Lucas Penteado do BBB, a vítima que disse NÃO às inúmeras violências

Na tv brasileira jamais ocorrerão cenas como as da tv portuguesa onde um participante de reality é expulso ao vivo por fazer saudação nazista ou onde um defensor da ditadura salazarista é expulso de um programa de debates. Aqui às vítimas estão abandonadas à própria sorte dentro e fora da tv.

Hoje, o assunto mais comentado nos lares e nas redes foi a desistência do cantor, MC, slammer, poeta, ator, diretor, dramaturgo, militante negro periférico e, como descobrimos ontem, bissexual Lucas “Koka” Penteado.

Lucas é um combo de muitas vítimas de violência no Brasil: jovem negro, periférico, portador de alopecia areata, um distúrbio que se acentuou visivelmente ao longo de duas semanas, onde o Brasil inteiro assistiu a um coletivo assediador que, em bando, atacou de todas as formas este jovem: se falava era criticado, se ficava quieto era criticado, foi proibido de comer com o coletivo, foi criticado por uma psicóloga que é negra e lésbica por ter beijado outro homem na festa, entre tantas outras formas de violência verbal.

Um aparte sobre o coletivo negro estereotipado que se formou no scritp do Boninho nesta temporada do BBB: cada membro deste coletivo foi pensado e escolhido cuidadosamente para atacar lutas históricas. Mulheres e homens deste coletivo são assediadores, autoritários, cagadores de regras, levando o identitrismo ao essencialismo. Um verdadeiro retrocesso às lutas históricas do movimento negro, feminista e lgbtqia+. Uma psicóloga negra que não acolhe, que julga e condena. Uma rapper negra autoritária, sem generosidade que impõe o silêncio ao outro, que reproduz a cultura provinciana das elites sulistas e separatistas, adotando um discurso de quem nasce nos estados do sul é mais educado de que quem nasce nos estados do Nordeste. Um humorista negro machista, sexista. Um rapper que humilha seu fã declarado e se vangloria depois de uma batalha de rimas que era pra ser diversão e como se tudo isso não bastasse disse ao diretor do programa que escondeu as facas com medo de ser “agredido”.

São os canceladores que culpabilizam aquele que eles cancelaram desde o início do programa. No conjunto, todos eles chegaram até mesmo a exigir a investidura da cor, a quantidade de melanina para determinar quem é negro ou não a partir de fenótipos. Não é o mesmo critério sobre o fenótipo que a polícia tem ao determinar quem é ou não negro no Brasil?

O silêncio das vítimas e da sociedade diante das opressões

Ontem um casal brigou violentamente em frente à minha casa. O marido espancou a mulher, bateu com a sua cabeça no portão, deu tapa na cara, chamou-a de “vagabunda”, “cachorra” e outros termos de baixo calão. Suspeitamos que a jovem vítima de violência doméstica correu para a frente de nossa casa por causa das câmeras. Foi um modo silencioso de pedir socorro.

Chamei a polícia, gravei a agressão e por isso fui ameaçada pelo agressor.

Fiz boletim de ocorrência da ameaça. Diante da polícia a mulher não disse nada, não acusou seu agressor, mesmo sabendo que as câmeras fixas e nossos celulares gravaram todo o ocorrido.

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A conversa com os policiais foi um misto de tristeza e de reflexão sobre a sociedade extremamente violenta que é a sociedade brasileira.

Ao mesmo tempo que o policial reconhecia o crescimento do feminicídio ao me dizer “feminicídio é o crime da moda”, e de dizer “elas não denunciam porque às vezes não têm para onde ir”, repetia-me, “não disse, ela não vai fazer a denúncia, ela é livre pra sair, não é obrigada, mas fica”.

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Ninguém na rua chamou a polícia, vários assistiram à agressão, mas são adeptos do “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Sobrou para mim o ódio do agressor, porque como mulher, para ele eu deveria baixar a cabeça e não me meter. Por isso virei alvo de sua fúria: “eu sei onde você mora, chame a polícia para você ver”.

O dia foi longo, cansativo e todas as formas de violência que sofremos pelo simples fato de ser mulher veio à tona. Mas algumas de nós não silenciamos. É preciso enfrentar a cultura do silêncio, mesmo sem a proteção do Estado, mesmo sob o risco de se tornar um alvo fácil de agressores.

Foi essa atitude a de Lucas ao desistir da disputa de 1,5 milhão do BBB. Ele disse basta, ele se negou a continuar sendo vítima de assédio, de violência coletiva. Nada vale a sua sanidade mental. Como mãe, meu coração estava apertado, preocupado com a condição visivelmente abalada, a beira de um ataque de nervos, que apresentava Lucas. Escrevi um fio sobre isso ontem pela manhã:

No auge de seu desespero Lucas disse: “Eu não vou ser aceito aqui, eu não vou ser aceito quando eu chegar lá na minha comunidade, eu não vou ser aceito pelos meus amigos, eu não vou ser aceito pela minha família...”

O twitter progressista está de luto. Visivelmente construiu-se uma empatia com Lucas e agora ficou órfão. Mas falta à ala progressista discutir o óbvio: a TV brasileira e sua exploração da barbárie permite e estimula abusos, racismo, homofobia, transfobia, machismo. Desrespeita cotidianamente os artigos da Constituição Brasileira que regulam a radiodifusão.

Na TV brasileira jamais ocorrerão cenas como as da TV portuguesa onde um participante de reality é expulso ao vivo por fazer saudação nazista ou onde um defensor da ditadura salazarista é expulso de um programa de debates. Nesses dois episódios os apresentadores foram didáticos ao explicar os crimes praticados e a fazerem a defesa dos direitos humanos e o papel da comunicação em uma sociedade democrática.

Aqui às vítimas de violências estão abandonadas à própria sorte dentro e fora da TV.

Enquanto a luta pela regulação da mídia brasileira não for uma bandeira dos movimentos progressistas, a TV brasileira vai produzir, lucrar e especular com o espetáculo da barbárie.

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Maria Frô

Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.

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