Nem os nomes das cidades escapam… – Por Mouzar Benedito

O assunto hoje é “cidades que mudaram de nome”. Geralmente, as mudanças são para pior. Raramente vi mudanças de nomes para melhor

Não aguento mais ouvir ou ler notícias ruins. De vez em quando bate isso e tenho que pensar numas abobrinhas, e escrever sobre elas, de preferência.

O assunto hoje é “cidades que mudaram de nome”. Geralmente, as mudanças são para pior. Raramente vi mudanças de nomes para melhor.

Minha terra mudou de nome várias vezes: foi Santa Rita Velha, Santa Rita dos Cafezais (dois nomes que acho bonitos), Santa Rita do Rio Claro (não tanto), Vila Nova de Resende (sonoro também) e finalmente parou em Nova Resende.

Em Minas Gerais, a maior parte das cidades recebeu nomes de santos, mas complementados por algo que dava um charme a esses nomes. Por exemplo, tenho dois amigos mineiros nascidos em cidades que se chamam Santana: uma é Santana do Jacaré e outra é Santana do Deserto. Bonito, não?

Bom, aí fui ver os nomes antigos de cidades mineiras que se renomearam. Não só as que tinham nomes de santos antes, outras também. Quase sempre a mudança foi para homenagear algum político ou mandão local. Pioraram muito. Acho que não deviam pôr nome de gente em nada, muito menos em cidades. Vou citar alguns (ou muitos) exemplos.

Santo Antônio do Calambau virou Presidente Bernardes; Divino Espírito Santo da Forquilha virou Delfinópolis; Santana dos Alegres virou João Pinheiro; Nossa Senhora do Livramento do Papagaio virou Tomás Gonzaga (gosto do poeta, mas…); Sertão da Farinha Podre virou São Pedro de Uberabinha e depois Uberlândia.

Continuando, São Sebastião da Ventania virou Alpinópolis; Espírito Santo de Mutuca virou Elói Mendes; Carmo da Escaramuça virou Paraguaçu; Campo Místico virou Bom Jesus da Pedra Fria (interessante também) mas depois se tornou Bueno Brandão; Garimpo das Canoas virou Claraval; Dores do Aterrado virou Ibiraci; Santa Bárbara das Canoas virou Guaranésia; Santa Cruz das Areias virou Fortaleza de Minas, e um povoado chamado Cavacos virou Divino Espírito Santo, mas o povo continua preferindo dizer que é de Cavacos.

Ufa… continuo. Nossa Senhora Mãe dos HomeNs da Bagagem virou Estrela do Sul (nome interessante); Senhor Bom Jesus do Brejo Alegre virou Araguari; São Bento do Tamanduá virou Itapecerica; São Sebastião dos Lençóis virou Espinosa; Santana do Sapé virou Guidoval; Nossa Senhora do Carmo do Tabuleiro Grande virou Paraopeba; Nossa Senhora da Conceição da Água Suja virou Berilo; São Miguel das Almas virou Guanhães; São Gonçalo do Brejo das Almas virou Francisco Sá; Arraial das Taboas virou Bicas; Curral Novo virou Antônio Carlos; Santana da Ressaca virou Carandaí…

E mais ufa… Figueira do Rio, ou Porto das Canoas, virou Governador Valadares; São José dos Aflitos virou Ervália; Nossa Senhora das Mercês do Cágado virou Mar de Espanha (interessante) e Nossa Senhora do Carmo do Japão virou Carmópolis de Minas.

Mas não é só em Minas Gerais que acontece isso. Vou dar exemplos de outros estados.

Em São Paulo, Nossa Senhora das Dores do Sapé virou Bariri e Borboleta virou Bady Bassit. Pinhal foi na direção contrária: virou Espírito Santo do Pinhal, mas muita gente de lá não gostou nem um pouquinho e continua chamando de Pinhal.

Em Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro virou Florianópolis (que os catarinenses melhoraram chamando de Floripa) e Engano virou Ipumirim.

No Rio Grande do Sul tem uma cidade chamada Não-Me-Toque que mudaram para Campo Real, mas a população não aceitou e voltou a chamar Não-Me-Toque. Os caminhoneiros diziam que nas paradas em postos de gasolina, em tudo quanto é parte do Brasil, quando os outros viam a placa de Não-Me-Toque ficavam curiosos, puxavam conversa e eram feitas muitas amizades. Como Campo Real, não interessava a ninguém.

No Paraná, Marrecas virou Francisco Beltrão e, em Goiás, Meia Ponte virou Pirenópolis. A capital paraibana chamou-se Filipeia de Nossa Senhora das Neves e Cidade da Paraíba antes de virar João Pessoa.

Na Bahia, Três Morros virou Lafaiete Coutinho, Gado Bravo virou Licínio de Almeida e Mimoso do Oeste se tornou Luís Eduardo Magalhães. E Bom Conselho virou Cícero Dantas.

Podia continuar um tempão aqui, mas termino com uma história muito interessante de uma cidade capixaba. Ouvi há muito tempo e já contei em outros lugares. Houve uma época em que davam nomes de cidades a animais da fauna brasileira e no Espírito Santo deram a uma delas o nome de Veado. Muito tempo depois a palavra veado tornou-se sinônimo de homossexual e resolveram mudar o nome.

Mudaram para o nome de um herói da Revolução de 1930, Siqueira Campos. Na época não existia o CEP (Código de Endereçamento Postal) e era uma complicação para os correios acharem o lugar para onde enviar a correspondência quando um lugar mudava de nome. A solução era pôr entre parênteses o nome antigo. E as cartas para Siqueira Campos tinham entre parênteses a informação “Ex-Veado”. A família do homenageado não gostou e pediu para tirarem o nome dele,

O prefeito foi com algumas outras pessoas ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil, pedir nova mudança. As coisas funcionavam assim: não precisava plebiscito, nada, era só uma canetada governamental. A equipe foi recebida pelo ministro da Educação, Gustavo Capanema. Explicaram a situação, ele topou e perguntou qual seria o novo nome. Como era moda também dar nomes indígenas a cidades, entraram nessa e a proposta era dar à cidade o nome de um rio da região, Guaçuí.

Capanema era um homem culto e sabia um pouco de tupi. Deu uma gargalhada. Quiseram saber porque e ele explicou que guaçuí, em tupi, é rio do veado ou veado grande.

Mudaram mesmo assim. Eu nunca fui a Guaçuí, mas quem foi diz que é uma cidade boa e com um povo muito legal.

BA

Três Morros – Lafaiete Coutinho

Gado Bravo – Licínio de Almeida

Mimoso do Oeste – Luís Eduardo Magalhães

Barro Preto, ou Limoeiro – Governador Lomanto Júnior

Bom Conselho – Cícero Dantas

Nova Conquista – Cândido S…

            – Lauro de Freitas

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Mouzar Benedito

Mineiro de Nova Resende, é geógrafo, jornalista e também sócio fundador da Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci).