Nas redes sociais só não pode ser anticapitalista

É permitido ser racista, homofóbico, misógino. Mas é proibido ter consciência de classe

Tenho conta no twitter desde quando a rede social surgiu no Brasil, ainda em sua versão em inglês.

Quando o twitter era “mato”, estive entre os 100 brasileiros mais influentes, à frente de contas como a de José Serra, por exemplo.

Hoje, descubro que fui bloqueada no twitter por um comentário que fiz sobre o sistema financeiro. Desejei que os canalhas golpistas, que hoje rejeitam Bolsonaro e reconhecem que erraram ao financiarem o golpe contra a presidenta Dilma, se engasgassem com o dinheiro que nos roubam todos os dias.

O curioso é o motivo: assédio.

Ou seja, uma mulher negra, educadora popular, comunicadora é tratada como assediadora quando faz uma crítica anticapitalista.

Nas redes sociais é permitido ser racista, homofóbico, misógino.

É permitido atacar um padre que leva marmitas para dependentes químicos.

Pastores bolsonaristas também podem atacar uma jovem negra, chamando-a de “vaca”.

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Legiões de “mascus” atacam todos os dias feministas figuras públicas ou não.

Pode-se, ainda, espalhar fake news sobre linguagem neutra, sobre Lula, Dilma, Haddad.

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Pode manipular fotos como fizeram com a filha de Maria do Rosário.

Pode agredir uma criança como fizeram com Laura, filha de Manuela d’Avila.

Pode ameaçar de morte Jean Wyllys, Márcia Tiburi, Pablo Villaça, Lola e Maria Frô.

Pode ameaçar feministas de estupro. Podem mandá-las “se foderem”

Pode celebrar a morte de sem terra.

Pode ser xenofóbico contra haitianos, chineses, pode esculhambar nordestinos.

Pode se orgulhar de ser fascista.

Pode fazer apologia a linchamentos e ao assassinato.

Pode publicar fotos de pessoas “justiçadas” ou mortas violentamente.

Pode vender armas.

Pode combater os direitos humanos.

Mas não pode ter consciência de classe, não pode de modo algum desejar que banqueiros se engasguem com o dinheiro que acumulam saqueando o Estado.

Não pode desejar que financistas se engasguem com o dinheiro que acumulam com os juros.

Nem pensar em criticar o sistema financeiro que tomou conta do Banco Central e dita a política econômica para que banqueiros e especuladores possam acumular ainda mais.

É assédio criticar um sistema que leva a leilão a casa do trabalhador desempregado que não pode pagar a prestação.

É crime criticar os juros abusivos do cartão de crédito e cheque especial.

É proibido criticar os famintos banqueiros que tomam a terra do pequeno agricultor endividado.

Nas redes sociais se pode ser antissocial contra todos os grupos subalternizados, só não pode ter consciência de classe.

Nas redes sociais ser anticapitalista é “assédio”, punido com bloqueio, censura e silenciamento.

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Maria Frô

Historiadora, pedagoga, educadora, formadora, blogueira, autora de coleções didáticas e séries para a televisão.