Quilombo

por Dennis de Oliveira

No rastro do óleo do Nordeste
14 de março de 2019, 06h00

Marielle e Anderson, corpos matáveis: “The dark side of the capitalism”

No Blog Quilombo, Dennis de Oliveira diz: “A execução de corpos matáveis, como o de Marielle, Anderson e outros que ousam contestar essa ordem, é a expressão de um poder que necessita ser exercido sem qualquer limite normativo”

Foto: Guilherme Cunha/Alerj

A vereadora Marielle Franco era mulher, negra, lésbica e da periferia. Anderson Gomes era um homem negro, trabalhador. Eram corpos matáveis. Por isso, eles foram assassinados a sangue frio um ano atrás.

A matéria publicada na revista Piauí, intitulada A metástase, demonstra a ocupação do Estado por esquemas criminosos, em especial no Rio de Janeiro. E dá destaque para como estes grupos criminosos imiscuídos nas instituições estatais começaram a se mexer com a ação de Marcelo Freixo, então deputado estadual do PSOL, de investigação das milícias.

Investigação esta que redundou na instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e contou com o trabalho da então assessora do parlamentar, Marielle Franco. E que, a medida que se aprofundava, mexia com os interesses de vários milicianos, alguns deles com ligações com parlamentares de extrema direita, inclusive o filho do atual presidente Jair Bolsonaro. Por exemplo, como foi noticiado na revista Fórum, um dos filhos do presidente foi namorado da filha de um dos milicianos presos acusados de assassinar Marielle e Anderson. Aliás, esse miliciano preso era vizinho de Bolsonaro.

São as estranhas coincidências bem relatadas pelo colega Renato Rovai.

Este episódio mostra a que o capitalismo, na sua face mais raivosa, sinaliza. O grande capital apostou em Bolsonaro para implantar um programa ultraliberal. Bolsonaro serviu também para demonizar a experiência dos governos liderados pelo PT e toda a esquerda. Paulo Guedes é o comandante da implantação deste programa que começa com a reforma da Previdência, passa pelo fim dos direitos trabalhistas, desarticulação dos sindicatos, privatização desenfreada e destruição de qualquer vestígio de política social, com a proposta de acabar com as vinculações orçamentárias (que obriga, por exemplo, a destinação de um percentual fixo do orçamento para Educação e Saúde).

É uma agenda nitidamente voltada para atender aos interesses do capital rentista, onde se concentra o 1% mais rico da população.

O lado escuro do capitalismo: a barbárie

Não se trata de falar em desvios éticos, comportamentais e civilizatórios apenas. A execução de corpos matáveis, como o de Marielle, Anderson e outros que ousam contestar essa ordem, bem como os milhões de jovens nas periferias, é a expressão de um poder que necessita ser exercido sem qualquer limite normativo. Daí a contaminação dos aparelhos de Estado por setores do crime organizado e os indícios de aproximação destes com figuras do governo federal.

Esta barbaridade, estas ações criminosas são o lado “oculto” do capitalismo na sua fase neoliberal que, na outra ponta, garante a sofisticação e exuberância dos super-ricos que movimentam fortunas no planeta. A reprodução e ampliação das superfortunas deste 1% mais rico dependem das mortes de muitas Marielles e Andersons.

Como Achille Mbembe, pensador camaronês, chama de necropolítica, a ação plena do poder soberano sem limites, em um estado de guerra permanente. Os territórios da necropolítica sustentam os espaços da sofisticação.

Da mesma forma que a violência e escravização nas colônias na América Latina e África, em tempos passados, sustentaram as riquezas das metrópoles europeias.

Não dá para se pensar na possibilidade de termos um governo neoliberal e, ao mesmo tempo, que respeite os direitos humanos e as liberdades democráticas, embora alguns incautos considerem esta possibilidade. Não é esta a lógica do capitalismo nos tempos atuais.

*O titulo The dark side of the capitalism é uma analogia ao disco “The dark side of the moon”(O lado escuro da lua) do grupo Pink Floyd. Também faz uma analogia ao texto “Colonialidade do poder: o lado escuro da modernidade”, de Walter Mignolo.

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