/ouvidos de uma pessoa ou se um grupo de pessoas e, “pá”, a pessoa/empresa/coletivo ou seja lá o que for sofrerá as agruras da tentativa de cancelamento.

Dois casos recentes chamam a atenção: as tentativas de cancelamento do youtuber Felipe Neto e da empresa Natura, ambas tentativas alicerçadas sobre dois aspectos que caminham juntos: conservadorismo/moralismo e homo/transfobia. E não me espanta que aliados a tudo isso estejam os porta-vozes dos movimentos religiosos fundamentalistas, como Silas Malafaia, por exemplo.

E não estranho essa atitude dessa ala fundamentalista e moralista religiosa, evangélica e dada às fake news que por ali sobejam. Essa é a turma que há muito tempo já pratica o cancelamento, bem antes de se tornar o que é hoje. E o primeiro a ser cancelado foi Jesus. Também, cá pra nós, ele fez por onde. Umas declarações pra lá de absurdas. Senão, vejamos:

Ele fala que só conhece politicamente (já que o texto fala de julgamento das NAÇÕES) aqueles que “deram comida aos que tinham fome, água para os que tinham sede, acolheram os imigrantes/refugiados, vestiram os que não tinham nada, visitaram/cuidaram dos doentes e visitaram/cuidaram dos presos”, ou seja, para Jesus, Estado bom é o que tem uma boa política de segurança alimentar, saneamento básico, acolhimento internacional, dignidade humana, saúde pública e gratuita e um sistema de segurança que restaure o ser humano. Resultado: foi cancelado pela bancada evangélica.

Também disse que o objetivo da igreja, no mundo em que está inserida, é servir, e não ser servida. Resultado: foi cancelado por boa parte da igreja.

Jesus ainda ousou dizer que seus discípulos seriam conhecidos pela mansidão, pela humildade, por ter fome e sede de justiça (não de justiçamento) e, pra piorar, não falou absolutamente NADA contra os homoafetivos do seu tempo (ou você acha que no tempo dele eles não existiam?), ou seja, para ele isso não era motivo de preocupação e não disse uma linha sequer sobre o tema, em compensação passou boa parte de seu ministério expondo os líderes religiosos que exploravam a fé do povo, extorquindo-lhes dinheiro, bens e sugando-lhes tudo. Resultado: foi cancelado por Malafaia & Cia.

Por fim, teve o atrevimento de dizer que era verdadeiro e que aqueles que o seguissem deveriam ser libertos pela verdade. Resultado: Bolsonaro o cancelou e cara-de-pau-mente (para lembrar do inesquecível Odorico Paraguaçu) ainda usou de sua fala na sua campanha, quando foi (e continua sendo) o maior disseminador de mentiras que esse país já teve.

É… não deve estar nada fácil pra Jesus esse cancelamento todo.

Vai acabar sendo crucificado por aí…

*Esse artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.


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