domingo, 20 set 2020
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Mito mania

“desconhecereis a mentira e a mentira vos escravizará”, mestre cafuna.

filhos do carbono e do amoníaco, convido-os, nessa gélida manhã brasiliense, a uma despirocante reflexão.

depois de uma noite enluarada, tomando vinho filtrado por uma máscara de feltro, na agradável companhia de minha lívida amiga da pele cheirosa, saltou-me uma ideia da cabeça, numa pirueta amalucada e circense, qual um acrobata em desequilíbrio ou um ébrio e vexoso funâmbulo.

tento, agora, botar essa ideia de pé; e para isso conto com vossa estimosa atenção.

para tanto, porém, é mister que comecemos pelo início.

tome nota: jamais confunda mito maníaco com mitomaníaco.

à guisa de um experimento clínico e no afã de diferenciar essas duas categorias de mentirosos, descreverei esses dois tipos humanos e, ainda, mostrarei alguns estudos de caso para melhor compreensão deste fenômeno psicossocial que tanto mal faz à nossa boa gente.

mito maníaco é todo espécime humano/vacum, mocho ou chifrudo, que se torna hiper hipnotizado ao ouvir o aberrante som do berrante presidencial como se estivera a escutar um profeta a soprar o seu chofar de corno de carneiro.

nunca a definição de “comportamento de manada”, teoria de gustave le bon, se mostrou tão adequada.

sim, é de gado que estamos a falar, mas de um gado bípede, um certo bumba-meu-boi urbano.

ocorre que esse estranho rebanho corre atrás de um sujeito mentiroso e o chama de mito.

a questão é que todas as mentiras contadas por esse profeta de araque são aceitas como a mais pura verdade, porque, este, esforça-se para fazer da verdade uma grande mentira.

a terra é plana, o triângulo é quadrado, vacina mata, nazismo é de esquerda…

negar a ciência e a história não é apenas mentir, omitindo a verdade, é mentir para destruir a verdade, colocando a mentira em seu lugar.

baudrillard chamava esse negacionismo de “o grande simulacro”.

mas… por que diabos alguém acredita que uma mentira deslavada possa ser veraz?, inquieta-se o leitor atormentado.

a razão é simples, meu bom rapaz, esse mentiroso, berrante em punho, carrega consigo uma forte simbologia; o poder do mito.

você só conseguirá compreender a força simbólica que tem um mito na construção de narrativas quando ler a obra seminal de joseph campbell, “o heroi de mil faces”.

mas é bom que você saiba, o mito, em si, já é uma grande mentira.

na definição de fernando pessoa, “o mito é o nada que é tudo”.

e olha que de mentira pessoa entende, ele é criador de heterônimos (a mentira biográfica), forjou um cristo português sebastiânico (mentira metafísica) e disse que é um fingidor o poeta, um mentiroso por definição.

porém, a mentira do poeta difere da mentira desse falso profeta.

porque, esta, tem método, é calculada e serve a uma ideologia.

é isso que move o mentiroso do berrante, mentir é um projeto de poder.

como um mágico, ele falseia a realidade tornando a mentira uma substituta da verdade.

sim, há mentiras e mentiras. um significante pode ter variados significados.

por isso é tão importante estar atento à natureza das coisas.

há a mentira cênica e a mentira cínica, bem como a mentira clínica e patológica, a mentira deslavada e ilógica, a mentirinha, a meia verdade, a mentira calculada, a descompromissada e aquela que se comete para se tirar proveito, auferir lucro, obter vantagens.

mas não se assuste, leitor curioso, com seus próprios pequenos e exíguos pecados, mentir é natural e, em alguns casos leves e moderados, é até saudável.

o que seria do poker sem o blefe, que graça teria todos os jogos de carta sem os ardilosos lances de olhos ou o cutucar de pés sob mesas, o que seriam dos cassinos sem a malandragem dos croupies?

teríamos casamentos se os noivos não estivessem dispostos a enganar o padre no ato da cerimônia, concordando com tudo aquilo que se tem que concordar?

o que seriam das anedotas de mesa de bar sem o bêbado metido a rico ou o falso mulherengo com disfunção erétil?

percebe que há mentiras e mentiras?

quando deus trovejou sua voz tonitruante das alturas onde vive e questionou o seu neto, caim, sobre o paradeiro do irmão, o fratricida respondeu ao avô com uma pergunta insolente:

“acaso sou vigia do meu irmão para saber do seu paradeiro?”

por agora, deixemos de lado o fato de que essa pergunta do senhor do universo contradiz sua propalada onisciência; aproveitemos o exemplo que ele nos brinda com essa gafe.

ora, caim acabara de matar o irmão com violentos golpes de queixada de burro, portanto ele sabia onde estava abel e sabia perfeitamente que o irmão de lá não sairia.

de facto, caim mentiu!

porém, essa mentira não tenta se passar por uma verdade, ela apenas omite a verdade.

e outra, caim mentiu para não ser punido, agindo em legítima defesa; lembremos que que um réu está desobrigado a fabricar ou fornecer provas contra si mesmo.

“a verdade vos libertará”, diz o salmo. balela, a cadeia tá cheia de réus confessos e os tribunais não param de mandar pra casa artífices mentirosos.

“o homem mente desde que começou a falar”, falso, mudos também mentem.

“nada é mais humano que a mentira”, bobagem, os animais e as plantas mentem descaradamente.

o que é o camaleão senão um tremendo mentiroso em sua ardilosa camuflagem?

e tem até a nanomentira, a biomentirinha.

um exemplo? esse vírus virulento que simula sucessivas mutações para driblar e enganar anticorpos; o que é isso senão mentir?

“a mentira tem perna curta”, sim, mas é nos ombros dessa anã que o cabra do berrante tem caminhado a passos largos; foi na cacunda dela que uma facada lhe rasgou o bucho, sem deixar buraco nem sinal de sangue.

é essa mentira, simulacro da verdade, que está a nos arrastar para o abismo, e é ela que funciona como alfafa para os midiotas, é essa ração diária de mentira que estampa manchetes em fake news, ela é que é perniciosa.

sua razão, única, é auferir lucro, ela almeja resultados, ela procura lobotomizar mentes para implantar uma ideologia.

é isso, chegamos ao final da nossa reflexão de hoje.

percebe como diferir o mito maníaco do mitomaníaco?

o mitômano, esse enfermo que nega a verdade, mentiroso patológico, compulsivo e irrefreável, mente até para si mesmo.

no entanto, seu doentio hábito de mentir é quase ingênuo; ele não mente com a intenção de obter vantagens, não é isso que motiva sua pseudofilia; ele mente até para se prejudicar.

é um adicto!

nunca confunda um doente com um sociopata mau caráter.

já o mito mente de forma calculada, planejada e ardilosa; ele tem um método.

todos sabemos que há um odioso gabinete operando mentiras, fabricando e disparando inverdades para contaminar a mente dos mito maníacos, esses midiotas desconhecedores da verdade.

há duas categorias de mito maníacos: os que seguem as mentiras do mito – e as tem como verdade -, e os que produzem as mentiras para o mito, distorcendo a verdade.

os primeiros, diz o venerando mestre cafuna, ainda têm cura, nada que umas boas chineladas na bunda não resolva; porém, os segundos, só a cadeia, a tranca.

lá, no xilindró, a terra pode até não ser plana, mas o sol nasce com uma bisonha forma geométrica.

palavra da salvação.

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.