Lô Borges chega aos 70 anos com obra inesquecível

Desde o Clube da Esquina, passando por seus álbuns solo e suas participações com Samuel Rosa, tudo vale à pena na obra do mineiro

Na última semana comentei aqui sobre o álbum “Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, que completa 50 anos neste ano.

Por coincidência, o então estreante do álbum, Salomão Borges Filho, o Lô Borges, completou 70 anos nesta segunda-feira, 10 de janeiro.

Contas feitas, o fato é que Milton carregou para dentro do estúdio, com o objetivo de compartilhar um álbum que se tornaria antológico, um moleque de apenas 19 anos.

Lô conta sempre que o “Clube da Esquina” foi gravado em apenas dois canais. Se alguém errasse, derrubava a orquestra e tudo o mais. Muita responsabilidade para um garoto.

Naquele mesmo ano de 1972, ele voltaria aos estúdios para gravar o seu primeiro solo, que também acabou se tornando um clássico. Batizado apenas de “Lô Borges”, o disco ficaria conhecido como o “disco do tênis”.

Lô conta que não queria sair na capa de disco de jeito nenhum. O próprio explica que a pressão foi tamanha para compor e gravar em apenas poucos meses, que resolveu pular fora do show business:

“A ideia do tênis da capa é minha. Quando o disco ficou pronto e fomos discutir a capa, eu disse que estava saindo da indústria fonográfica e queria colocar o tênis pra simbolizar isso. Não ter colocado a minha cara e sim um tênis, que era eu dizendo que ia pegar a estrada: eu vou pegar a estrada e tô saindo do Rio de Janeiro, tô saindo do showbusiness, tô saindo do circuito. Eu tenho vinte anos apenas e não quero essa obrigação de gravar um disco a cada seis meses. Até hoje eu autografo o disco do tênis dizendo ‘com um pé na estrada’”.

O Disco do Tênis. Foto: Reprodução da Capa

Pelo bem de todos, não saiu. Demorou alguns anos, mas voltou a gravar em 1979 o ótimo álbum “A Via-Láctea”, em que regrava a “Clube da Esquina nº 2”, desta vez com letra de seu irmão “Márcio Borges”. Também aparece no álbum uma nova versão para “Todo o que você podia ser”, que no “Clube da Esquina” era cantada por Milton Nascimento.

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Como destaque, o álbum traz “Vento de Maio”, dele e do outro irmão Telo Borges, que foi imortalizada pela interpretação de Elis Regina.

Com um intervalo menor, Lô gravou “Nuvem Cigana”, em 1982 e “Sonho Real”, em 1984. Dai em diante, seus álbuns voltaram a se tornar esporádicos.

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Apesar de manter uma discografia respeitável, com várias canções excelentes, Lô Borges ficou marcado pelos seus primeiros sucessos. Uma breve visita à sua página no Spotify, por exemplo, mostra que as canções mais ouvidas são “Um girassol da cor dos seus cabelos”, “O Trem Azul” e “Paisagem da Janela”, todas as três do álbum “Clube da Esquina”.

Outro grande sucesso dele é “Para Lennon e McCartney”, parceria dele com os letristas Fernando Brant e Márcio Borges, gravada no álbum “Milton”, de 1970.

Vale e muito revisitar a obra de Lô Borges, tanto em seus discos solo quanto às parcerias que fez com seus companheiros do Clube da Esquina e, mais atualmente, com o conterrâneo Samuel Rosa.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.