Neonazismo vive de um culto a líderes da era hitlerista

No terceiro artigo da série, Adriana Dias desfaz mitos e afirma que as obsessões encontradas no livro mais famoso de Hitler eram antissemitas, anticomunistas, antimarxistas, racistas e nacionalistas radicalizadas

Terceiro ponto.

  1. O nazismo é de extrema direita. E ponto.

Apesar de muitas mentiras e tentativas de negacionistas, é preciso compreender que o neonazismo, movimento de extrema direita, vive de um culto a líderes da era hitlerista. Também saúda muitos escritos da época e toda uma conjuntura cultural do final do século XIX e do início do século XX. Um dos livros mais citados pelos neonazistas, sem dúvida, é Mein Kampf. Nele se misturam memórias e obsessões políticas. Em português foi traduzido como Minha luta. Essas obsessões são múltiplas e extremistas: antissemitas, anticomunistas, antimarxistas, racistas e nacionalistas radicalizadas.

O construto do líder nazista é um composto que fundiu panfletos da época, memórias do autor (muitas organizadas e sistematizadas para legitimar as ideias políticas que desejava balizar, conforme atestam grandes historiadores, como Fest e Kershaw), e um caldo ideológico, profundamente marcado por definir posições para o que seria “o germanismo”, “o povo alemão”, de um lado, e o “judeu” do outro. Nessas concepções, a ideologia hitlerista formatou o que deveria ser a grande Alemanha: um Estado militarizado, que serviria apenas ao povo alemão.

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Em seu testamento político, escrito em 1945, bem perto de sua morte, ele manteve a posição, afirmando que “cristãos, comunistas, humanitários”, se colocam ao lado dos judeus, seguindo seus passos, perseguindo “a quimera de uma fórmula de alcance universal”, o que para ele não era desejável. Seu objetivo, ao contrário, sempre foi, através do partido nacional-socialista, a “humanidade alemã”, apenas a busca da felicidade pelo “homem alemão”. Para o ditador, havia a “humanidade alemã” e essa era maior que todas as outras humanidades. Para convencer e enganar os trabalhadores alemães, colocou o “socialista” no nome, lembrando-os que protegeria apenas os trabalhadores “alemães” na Alemanha, e não os trabalhadores da Alemanha. Raça vinha, radicalmente, antes de qualquer outro fato. Isso desmonta completamente o argumento do nome, porque socialismo implica em internacionalização de políticas e o que havia no Estado nazi era o oposto disso.

Poucos que discutem o sentido do vetor ideológico de Hitler se deram ao trabalho de analisar minuciosamente seu livro mais conhecido. Quanto mais sua obra inteira. Por conta de minha pesquisa, fui obrigada a ler os textos hitleristas muitas vezes. Neles, Hitler faz certos comentários sobre a esquerda:

“Em um tempo em que os melhores elementos da nação morriam no front, os que ficaram em casa, entregues aos seus trabalhos, deviam ter livrado a nação dessa piolharia comunista”.

“Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo”.

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“Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais”.

Qualquer pessoa que investir de forma séria e honesta na leitura dos textos hitleristas perceberá o ódio de Hitler ao comunista, em especial por esta forma de pensar alojar o idealismo humanista, que concebe a humanidade como presente em todos os seres humanos.

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Obviamente, isso é de imensa dificuldade de aplicação. É fato que ditadura stalinista errou vigorosamente em manter o poder no partido, e isso custou a morte de milhares de pessoas. Mas, nenhum Estado criou, como o hitlerista, um Estado absolutamente burocratizado, com sistemas articulados, planejados e efetivados para eliminar todas as pessoas que não eram parte da humanidade concebida por ele, ou seja “a humanidade alemã”. E todos os erros do stalinismo e do comunismo do mundo não mudam o fato de que Hitler odiava a esquerda, perseguiu, prendeu e matou comunistas, centenas e centenas em campos de concentração.

Nada muda o fato de que o hitlerismo, o nazismo e neonazismo são de extrema direita. Todos têm direito à opinião. Mas direito a fatos, apenas a História tem.

Curiosidade: A primeira versão em português de Minha luta foi publicada pela Editora Globo, de Porto Alegre, em setembro de 1934. Proibido por Vargas (sim, o mesmo que deportou a comunista Olga para ser presa e assassinada pelos alemães) em 1942, a tiragem do livro foi queimada em sua totalidade por ordem do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).

Foto: Reprodução
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
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Adriana Dias

Graduada em Ciências Sociais e mestre e doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp. Coordena o Comitê “Deficiência e Acessibilidade, da Associação Brasileira de Antropologia". Também é membro da American Anthropological Association. Siga a autora no Twitter em @dias_adriana

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