Não há motivo para chorar em São Paulo

Tomaz Amorim comenta o resultado das eleições em São Paulo: ‘A verdade é que essa campanha foi tão bonita, e movimentou tantas energias, novas, antigas, futuras, que nos parecia simplesmente natural uma vitória acachapante de Guilherme Boulos no 2° turno. Infelizmente, as coisas demoram um pouco mais.

Seis meses atrás, quem dissesse que o PSOL teria 40% de votos para a prefeitura de São Paulo, com uma liderança sem-teto, seria ridicularizado. A verdade é que essa campanha foi tão bonita, e movimentou tantas energias, novas, antigas, futuras, que nos parecia simplesmente natural uma vitória acachapante de Guilherme Boulos no 2° turno. Infelizmente, as coisas demoram um pouco mais. Digo isso não para nos acomodarmos à derrota, mas para saber colher os frutos do trabalho, frutos que justamente nos dão ânimo e esperança para a vitória futura.

Analisando os resultados, não temos motivo para ficar tristes. Partimos de uma campanha militante, com muito menos dinheiro do que os adversários, sem a máquina pública, uma campanha que se caracterizou pelo uso das redes e dos movimentos sociais. Uma “campanha social” que foi aos poucos se oxigenando, aglutinando aos poucos forças do centro e da esquerda, fortalecendo uma bancada feminista, negra e LGBT inédita na história da Câmara dos Vereadores, e sendo fortalecida por ela. Com isso, chegamos perigosos, sedutores, para bater de frente com os tucanos no seu ninho de aço, a capital financeira do continente, no 2° turno. E nesta luta improvável, fizemos 40% dos votos válidos.

O resgate histórico ajuda a mostrar a grandeza desse resultado. Há quatro anos, com a máquina na mão, mas sofrendo pelas campanhas difamatórias da mídia, pelo antipetismo golpista e pelo prelúdio das forças que desaguariam no bolsonarismo, Fernando Haddad, que havia feito uma boa gestão, com pautas modelos para o resto do país, como a do transporte, não conseguiu se reeleger, nem tampouco passar ao 2° turno. Quatro anos depois, na meia-noite do bolsonarismo, imersos na maior crise sanitária e econômica dos últimos cem anos, conseguimos 40% dos votos válidos. Votos que ousaram sonhar uma outra cidade em que famílias não moram na rua, em que não se come do lixo, em que não se negociam subprefeituras por apoio político, em que a saúde e a educação são prioridade, em que a segurança pública não serve para humilhar e matar gente negra e pobre, enfim, uma cidade que juntaria o melhor da tradição política, representada por Luiza Erundina, e o melhor da renovação, a partir de uma nova liderança legítima dos movimentos sociais. Isso é pouco?

É pouco que essa candidatura tenha ganhado dimensão nacional, fortalecendo outras candidaturas progressistas, combatendo o bolsonarismo de frente, forçando seus adversários a modular o tom e a buscar se aproximar de pautas históricas em quase todas as capitais? Basta lembrar que na última década o que observamos foi uma movimentação contínua e dolorosa do centro do espectro político para direita, com bravas exceções aqui e ali. O que vimos a partir do 2° turno em São Paulo foi o retorno de pautas históricas à ordem do dia, de uma esquerda sem medo de dizer o seu nome e mais experiente, sem se deixar cair nas ciladas jornalísticas do “radicalismo”. Nunca se debateu tanto, e com tanta qualidade, nas diversas esferas sociais de São Paulo, dos comentaristas políticos às conversas de Uber, a questão urgente da moradia, por exemplo. O feitiço da invisibilidade que cobre aqueles que moram na rua foi suspenso. A direita, ainda que por um momento, foi forçada a falar com a população, escondendo sua opção pelas empreiteiras, sobre especulação imobiliária, plano diretor, acesso a aparelhos públicos e mobilidade urbana. Não, isso tudo não é pouco, são vitórias e arrancadas à força, a partir de consciência de classe!

