Luiz Roberto Alves

13 de abril de 2019, 16h37

Não se esqueça! – Carta aberta ao ministro da Educação

Na coluna de Luiz Roberto Alves: O presidente afirmou que o senhor é um ótimo gestor, competente para gerir o MEC. Como sempre, o presidente se esquece, ou não sabe, que para gerir a educação carece-se, antes de tudo, de ser educador que ame a educação.

Foto: Rafael Carvalho/Divulgação Casa Civil

Senhor Ministro

‘Al Tishkach!! A língua com a qual o presidente Jair tentou dizer que amava Israel propõe, com toda a ênfase, que diante de brutalidades, como as conhecidas na História, não se deve esquecer. E esta é uma atitude exemplar. Perder memória implica em começar a morrer, ou submeter-se. Aos brasileiros/as convém não se esquecer pois aqui também se dá, entre exceções e belos esforços, um genocídio cultural, muito mais obra do desprezo elitista para com a educação das crianças, adolescentes e jovens do que por obra de disputa de ideias.

O presidente afirmou que o senhor é um ótimo gestor, competente para gerir o MEC. Como sempre, o presidente se esquece, ou não sabe, que para gerir a educação carece-se, antes de tudo, de ser educador que ame a educação. MEC é estrutura burocrática, com seu relativo valor. Busquei textos sobre educação no seu Lattes, com o interesse em lê-los, mas nada encontrei. O que lembra, parcialmente, que o senhor faz educação é um texto, também no Lattes, sobre o grande interesse dos alunos da Unifesp Osasco pelas suas aulas. Não pude comprovar.

Somente a sua prática dirá se o senhor é gestor de educação ou aí está para continuar com revanchismos, acerto de contas entre facções do poder ou para persistir no diapasão roto e canhestro do marxismo cultural. Se for nesse rumo, o velho Estanislaw Ponte Preta/Sergio Porto lançará a verdade sobre a sua gestão. Dela não sobrará mais que algum “sub-nitrato de pó de espirro”. Ou, se o senhor for mais forte nas disputas de poder pessoal e grupal, não sobreviverá a própria educação, especialmente como entendida por Hannah Arendt, ou seja, a ação amorosa de gerações adultas no cultivo integral das gerações mais jovens.

Eu lhe escrevo pela paixão à Educação, 50 anos depois de ensinar quase ininterruptamente, dos cursos de admissão ao ginásio à pós stricto sensu; quando não o fiz, fui pesquisador no exterior e gestor educacional público. Sugiro, então, que o senhor não se esqueça de que:

A. O MEC tem gavetas cheias de excelentes contribuições à educação básica, hoje a razão de ser do ensino universitário no futuro que já chegou. Além de experiências locais e regionais, ali estão as Diretrizes Nacionais para as diversas dimensões da educação brasileira, criadas pelo CNE desde a promulgação da LDB/1996. Elas são indispensáveis para entender e induzir a BNCC, o Sistema Nacional e o Plano Nacional de Educação. Foram sempre negligenciadas. Prefeitos e Governadores não podem arrancar documentos das mesas do MEC. Cabe ao senhor leva-las ao diálogo nacional, de modo integrado e sob regime de colaboração.

B. O país está saturado de salvadores da educação, formados por “sistemas de ensino” via de regra privatistas, organizadores de decalques do último teórico formulados em grandes eventos e que se mostram como “colaboradores” da educação pública. Enquanto esta piora substancialmente, os vendedores de sistemas educacionais rasgam a LDB aos pedaços, fazem lobby pesado e tergiversam sobre o que é essencial para a qualidade educacional, isto é, a comunhão criadora dos que aprendem e ensinam, estudantes, comunidades e professores de todos os níveis e graus. Além disso, os donos dos sistemas reinventam currículos ao sabor do mercado, também conhecido por serviços.

