Raimundo Bonfim

20 de novembro de 2019, 17h28

Lula solto e os desafios para o próximo período

Que o Lula é inocente e que sua prisão decorre de uma farsa já afirmamos aqui por diversas vezes. A questão agora é saber qual o papel que Lula irá desempenhar no cenário político do próximo período.

Foto: Ricardo Stuckert

Após a emoção e alegria pela qual passamos ao receber o ex-presidente Lula, debaixo de um forte calor no último dia 9/11 em São Bernardo do Campo, é hora de debater quais são as tarefas mais importantes que teremos no próximo período. Na história do Brasil, em poucos momentos a soltura de um líder político foi marcada por tamanha repercussão e expectativa. Não é para menos.

Trata-se de Luiz Inácio Lula da Silva, um retirante nordestino que, ainda jovem, junto com a família, fugiu do sertão pernambucano para São Paulo, em busca de melhores condições de vida. Assim como Lula e sua família, milhões de nordestinos fizeram o mesmo caminho para escapar da fome, miséria e abandono. Daí essa identidade do Lula ser tão forte com o povo mais pobre de nosso país, especialmente das regiões Norte e Nordeste. Lula está de volta.

Após 580 dias de cárcere privado, finalmente foi solto. E bem ao seu estilo voltou nos braços do povo para o mesmo local de onde saíra em 7 de Abril de 2018 rumo a Curitiba, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, espaço onde iniciou sua trajetória política como líder sindical e político, no final da década de 70 do século passado. Que o Lula é inocente e que sua prisão decorre de uma farsa já afirmamos aqui por diversas vezes. A questão agora é saber qual o papel que Lula irá desempenhar no cenário político do próximo período.

Em seu discurso em São Bernardo do Campo, avisou: “Eu voltei”. Um sinal aos que o imaginavam fora do jogo político por mais tempo. Com Lula solto ganharemos um extraordinário reforço na resistência contra a destruição do país. Todos (da extrema-direita, centro e esquerda) têm afirmado que com a soltura de Lula, de agora em diante, as estratégias políticas mudam de patamar. É inquestionável que ele passa a ser o principal líder da posição e consequentemente irá causar uma reviravolta no jogo político/eleitoral de 2020 e 2022.

Até o momento, o quadro para 2022 é Bolsonaro liderando uma chapa da extrema direita; Doria tentando se distanciar do extremismo, mas ao mesmo tempo em disputa com Bolsonaro pelo eleitorado mais conservador e neoliberal; Rodrigo Maia se colocando como alternativa de centro direita e do mercado; Luciano Huck se movimentando com um discurso de renovação; e obviamente um nome da esquerda, até o momento o mais provável é Fernando Haddad, que tendo Lula solto e o carregando para todo o país é muito provável assegurar o segundo turno em 2022.

Lutaremos para que Lula recupere os direitos políticos, com a anulação da sentença proferida pelo imparcial juiz Sergio Moro. Se conseguirmos, ficará no ar sempre uma dúvida: Lula topa ser candidato em 2022? Lula não é carta fora do baralho na próxima eleição presidencial. Os meios políticos restringem o debate sobre o papel do Lula apenas do ponto vista eleitoral, seja com relação às eleições municipais em 2020, e especialmente a presidencial em 2022. E não há dúvida de que ele será a peça principal do xadrez político nos próximos anos.

É inegável e sabido por todos do extraordinário papel que Lula, fora da prisão, jogará no campo institucional e eleitoral. Porém, quero aqui levantar o papel mais importante que, no meu entender, ele tem desde já. Alguns segmentos da esquerda alimentam a ilusão de que Lula teria o papel de unir o país. Ledo engano, em tempos de crise econômica não há espaço para união, pelo contrário, se acirra a luta de classes. Lula dará uma grande contribuição se nos ajudar a criar unidade no campo das forças partidárias de esquerda e dos movimentos sociais para além da atuação institucional.

Precisamos urgentemente dar um salto na questão organizativa para impulsionar as mobilizações de massas, elemento indispensável para barrarmos o projeto de destruição do Estado em curso. Só assim teremos condições de alterar a correlação de força, nesse momento desfavorável às classes trabalhadoras. Um bom resultado nas eleições municipais no próximo ano é muito importante, porém não será suficiente para acumular forças para 2022. É preciso intensificar desde já (e Lula tem todas as condições de nos liderar), mobilizações de rua em oposição as medidas econômicas e à retirada dos direitos. Ao persistir a agenda de desmonte de Paulo Guedes e Rodrigo Maia, em 2202 não haverá mais Estado a ser disputado.

Lula, portanto, deve aproveitar sua enorme liderança, prestígio e peso político para construir alianças eleitorais em 2020, mas também precisa destinar tempo de sua agenda para articulação com movimentos sociais, sindicais e populares, principalmente com as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo – que precisam retomar o relevante papel que tiveram nas mobilizações nos últimos anos. Temos que conjugar as pautas de caráter mais geral como a soberania, democracia e o meio ambiente com as preocupações reais e concretas que atormentam a vida do povo.

As milícias, as mentiras, as ameaças às liberdades democráticas, a destruição da Amazônia, o fim de investimentos na edução, saúde, moradia, aumento dos combustíveis e das tarifas de serviços de água, energia e transporte, todas essas são preocupações justas, mas nada preocupa e angustia mais o povo do que o desemprego, a perda de renda, o aumento da pobreza e da fome. É uma realidade que afeta sobretudo a juventude negra e periférica que, neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, está nas ruas de todo o país em luta contra o racismo estrutural no Brasil.

A luta, no entanto, deve ser contínua. Nesse sentido, tendo Lula como principal liderança no processo de articulação e mobilização, nosso principal desafio é construir grandes mobilizações, com sua presença por todo o país, com os motes: Basta de Bolsonaro, por direitos, democracia e justiça para Lula.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum

#tags