Militância e amor de casal – Por Valerio Arcary

Não se deve diminuir a dimensão subjetiva dos conflitos gerados pela dificuldade de vivência entre pessoas. Organizações são coletivos imperfeitos construídos por pessoas complexas. Portanto, complicadas

As estrelas não estão mortas só porque o céu está nublado.

Sabedoria popular árabe

Nunca se esquecem as lições aprendidas na dor.

Sabedoria popular africana

Um homem não está onde mora, mas onde ama.

Sabedoria popular italiana

Precisamos refletir sobre a relação entre militância e parceria amorosa. É muito comum que existam casais em todas as organizações de esquerda. A formação de um casal pode ser anterior à decisão de assumir um compromisso político, ou pode ter acontecido já durante a experiência militante. Não importa, porque o amor é um sentimento muito poderoso, e não deve ser nunca subestimado. Ser companheiro e camarada ao mesmo tempo é um desafio permanente.  

Não é um bom critério que militantes que decidem se unir, afetivamente, atuem no mesmo organismo. Em especial quando as equipes são pequenas. Ativistas que são companheiros e, ao mesmo tempo, camaradas terão, naturalmente, opiniões distintas sobre os mais variados temas táticos. São dois tipos diferentes de relação.

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Mas seria ingênuo e até superficial não considerar em que medida a participação constante no mesmo organismo poderá atrapalhar o funcionamento da equipe de militância e, ao mesmo tempo, provocar turbulência na relação afetiva, seja se têm acordos ou diferenças.

Quando militantes unidos por uma relação afetiva estão em um mesmo organismo é inevitável que surjam variadas tensões. Organismos são equipes de ativistas que se reúnem, regularmente, para discutir a realidade em que estão inseridos e suas ações. Fazem-se planos, pensam-se iniciativas, discute-se uma linha, elaboram-se balanços. Nesse processo é inexorável que existam diferentes opiniões, sensibilidades, nuances. Em algum momento, uma decisão é necessária, e se vota.

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Uma militância socialista deve se sustentar na força das ideias, não em recompensas materiais. Ela deve ser uma doação desinteressada, despojada, altruísta. Essa aposta tem grande intensidade emocional. Entrar em uma organização socialista é iniciar uma experiência em uma fraternidade engajada. Esse compromisso gera expectativas muito elevadas. É compreensível que alimente idealizações ingênuas. É muito triste quando discussões políticas degeneram em duelos fracionais. O desgaste humano é desolador, e pode até ser irreparável.

Se os dois militantes que estão envolvidos, romanticamente, votam com muita frequência ou sempre juntos, criou-se uma situação delicada que pode ser até embaraçosa, crítica e penosa. Porque pode ameaçar as relações de confiança com os outros. Quando os organismos são pequenos é mais complicado. Quando os organismos são de direção é mais grave ainda.

Relações de confiança são importantes. São, dramaticamente, importantes. Confiança tem graus, mas é sempre o alicerce das relações políticas. As discussões em uma reunião não se esgotam no espaço e tempo da reunião. Os parceiros amorosos, inevitavelmente, continuarão a refletir e conversar entre si.

Esta dinâmica tende a favorecer a formação de opiniões comuns. A tensão mais grave será entre o casal e os outros militantes do mesmo organismo. Porque o perigo de que o casal se transforme, involuntariamente, em uma camarilha é muito grande.

Uma camarilha é um agrupamento, políticamente, adoecido. Uma camarilha é um grupo de militantes, em geral pequeno que, em função de laços de confiança pessoal e ou interesses próprios, atuam e votam, invariavelmente, unidos, mesmo quando os seus membros têm ideias diferentes. Em outras palavras, uma camarilha é um organismo semioculto dentro de uma equipe de militância.

O paradoxo é que a substância que une uma camarilha é a confiança que uma relação de casal potencializa. Mas ela pode envenenar a confiança dos outros militantes no casal. A confiança é um afeto complexo. Ela repousa em experiência, honestidade, lealdade, permanência, continuidade, previsibilidade, segurança. Na construção de um coletivo militante é essencial que as diferenças de opinião não se transformem em desconfiança pessoal. Discordar da posição de alguém não pode ser nunca a diminuição, desvalorização, desautorização do outro.  

O terreno da ação política é o da análise crítica, da elaboração da dúvida, da formulação de hipóteses, da discussão de ideias. Não pode ser contaminado pela desconfiança pessoal. Mas há sempre o perigo das rivalidades pessoais. Não se deve diminuir a dimensão subjetiva dos conflitos gerados pela dificuldade de vivência entre pessoas. Organizações são coletivos imperfeitos construídos por pessoas complexas. Portanto, complicadas.

Não é possível construir coletivos em que não há conflitos. Os conflitos são inexoráveis. Por isso, toda organização séria e saudável estabelece as regras para solucionar os conflitos. O nome dessas regras é o estatuto. O estatuto estabelece os procedimentos que nos protegem.

A regra de que militantes que formam um casal não devem estar no mesmo organismo nos protege de nós mesmos.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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