Não houve arrego e nem era golpe

O impeachment está fora do cenário imediato - e a terceira via se enfraquece

1. O 7 de setembro bolsonarista nunca foi verdadeiramente o dia de tomar a sede do STF ou decretar estado de sítio. Até porque, o golpe já foi dado – começou em 2016. Desde lá, vivemos um coup en cours– um   putsch in progress. Bolsonaro nunca escondeu seu objetivo de fechar o regime.

2. Bolsonaro já está no governo. E os militares também. Para que dar um golpe agora?  Quem impediria um golpe bolsonarista? As Forças Armadas – que majoritariamente apoiam o ex-capitão? Ele segue tendo maioria na Câmara e não está preocupado com o agora, mas sim com 2022. Não é um governo “normal”; mas disruptivo –  blefa, ameaça, alardeia golpe todo dia.

3. Embora venha perdendo apoio popular, o presidente ainda tem 25% de aprovação. O neofascismo hoje é uma corrente de massas no Brasil. E mostrou sua força nas ruas dia 7.

4. Bolsonaro se reposicionou. Arreganhou os dentes. Mostrou que tem musculatura. Deixou nítido que não vai “cair de maduro”.  Re-aglutinou também sua base parlamentar. Rodrigo Pacheco fechou o Senado –  Arthur Lira fez a fala mais escorregadia possível.  Ele colocou  o golpe no centro das manchetes. Testou novos limites e mandou muitos recados.

5. Análises impressionistas, sejam alarmistas ou triunfalistas, só atrapalham o campo progressista. Erraram os setores que defenderam cancelar as manifestações dos movimentos sociais no dia 7. 

6. A meta dos neofascistas era colocar mais gente nas ruas. Contudo, a  movimentação esteve  muito longe de um tal   “flopou”. Autoengano não ajuda a armar nosso campo.

7. Mourão, o vice, não rompeu com Bolsonaro – esteve ao seu lado em Brasília e depois afirmou que não há clima para impedimento do presidente. Ou seja, a operação impeachment fica ainda mais complexa.

8. Bolsonaro avança e recua. Faz parte do jogo.  Em meados de abril do ano passado fez um pronunciamento em rede nacional bem   equilibrado, até negou a cloroquina. O bom senso não durou poucos dias. Há muita inteligência política nas ações do líder neofascista. 

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9. Não houve arrego nenhum na nota formal desta quinta, 9 – todo mundo sabe que não foi escrita por Bolsonaro. É um passo da dança. 

10: Bolsonaro colocou as fichas na mesa, mostrou os dentes – reafirmou que não vai se deixar derrotar, recolocou-se no jogo eleitoral (“se não me quiserem, vão ter que engolir o Lula”). 

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11. A reação “das elites” mostrou apreensão, mas foi   comedida   e morna, seja   a do STF, da mídia, ou dos  partidos que supostamente vocalizam a “burguesia neoliberal não fascista”. O recado para ele   foi “você exagerou, recue, nos ajude a te ajudar”.

9. Ato contínuo, Bolsonaro encena o tal arrependimento. Houve muita negociação nos bastidores – provavelmente, inclusive, sobre o destino do clã familiar.

10. Ao radicalizar demais sua base fascistóide, Bolsonaro instiga essas coisas   como os bloqueios de estradas pelos caminhoneiros e outras bizarrices.  Decepciona muita gente dele ao pretensamente se compor com as “instituições”. O que muitos de nós desprezamos como comportamento de “gado” reflete, na verdade, uma organicidade, disciplina, firmeza ideológica, disposição de luta impressionantes – que muita falta faz à esquerda.

11. Não se deve, entretanto, superestimar a frustração da base neofascista.  Já está sendo reorientada, tanto por Bolsonaro (“deixa acalmar amanhã”), como pelos influencers deles – Bannon/Carluxo giram a opinião dessa turma em 48h.

12. Se for necessário, o neofascismo descartará setores mais extremados que não sigam sua orientação (é só nos remetermos às experiências históricas, como na ascensão do nazismo na Alemanha).

13. O “recuo” de Bolsonaro na verdade é um reposicionamento provisório. Esvazia pruridos pró-impeachment tanto de farialimers como dos Partidos (PSD/DEM/PSL/PSDB). Ademais, murcha o ato pró-Doria do dia 12 (a manifestação do MBL nada tem a ver com derrotar Bolsonaro, mas sim com vetar Lula e empinar o governador tucano paulista). Perdeu fôlego a micareta oposicionista fake do próximo domingo.

14. Não superestimar a força do neofascismo. Não haverá tanques nas ruas amanhã, nem PMs ou milícias matando pessoas descontroladamente. 

15. Ao mesmo tempo, é necessário não subestimar as forças do neofascismo. Bolsonaro não derreteu. A grande burguesia e boa parte das classes dominantes seguem divididas –  não   decidiram o que fazer, além de impulsionar uma terceira via.  Mas não   vão operar agora a derrubada de Bolsonaro.

16. A luta contra o bolsonarismo é muito mais dura do que a luta contra Bolsonaro. E não basta enfrentar o neofascismo sem enfrentar o neoliberalismo. Sem ilusões com a grande burguesia, com supostos setores democráticos dos endinheirados – foram eles que rasgaram a constituição de 88 e viabilizaram o bolsonarismo.

17. Respirar fundo. Equilibrar as análises. Pensar em termos estruturais-  históricos, analisando as relações entre as classes sociais, o cenário internacional, relações entre a superestrutura política e a infraestrutura. Menos pensamento desejante. Mais rigor. 

18. Ruas e redes. Organização de base. Giro ao território. Formação política. Encarar as guerras culturais, ideológicas. Defender um programa de esquerda, de reformas estruturais –  sem medo. Fortalecer o campo democrático-popular. Combinar luta institucional com luta social e cultural. Parar de ridicularizar o bolsonarismo –  entender o tamanho da crise e da defensiva em que nos encontramos.

19. 2022 não é 2002. O cenário segue instável, confuso. Bolsonaro se posiciona para seguir sendo o anti-Lula. E para tumultuar todo o processo. Nada está dado.

20. Sem luta social, sem mobilizações nas ruas estaremos em desvantagem. Não dá para jogar parado, achando que Lula está quase eleito. Derrotar o programa de Guedes, o autoritarismo neofascista e reconstruir/transformar o Brasil vai exigir muito mais de todas nós.  A   começar    por estudar, respirar.  Pensar muito antes de fazer (e difundir) “análises” de conjuntura cheias de desejos e carentes de fatos.

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Julian Rodrigues

Julian Rodrigues, professor e jornalista, mestre em ciências humanas e sociais, é militante do movimento de Direitos Humanos e LGBTI. Idealizador da Frente Parlamentar LGBT, foi coordenador LGBT do governo Haddad e criador do Transcidadania.

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