C. A conversa de que há grande investimento em educação, faltando somente gestão, é uma grave limitação da inteligência dos que a emitem. De fato, senhor Weintraub, o que o economês enuncia reflete a ignorância diante das necessidades não supridas em educação, tais como: o fim efetivo do analfabetismo de jovens e adultos; a construção e a manutenção de escolas públicas multidisciplinares, que propiciem ações de educação, de cultura e dos esportes, com abrangência local/regional; o respeito e a ampliação das necessidades do admirável Reuni nas instituições federais, com leitura e resposta para as diversidades regionais e nacionais, étnicas, de gênero, geográficas, econômicas, histórico-culturais e, por respeito a elas, o cumprimento criativo dos atos de ensinar, pesquisar e estender-se da cidade às relações internacionais; o acato e o respeito ao plano nacional de formação de professores, de que nada é mais urgente; a seriedade no retorno e no cumprimento do Plano Nacional de Educação. O financiamento e o investimento, senhor Weintraub, não se definem pela ideologia do gestor e suas preferências orçamentárias e sim pela teleologia educacional, pelos alvos e objetivos realizáveis e pelos processos de trabalho a favor da educação no país continental, diverso e desigual. O senhor está atento a toda diversidade e toda desigualdade a serem superadas?

D. Urge abandonar bandeiras educacionais, pactos e campanhas, instrumentos de frustração depois do oba-oba. Educação é tradição que toma tempo, que apaixona conforme se amplia e se aprofunda, que se sedimenta de valores assumidos por estudantes estimulados à autonomia, confiança e liberdade no trato do conhecimento e seu compartilhamento, o qual reflete atitudes psicossociais apreendidas e sentidas. O que se exige além disso, que é a formação para o trabalho, também depende dessa apreensão, que é a formação humana, a alegria de remar nos saberes do mundo.

E. A única segurança que a experiência histórica aceita para a vida escolar e educacional é a justiça social no interior das nações. Este país bárbaro e injusto, que acaba de matar – e, simbolicamente, morrer junto com- Evaldo Rosa dos Santos, dirigido por elites políticas assassinas há séculos (e também hoje), não tem qualquer direito de continuar com sua desinteligência de armas e pistolagens para segurança no espaço educacional. Somente pessoas deformadas podem pensar assim. Ao contrário, faça-se a justiça social, alterem-se as marcas das desigualdades, distribua-se o bem-público dignamente e a escola será um lugar seguro. Não se diga, outrossim, que os EUA são uma nação justa a par de ataques às escolas. Ora, as nações indígenas e as comunidades populares tem mais a ensinar sobre justiça e solidariedade do que o país do norte, America first.

F. Senhor ministro, economize linguagem e discurso até conhecer com profundidade os processos educacionais, desde os documentos de 1932 aos de 1960 e aos que são debatidos por profissionais da educação básica e da universidade nas últimas décadas. Ninguém melhor que educandos e educadores para suscitar, dentro do MEC, o diálogo indispensável na direção do que é fundante para a educação de qualidade social reconhecida.

G. Enfim, acredite que Paulo Feire está anos-luz distante do MEC, embora haja um ícone dele frente ao prédio do ministério. O educador mundial se encontra há décadas esquecido e seus textos empoeirados na situação de miséria cultural do país. Mais distante ainda dos currículos da escola pública, embora suas ideias estejam próximas de currículos da Austrália, Finlândia e Canadá, notadamente a comunhão educacional de aprendentes e ensinantes, os alvos escolares postos no rigor científico e o compartilhamento do saber, bem como as atitudes de autonomia e liberdade.

H. Alguns dos meus amigos e colegas me perguntarão se pretendo ajudá-lo com este chamado ao não-esquecimento. Respondo que, depois dos 100 dias, tenho a obrigação de acreditar que as forças mobilizadas da educação e da cultura vençam a destruição insensível e desmemoriada que já se instalou. E não haverá outras forças melhores do que essas. A verdade começa pelo desafio e se realiza no equilíbrio. ‘Al tishkach!


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