Kakay x Mainardi: Uma palavrinha sobre o palavrão

Se o palavrão não existisse, diria Sartre, o homem que bate o dedo na porta inventá-lo-ia

“onde o cujo faz a curva o cu do mundo, esse nosso sítio…”

Caetano Veloso

eu sou punk e aprecio a arte do insulto, creio que não há, em idioma algum, recurso mais libertador que o palavrão.

mesmo quando o palavrão é apenas uma palavrinha, aquela que se refere à única parte do corpo onde o sol não bate, “o adjetivo esdrúxulo em U”.

porém, o esparro, o espirro, o esporro e o expurgo, são recursos estilísticos e devem ser usados no momento certo e no lugar adequado; é preciso ter classe para usar a mais desclassificada das palavras.

é por isso que podemos xingar, e sermos xingados, usando os vocábulos mais sujos do nosso vocabulário, olhando nos olhos da pessoa que mais amamos, ali mesmo, no alcóvico ato de amar. 

na cama, o mais horrível dos palavrões pode soar como o mais belo dos poemas; Bukowski concordaria com isso.

o palavrão recitado sob a tântrica sombra da luz vermelha é elogioso, exaltativo, extasiante.

por outro lado, se prendo o dedo mindinho na quina de um móvel, vomito e trovejo os mesmos insultos, ao léu e a plenos pulmões. mas aqui ninguém é alvo do xingamento, o xingo xinga só por xingar.

estudos no campo psicanalítico e cognitivo mostram que xingar alivia a dor, ou sugestiona o corpo a assimilá-la com menos sofreguidão. 

é por isso que o fazemos, instintivamente, toda vez que o dedo prende na porta.

se o palavrão não existisse, diria Sartre, o homem do dedo na porta inventá-lo-ia.

é sabido que numa situação de dedo na porta, jamais dizemos “ai, minha nossa senhora”, ou “louvado seja nosso senhor Jesus Cristo…”, isso falamos quando o avião está caindo.

portanto, orar é como xingar; um alivia a alma, o outro, o corpo. é preciso saber o momento de usá-los para provocar o efeito desejado. 

filósofos da linguagem, bem como semânticos e pragmáticos, hão de concordar comigo.

ou seja, com o avião com o bico pra baixo, em queda livre, ninguém xinga, porque isso não ajuda em nada, nem conforta; nessa situação é a alma quem deve gritar, não o corpo: o momento exige oração.

dito isto, digo mais. 

pode parecer contraditório que progressistas desconstruídos tenham ficado chocado com o palavrão que o homem-mosca usou contra o nosso beletrista barba-ruiva, no tal manhattan connection. ora, não faz muito tempo, esses mesmos progressistas viralizaram uma canção que nada mais dizia a não ser aquilo que Mainardi disse a Kakay. 

por que na canção o mesmo palavrão não pareceu tão palavresco?

procurei um sábio para mitigar essa aparente contradição.

e fi-lo porque recebi, pelo zap, esse pedido de socorro de um inconformado barbudinho; “por que diabos, Lelê Teles, o palavrão palavrado por Mainardi, um homem que usa e abusa do vão palavrório, chocou-me e chocou o progressismo descolado, se fazemos uso diário e constante da mesma atitude palavral?”

o sapientíssimo Cacique Papaku ajudou-me nessa: 

“se Kakay tivesse xingado Mainardi seria lindo, libertador, provocativo e, mesmo, um ato político “, disse-me o oráculo da floresta, “já Mainardi xingando Kakay foi apenas desonesto, grosseiro e estúpido”.

segundo o grande cacique, xingar é um ato de fala tão humano, comum e natural como a própria fala.

por isso, o palavrão – explicou-me o homem da floresta, com a destreza de um lexicógrafo -, existe em todas as línguas humanas. 

“antes de prosseguirmos, nobilíssimo dorso-nu, aproveito o ensejo para tirar uma dúvida minha, o seu nome é um insulto, uma provocação ou um xingamento?”

Papaku sorriu folgadamente e me deu uma aula de etimologia, coisa sublime para um velho ágrafo; disse-me que na língua de sua etnia [papá] significa santo ou sábio – os papakus não fazem essa distinção entre a iluminação científica e religiosa -, e [ku] significa homem.

“santificado seja o vosso nome”, eu disse.

“assim é”, respondeu-me, laconicamente.

prossegui, “por que diabos o criminalista criminalizou o palavrão de Mainardi? Kakay é amante da boa prosa e da boa poesia, e é ali, todos o sabemos, que vicejam os mais saborosos palavreados, os dizíveis e os indizíveis, os fastos e os nefastos.”

“alto lá”, disse o da tanga de penachos, “Kakay não criminalizou nada, o advogado apenas advogou, com as devidas e polidas vênias, que o seu interlocutor agiu como um estúpido e desequilibrado. o sujeito estava a receber um convidado em seu programa, o que exige cortesia e cordialidade, é o que reza a mais básica regra da anfitriãlidade, aqui e alhures. Mainardi usou a boca como se fosse o próprio aparelho excretor”. 

o velho cacique ainda salientou que o palavrão usado por Mainardi nem foi um recurso estilístico, ele o usou por falta de recurso, por falta de palavras, por pequenez intelectual e covardia. 

para ilustrar o raciocínio, Papaku lembrou de uma cena do filme Ó Paí Ó em que o personagem vivido por Lázaro Ramos acusa o racismo de seu interlocutor, esporrando-lhe na cara toda a sua negra revolta.

o personagem de Wagner Moura, pego de calças curtas, sem argumentos para confrontar as duras palavras do outro, agiu mainardicamente com a mesma simplória, bolsonárica e covarde resposta.

“captei a vossa mensagem”, pensei comigo, emulando o mainárdico Rolando Lero.

o indígena prosseguiu: “mandar um convidado tomar no c* é como xingar a mãe, é como um pastor usar um palavrão no púlpito, é como ensinar a uma criança a falar xingando”. 

para Papaku, Mainardi agiu como um papagaio de piada ruim, porque fulanizou o insulto, atribuindo ao fiofólogo da Virgínia a construção de um sintagma tão manjado.

“a partir daquele dia infame”, disse o velho cacique, “chamar Mainardi de jornalista, ou escrever seu nome com iniciais maiúsculas, é o mesmo que dizer um palavrão, um palavrão usado de forma inadequada, no momento errado e por covardia travestida de valentia”.

aquele dia será para sempre lembrado como o dia que Mainardi xingou o palavrão.

palavra da salvação.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Lelê Teles

Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.