Militância e envelhecimento – Por Valerio Arcary

Na esquerda a idealização dos velhos militantes é uma atitude simpática, mas não é honesta. Ser um veterano não faz de ninguém um sábio. A esquerda não deve ser liderada por uma gerontocracia.

Azeite, vinho e amigo, o mais antigo

                                                                                 Sabedoria popular portuguesa

                                               Sentir como uma perda irreparável o acabar de cada dia.

                                                      Provavelmente, é isto a velhice

                                                                                                                     José Saramago

Precisamos conversar sobre a militância e o envelhecimento. É muito raro alguém se engajar na militância quando idoso. E são poucos os sobreviventes de uma vida inteira dedicada ao ativismo. Temos poucos velhotes na esquerda brasileira. Envelhecer é um processo, mas um dia chega, cedo ou mais tarde, e descobrimos novos limites, ou nos sentimos mais cansados. Mas o maior medo dos militantes idosos é o desamparo, solidão, ou pior, esquecimento e abandono.

Desde os anos oitenta, a desigualdade social não parou de aumentar no mundo.  Mas, a expectativa de vida, por uma combinação de variados fatores, aumentou, em escala mundial, e está alterando, qualitativamente, o perfil demográfico das sociedades contemporâneas.  

Uma mudança de padrão que só pode ser comparada com outras três transformações estruturais dos últimos setenta anos: (a) a mutação provocada pela acelerada urbanização das últimas sete décadas, que reduziu a população camponesa a uma fração minoritária na maioria dos países centrais e, também, em algumas das nações na periferia; (b) a modificação provocada pela crescente integração da maioria das mulheres no mercado de trabalho e a conquista de graus de autonomia econômico-social mais elevadas, que subverte as formas mais arcaicas de patriarcalismo; (c) a tendência à redução ou até erradicação do analfabetismo com o aumento do acesso à educação.

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Mas a transformação do envelhecimento é, talvez, mais difícil de ser, plenamente, avaliada. A velhice é, como todas as condições de vida, distinta para cada classe social. A imensa maioria dos trabalhadores se descobre idoso muito mais cedo, às vezes, uma ou duas décadas mais cedo, porque uma vida de trabalho duríssima compromete músculos, nervos e mente. Como em outros terrenos da complexa experiência humana há, também, compensações. A vida pode ser menos amarga e, eventualmente, até mais feliz, quando nos conhecemos mais e melhor a nós mesmos.

Existem preconceitos contra o envelhecimento. Se pensarmos o tema das idades da vida, em perspectiva histórica, o padrão foi a opressão da juventude e da velhice, porque nessas duas fases da vida a maioria é menos produtiva e tem graus variados de dependência dos adultos. No Brasil o etarismo, ou opressão dos mais velhos, prevalece.

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A subestimação dos idosos é crônica e assume formas paternalistas, como a infantilização, e grotescas, como o desrespeito. Ele se expressa não somente no mercado de trabalho, mas em todas as esferas da vida social. Tem raízes históricas, porque a solidariedade entre as gerações colocava os velhos como a responsabilidade dos mais novos e, portanto, um estorvo.

Não é fácil envelhecer. Ninguém escapa das armadilhas do tempo. A velhice tem uma dimensão subjetiva, na medida em que as pessoas têm percepções diferentes de quando se reconhecem como idosos. Mas tem, sobretudo, uma medida objetiva que são as perdas inescapáveis que são impostas pela idade. Evidentemente, é muito diferente envelhecer com ou sem saúde física. É muito diferente envelhecer na solidão ou cercado por relações afetuosas. Mas, mesmo descobrindo os caminhos da complexa arte de envelhecer bem seria absurdo ignorar que a vida tem variadas e diferentes fases e que a velhice um dia vem.

Na esquerda a idealização dos velhos militantes é uma atitude simpática, mas não é honesta. Ser um veterano não faz de ninguém um sábio. A esquerda não deve ser liderada por uma gerontocracia. Seria uma deformação perigosa não abrir o caminho para a colaboração e convivência de várias gerações.

Mas, desconsiderar a valiosa experiência acumulada e deslocar os mais velhos é uma miopia política. A desconsideração das lições deixadas pelas lutas dos que vieram antes de nós é uma forma de empirismo, um elogio prepotente da ignorância. A ideia de que os problemas do tempo presente são sempre desafios, inteiramente, novos é uma forma obtusa e imediatista de pensar. As analogias são sempre instigantes. Aprender a ouvir exige paciência, uma das qualidades da inteligência.

Dramatizar o envelhecimento é um desastre, mas romantizá-lo, não é um bom critério. A velhice fragiliza, em graus variados, os indivíduos. Quem deixa de ser escutado acaba por desistir de compartilhar. A esquerda não pode prescindir dos seus militantes mais experimentados. Tampouco pode alimentar a ilusão de que os quadros veteranos continuarão a cumprir o mesmo papel.

Há cinquenta anos, homens e mulheres de sessenta anos eram percebidos como anciões. Hoje ainda podem ambicionar muitos anos de vida ativa. Então, são várias as dimensões do desafio para os veteranos. Há o perigo da desmoralização e do adoecimento. A desmoralização pode ser pessoal ou política. A pessoal acontece quando amarguramos, e perdemos confiança em nós mesmos, e a política quando angustiamos, e perdemos confiança na luta da classe trabalhadora, nos oprimidos e no projeto socialista. O adoecimento pode ser físico ou emocional. O físico decorre do desenvolvimento de alguma moléstia crônica, e o emocional em função de algum mal-estar psíquico. Podem ser evitados pela plena compreensão de que é preciso mudar a relação que mantemos conosco mesmos e com os outros.

Mas mudar é difícil, embora não seja possível ganhar se não temos a disposição de perder. Isso impõe a necessidade de reposicionamento para contornar os perigos de “senilidade precoce”. É muito triste envelhecer “sem noção” do lugar que pode ser preenchido.

Há três grandes críticas contra os militantes calejados pelo tempo: a teimosia, a soberba e a rabugice. A teimosia é a armadilha do excesso de obstinação por uma ideia ou proposta, o capricho, a birra. A soberba é o perigo do excesso de orgulho, a arrogância, a presunção. A rabugice é o risco de excesso de queixa, a reclamação, ou a autopiedade.

O comportamento mais comum não é que os velhos sejam menos rígidos e mais flexíveis. Ao contrário, com o avançar da idade diminui a capacidade de ter paciência. Tampouco o mais comum é que com os anos se desenvolva o talento da alteridade. Alteridade é a capacidade de aceitar as diferenças sem desconfiança e sem hostilidade. Empatia é a capacidade que cada um de nós tem de se colocar no lugar de outra pessoa. Não há empatia sem compaixão. Compaixão é a capacidade de viver as ansiedades, os receios, os medos, as aspirações dos outros como se fossem as nossas. A empatia é essa sintonia emocional fina de sentir o que a maioria está sentindo.

Uma organização política de esquerda é movida por ideias, mas, também, por sentimentos. Ela pode estar inquieta, se foi convocada para decidir sobre uma luta, temerosa, ou preocupada, ou pode estar com medo. Sem empatia não há como se estabelecer relações de confiança. Todo militante está pedindo aos outros que confiem nele. Idosos, mais do que ninguém, procuram aprovação. Para consegui-lo, devem oferecer primeiro aquilo que estão pedindo aos outros. E grande o bastante para que ela justifique a reciprocidade.

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Valerio Arcary

É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.

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