Não deixe o Dia do Trabalhador morrer – Por Raphael Fagundes

O home office é um formidável laboratório para a consolidação desse projeto burguês. Os trabalhadores usam a sua energia elétrica, seu computador e sua internet para a realização das tarefas

Em meio a uma investida da extrema direita que subiu ao poder e a uma esquerda esfacelada em movimentos sociais identitários, os trabalhadores vêm perdendo, a cada dia, canais de expressão.

Sindicatos e partidos políticos dedicados aos trabalhadores vêm se tornando obsoletos. Trata-se de uma etapa do capitalismo que fomenta multipolaridades para obscurecer e isolar em um passado remoto as ideias revolucionárias orientadas pela teoria da luta de classes.

A uberização da classe trabalhadora é a grande questão do momento. Os defensores da indústria 4.0 usam a tecnologia para promover as novas relações de trabalho. As tecnologias de informação e comunicação (TIC) são a marca do futuro. Alegam que as “restrições de serviços especializados por questões geográficas” são reduzidas. Dizem que sem vínculos com o trabalhador promove-se uma autonomia, facilitando a possibilidade de possuir mais de um emprego, obter uma renda extra ou um modo de divertimento no tempo livre.

A retórica é da “democratização dos meios de produção (bastaria ter um computador/celular, carro ou mesmo bicicleta para a produção autônoma de renda…)”. É um discurso que transforma o trabalhador em cliente, “alegando liberdade para trabalhar quando, onde e como quiser”. Mas a realidade é bem diferente. O que vemos é a mutação do trabalho, transformando o trabalhador no “novo proletariado de serviços”.[1]

Esse fenômeno se intensificará na pandemia. O home office é um formidável laboratório para a consolidação desse projeto burguês. Os trabalhadores usam a sua energia elétrica, seu computador e sua internet para a realização das tarefas.

Uma pesquisa da consultoria Mercer, feita com 819 gestores, mostra que “um em cada três empregadores afirmou que pelo menos 50% de sua força de trabalho vai trabalhar de forma remota no pós-pandemia”.[2]

Está havendo uma desproporcionalidade entre a representatividade operária – tanto no parlamento quanto nas outras esferas sociais – e o aumento da exploração dos trabalhadores. Enquanto essa baixa representatividade continuar, os interesses do capital vão avançando sobre os interesses da classe trabalhadora tornando as relações de trabalho altamente nocivas à própria vida dos menos abastados.

O trabalhador brasileiro tem uma economia moral, a qual não almeja a revolução, mas o cumprimento das leis trabalhistas. Esse aspecto marcou a luta dos trabalhadores por muitos anos. A uberização, o trabalho intermitente e a Indústria 4.0 impostas por uma realidade internacional que prioriza uma exploração laborial sem a dominação espacial, mas por meio do domínio do tempo, vieram para erodir essa economia moral. Todo o discurso criado, que expomos anteriormente, serve de engodo para submeter por completo a classe trabalhadora aos interesses do capital.

É preciso fazer do Dia do Trabalhador um dia de reflexão e movimento. Pensar em uma representatividade parlamentar e cultural é de extrema importância para resgatar a posição central do proletariado nas discussões sobre os rumos do país.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.


[1] FILGUEIRAS, V. e ANTUNES, R. Plataformas digitais, uberização do trabalho e regulação no capitalismo contemporâneo. ANTUNES, R. (Org.). Uberização, trabalho digital e Indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 63.

[2] https://www.google.com/amp/s/exame.com/carreira/afinal-qual-sera-o-tamanho-do-home-office-no-pos-pandemia-depende/amp/

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.