Lula conseguirá pacificar o Brasil? – Por Rodrigo Perez

Quando menino, Lula saiu do sertão pernambucano num pau de arara, pra passar fome no Sul. Quando velho, se tornou a maior instituição política brasileira que já existiu. Não importa o que aconteça a partir de agora, Lula já venceu o jogo

Esta é a pergunta mais relevante neste exato momento da crise democrática brasileira. Depois de três anos calado, discreto, falando apenas para a sua bolha, Lula voltou a ser o assunto mais relevante da crônica política nacional.

Quem assistiu aos noticiários nos últimos dois dias não ouviu falar em outra coisa: Lula, Lula e Lula. Até a pandemia da Covid-19 ficou escanteada.

O ato inesperado de Edson Fachin, em 8 de março, ao afirmar a incompetência da 13° Vara Federal de Curitiba para julgar Lula, na prática, devolveu os direitos políticos ao ex-presidente. Os interesses de Fachin eram outros, todos sabemos. Mas o resultado efetivo foi trazer Lula de volta ao cenário eleitoral, algo que ninguém esperava, nem o próprio Lula.

O que são as crises, se não o encadeamento de eventos inéditos? O mal-estar gerado pela situação de crise está exatamente aqui, na total imprevisibilidade dos acontecimentos.

Em resumo, para o leitor do presente e do futuro: em 48 horas, Lula deixou de ser condenado pela Justiça, voltou a estar elegível, discursou por duas horas em rede nacional e voltou a pautar o debate político.

O discurso foi uma peça retórica, daquelas que entram pra História. Lula fez aquilo que faz de melhor: falou como estadista e como pedagogo, ao mesmo tempo.

Como estadista, sinalizou para a conciliação, acalmou o mercado, disse que está disposto a conversar com empresários e com a classe política. Como pedagogo, explicou para o povo o que está acontecendo, o desastre que é o governo de Jair Bolsonaro. Lembrou ao povo o que significa, na prática, a felicidade possível: beber cerveja e comer picanha.

O primeiro efeito do discurso foi sentido poucas horas depois. Bolsonaro apareceu em público apresentando projeto de lei pra comprar a vacina e usando máscara. É isso mesmo, Lula pautou Jair Bolsonaro, colocou uma máscara no rosto do negacionista.

Ao colocar uma máscara no rosto de Bolsonaro, Lula desmascarou o fascista que nos governa, e nos mata dia após dia. Vimos ali, no púlpito presidencial, um homem assustado, com olhos arregalados, acuado.

Bolsonaro é perverso, bruto e cruel, mas de burro não tem nada. Sabe perfeitamente que uma coisa é enfrentar o PT. Outra é enfrentar Lula. Pela primeira vez, Jair Bolsonaro tem um adversário.

Você pode até não gostar de Lula, duvidar de sua inocência, mas não tem como negar que ele é muito melhor que Bolsonaro. A discussão aqui nem é mais política. É moral.

Lula é a possibilidade de trazer a política para o campo da disputa civilizada. É tudo que precisamos.

A atmosfera no país já é outra.

Mas a pergunta continua: Lula conseguirá pacificar o Brasil e reconstruir o sistema político?

A favor do ex-presidente está sua biografia. Lula subiu a rampa do planalto em 2002 sob desconfiança dos empresários, do mercado e até mesmo dos pobres, que viam nele um agitador sindicalista.

Lula aparou a barba, vestiu terno de fino corte, assinou carta se comprometendo a respeitar a propriedade e os compromissos firmados pelo Estado brasileiro com o capital. Terminou dois mandatos, foi aprovado pela população e elegeu a sucessora.

A situação, hoje, é diferente. Bastante diferente. Não se trata mais apenas de desconfiança, mas sim de ódio.

Setores importantes do establishment político, de corporações como Ministério Público e Polícia Federal. Os maiores veículos da grande mídia. O alto generalato das Forças Armadas. Todos investiram muita energia na destruição de Lula. Aceitaram destruir o país com o único objetivo de destruir Lula.

Como faz para, simplesmente, voltar atrás, como se nada tivesse acontecido? Como dizer para população e que aquele que até bem pouco tempo atrás foi pintado como o maior bandido do país pode ser a solução para os nossos problemas?

Definitivamente, não vai ser fácil conciliar. Só o tempo dirá se Lula conseguirá, outra vez, pacificar o Brasil.

Certeza mesmo é que Lula não precisou sair da vida pra entrar para a História. Estará politicamente vivo, mesmo depois de morto. Para o bem e para o mal, ninguém mais faz política no Brasil sem passar por Lula, seja pra odiar, seja pra amar, seja pra negá-lo, seja para afirmá-lo.

Quando menino, Lula saiu do sertão de Pernambuco num pau de arara, pra passar fome no Sul do país. Quando velho, se tornou a maior instituição política brasileira que já existiu. Não importa o que aconteça a partir de agora, Lula já venceu o jogo.


**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Rodrigo Perez Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.

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