La Révolution: história e cultura pop

Leia na coluna de Raphael Fagundes: "A Revolução Francesa é retratada pelos elementos mais populares da cultura pop atual. O problema que há nisto é que aspectos mais complexos, como os interesses burgueses que conduziram a revolução, acabam sendo deixados de lado"

O historiador francês Claude Lecouteux mostra que “desde 1741, o termo ‘vampiro’ assume na Inglaterra o sentido de ‘tirano que suga a vida de seu povo'”, e Voltaire, depois, afirma que “os verdadeiros vampiros são os monges, que comem à custa dos reis e dos povos”.[1] A nova série francesa da Netflix, La Révolution, trás esta representação da nobreza.

Nobres portadores do sangue azul se alimentam (literalmente) dos camponeses e aldeões. A ideia de sangue azul não é do século XVIII, mas do século XIX e, segundo Arlette Jouanna, “oriunda talvez da Espanha, evocando a brancura da pele que deixava transparecer as veias”. Contudo, desde a Idade Média, acreditava-se que o sangue que escorria nas veias dos membros da realeza era clarissimus, “luminoso em comparação com o sangue comum de uma escura cor vermelha”.[2] Essa diferença é destacada no aparecimento incessante do sangue dos pobres devorados pelos nobres mortos-vivos.

A Revolução Francesa é retratada pelos elementos mais populares da cultura pop atual. O problema que há nisto é que aspectos mais complexos, como os interesses burgueses que conduziram a revolução, acabam sendo deixados de lado. Assim como a participação de filósofos, já que, como disse Eric Hobsbawm, “os filósofos podem ser, com justiça, considerados responsáveis pela Revolução”.[3]

A Revolução é representada como algo idealizado pelo povo. Sem dúvida, ela ocorreria sem os filósofos, “mas eles provavelmente constituíram a diferença entre um simples colapso de um velho regime e a sua substituição rápida e efetiva por um novo”.[4]

Talvez o que chega mais perto de representar a participação dos filósofos esteja na cena em que os nobres recém-infectados terem como primeiro alvo uma taberna. O mundo literário deste período era dividido entre, por um lado, os mandarins, os philosophes, o Alto Iluminismo e, por outro, a boemia literária, os excluídos de um mercado literário disputadíssimo.

De acordo com o historiador Robert Darnton, os jacobinos, a ala mais radical da Revolução Francesa, saíram desse submundo das letras que, diferente da nata da filosofia (Voltaire e cia), defendiam o fim da ordem social e não a sua preservação.[5]

A taverna era a nova esfera pública, um lugar onde se podia manifestar a opinião fora do espaço oficial da corte ou da família. O “bar” era o novo local de sociabilidade pública onde as ideias subversivas ganhavam espaço para se propagar.[6]

Talvez o ato de devorar a maior parte das pessoas que estavam na taverna, represente, simbolicamente, a ação da nobreza contra as ideias revolucionárias. Até porque, é neste momento, após o ataque, que a revolta explode.

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A série da Netflix tem muito ainda para explorar, até porque o protagonista, Joseph Ghillotin, presenciou todo o processo da Revolução vivendo até 1814, um ano antes da queda de Napoleão.

Sim, o protagonista é Joseph Ghillotin. O médico francês faz parte da história da modernização do ato de punir. Como demonstra Michel Foucault, nos finais do século XVIII, buscou-se uma execução pública menos violenta, menos teatral: “a certeza de ser punido é que deve desviar o homem do crime e não mais o abominável teatro”.[7] A ideia não era mais fazer o condenado sofrer, mas apenas ter os seus direitos suspensos. “Por efeito dessa nova retenção, um exército inteiro de técnicos veio substituir o carrasco”, eles garantem que “o corpo e a dor não são os objetos últimos de sua ação punitiva”. Buscava-se uma execução penal mais pudica e igual para todos “não mais aqueles suplícios em que o condenado era arrastado sobre uma grade (para evitar que a cabeça arrebentasse contra o pavimento), seu ventre aberto, as entranhas arrancadas às pressas, para que ele tivesse tempo de as ver com seus próprios olhos ser lançadas ao fogo; em que era decapitado enfim e seu corpo dividido em postas”.[8]

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Enquanto os ingleses criaram uma máquina de enforcamento, os revolucionários franceses propuseram em 1791 que “todo condenado à morte terá a cabeça decepada”. A moção havia sido proposta por Guillotin e votada a 1° dezembro de 1789 e dizia “os delitos do mesmo gênero serão punidos pelo mesmo gênero de pena, quaisquer que sejam a classe ou condição do culpado”. A guilhotina, enfim, foi adotada a partir de março de 1792 e a “morte é então reduzida a um acontecimento visível, mas instantâneo”.[9]

Ser decapitado era um privilégio dos nobres antes de Guilhotin e a série mostra que os nobres infectados pelo sangue azul só poderiam ser eliminados se tivessem as cabeças cortadas. O sangue azul revela a verdadeira face exploratória e cruel da nobreza. Simbolicamente essa ação é retratada como um crime infame, vampiresco, e que tem como pena a morte.

Vale a pena assistir La Révolution, contudo é preciso pensar nos elementos simbólicos e metafóricos que a série apresenta para imergir melhor em sua trama. Neste caso, ler é fundamental para melhor a experiência fílmica.


[1] LECOUTEUX, C. História dos vampiros. São Paulo: Edunesp, 2005, p. 12.

[2] JOUANNA, A. O imaginário do sangue e de sua pureza na antiga França. Tempo, 30, p. 21-40, 2011, p. 34.

[3] HOBSBAWM, E. A era das revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 90.

[4] Id..

[5] DARNTON, R. Boemia literária e a revolução. São Paulo: Cia das letras, 1987, p. 25-31.

[6] CARNEIRO, H. Drogas: a história do proibicionismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2018, p. 372-373.

[7] FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, RJ: Vozes, 1977, p. 14.

[8] Id., p. 17.

[9] Id., p. 18.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.