Mulheres amam demais e homens de menos? – Por Ingrid Gerolimich

Enquanto a angústia masculina por excelência é a castração fálica, como não ter uma ereção ou possibilidade de não dar vazão às pulsões, para as mulheres a angústia está na expectativa do desejo do outro sobre ela, se ele a ama ou não

Desde que Carla Diaz voltou do paredão falso no Big Brother Brasil e protagonizou uma cena polêmica ao se ajoelhar diante de Arthur, seu “crush”, para pedir que ele fosse seu parceiro no amor e no jogo, a internet, que não perdoa nada, amanheceu repleta de memes e comentários detonando a atriz.

Isto porque Arthur, que é mais um daqueles a engrossar as fileiras do machismo nosso de cada dia, para além disso, parece não estar “nem aí” para as investidas românticas de Carla, não demonstrando haver a recíproca que ela gostaria que existisse.

Isso me leva a uma reflexão sobre como mulheres e homens amam nas relações heterossexuais. Neste momento me vem à lembrança uma frase de Nietzche que diz: “A mulher se dá, o homem aumenta-se dela”. Para o filósofo, a palavra “amor” tem significados diferentes quando se trata de um homem ou de uma mulher. Pois, se para ela o amor é sinônimo de doação absoluta, entrega e, muitas vezes, renúncia, para o homem, amar diz respeito a aumentar, através do outro, o seu poder e sua potência de existir.

Trago aqui o exemplo do casamento para ilustrar outra face das disparidades nas relações entre homens e  mulheres: quantas vezes você já se deparou com aquela célebre frase “game over”, geralmente entoada pelos amigos do noivo, associando o casamento à perda de um jogo e, portanto, algo negativo. Vejamos agora como é o tratamento desferido à noiva neste caso: “Desencalhar” com certeza é um dos verbos que mais fazem sucesso desse lado de cá e o desejo compartilhado de todas daquelas que correm ávidas para pegar o bouquet, enquanto que os homens correm dele.

Agora, percebam como essa relação é desigual: enquanto nós mulheres aprendemos desde cedo a amar um amor dirigido ao outro, os homens aprendem a amar a si próprios e as inúmeras possibilidades que a vida lhe traz. Por isso é tão comum que ainda nos dias de hoje uma mulher, mesmo aquela considerada bem sucedida, seja discriminada caso não esteja casada e com filhos até uma certa altura da vida, pois muitos veem isso como sinônimo de fracasso, já que, dentro desta perspectiva limitada, uma mulher nunca está sozinha porque quer, e sim porque fracassou na  sua empreitada de laçar algum desavisado, diferente do homem solteiro, que não sofre com este tipo de julgamento.

Já perdi a conta das inúmeras histórias que ouvi sobre mulheres incríveis que perderam seu brilho próprio e o rumo diante de homens que se achavam a última cerveja do deserto, o último biscoito do pacote, etc. E, por mais que estes homens estejam longe de ser o alecrim dourado que muitas querem ver crescer nas terras férteis do seu coração, ainda está arraigado no inconsciente feminino a crença de que, quando um homem rejeita uma mulher, isto fala mais sobre ela do que sobre ele, quando na maior parte das vezes é o contrário, sem perceber que muitas vezes é o desejo dele por ela que lhe interessa e não ele em si.

Enquanto que a angústia masculina por excelência é a castração fálica, como não ter uma ereção ou possibilidade de não dar vazão às suas pulsões, para as mulheres a angústia está na expectativa do desejo do outro sobre ela, se ele a ama ou não, por exemplo.

Isto se dá porque o homem nasce com a ideia de que é completo em si mesmo. Não é à toa que durante muito tempo a palavra “homem” foi sinônimo de “humanidade”. Já a mulher foi historicamente contaminada pelo discurso de que ela é alguém que apenas serve ao Outro, a costela de Adão, a que cuida, como se precisasse realizar funções previamente determinadas para, assim, justificar o porquê da sua existência.

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Neste sentido, acredito que temos, enquanto mulheres, a tarefa urgente de ressignificar a nossa relação com o que entendemos como amor, de forma que ele seja o nosso instrumento de libertação e não de mais aprisionamento e limitação do nosso existir no mundo. É sobre amar o outro e não a idéia de que precisamos ser amadas por ele para que nos amemos também.

O que vocês pensam desse assunto?

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**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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