Apesar do gosto amargo da derrota, lembremos de seis meses atrás quando isso tudo pareceria um sonho. Se em 2018, partes da zona leste e da zona sul foram retomadas por Haddad contra Bolsonaro, a memória dolorosa da última eleição para prefeitura, em que estas zonas foram tomadas por Doria e Marta, ainda estava fresca. Parece que a esquerda, de fato, voltou para as periferias e, dessa vez, se a direita tinha sua ex-prefeita de “ex-querda” para disputar as periferias, a esquerda também tinha sua ex-prefeita de esquerda, Luiza Erundina, que por si só fez uma das campanhas mais bonitas da história recente do Brasil. Desfilando com seu “Cata-Voto”, encontrando eleitores de sua época de prefeita, visitando lugares que ela ajudou a urbanizar, Erundina ajudou com sua presença a romper com a obsessão contemporânea pela novidade na política. Que bom que Boulos existe e que ele renova a esquerda, mas a esquerda que tem programa, tem tradição, passa décadas, gerações lutando pelas suas pautas, não inventa tudo do zero a cada nova eleição (como querem fazer os partidos “novos”). Boulos e Erundina, Erundina e Boulos conseguiram fazer convergir esses dois momentos da política, carregando o presente de uma energia explosiva que não se via há muito tempo. Em um dos seus últimos pronunciamentos eleitorais ela deu o seguinte relato de um encontro com eleitores, relato que também pode ser chamado de poema:

“Uma árvore enorme, sabe?

Construindo modelos de flores

e se organizando em torno

das folhas.

Num ambiente que ninguém

tava dando conta.

Aquilo, gente,

aquilo é a criação”.

Erundina falou esse excepcional poema alguns dias antes da eleição. Nessa nossa situação invernal, ela falou do que representava a candidatura. Uma árvore sonhando flores, acomodando e sendo acomodada pela base, essas folhas verdes em torno do qual a candidatura se organizou. Sem estabelecer hierarquia, mas fortalecida pelos movimentos, árvore e folhas e flores, se potencializando para um fruto doce adiado pelo resultado, mas em vias de amadurecer.

E se não bastasse tudo isso, o sonho muito concreto da vitória, o resultado improvável, a desinvisibilização da miséria, o retorno de políticas sociais para o centro do debate, a retomada de contato com a periferia, a justa medida entre tradição e renovação, vale ainda lembrar do principal derrotado nestas eleições, no primeiro e no 2° turno: Jair Messias Bolsonaro. É verdade que o centrão pútrido e a direita tentam tomar, novamente, o seu lugar. Mas a esquerda, em suas mais variadas formas, também se reorganiza e mostra que, no momento de perigo, consegue estabelecer alianças temporárias. Aprendemos com 2018, crescemos e rugimos para 2022, com bancadas combativas no legislativo do país inteiro. Claro, queríamos a eleição, não deu, mas saímos, por um momento, desta noite longuíssima em que estávamos. Foi aceso um farol, ainda que temporário, em São Paulo. Outra luz, forte, emana de Belém. O inimigo foi abatido em Fortaleza. Nas câmaras multiplicam-se, sim, as sementes de Marielle – Presente.

Essa campanha nos lembrou, nos fez voltar a saber que é possível: o candidato do PSOL, um líder sem-teto, com apoio de Lula, Ciro, Marina e Dino, acenando para Manuela e Edmilson, recebeu 40% dos votos válidos da cidade de São Paulo. Voltamos às ruas, nossas ideias voltaram a pautar debates, tudo isso continua, não na espera de 2022, mas já na prática, a partir de 1º de janeiro. Aliás, a partir de semana que vem. Nestes primeiros dias de ressaca, podemos curtir uma melancolia breve, lamber as feridas, chorar um pouco e silenciar. Mas amanhã, sem dúvida, voltamos a conspirar para trazer justiça social a esta cidade e a este país. Desta vez, não há motivo para chorar em São Paulo.

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Tomaz Amorim Izabel

Graduado e mestre em Estudos Literários pela Unicamp e é doutorando na mesma área na USP. É militante da UNEAfro Brasil. Além de crítica cultural, também escreve poesia [tomazizabel.blogspot.com] e coedita o blog Ponto Virgulina de traduções literárias. Publicou traduções para o português de Franz Kafka e Walt Whitman.

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