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02 de dezembro de 2019, 13h33

Neste Dia Nacional do Samba vamos falar em funk. E nos meninos de Paraisópolis

Penso no quanto nós, que atuamos no campo democrático, colaboramos para a cristalização dessa imagem deturpada e preconceituosa do funk

Foto: Julinho Bittencourt

Hoje, 2 de dezembro, é Dia Nacional do Samba, mas, por várias razões, vamos conversar sobre funk. Sim, o ritmo das favelas e comunidades, sobretudo do Rio de Janeiro que, assim como o samba foi um dia, é criminalizado, perseguido e alvo de preconceitos.

Um dia, num futuro distante, as crianças e adolescentes brasileiros vão aprender na escola que a Polícia Militar invadia bailes onde jovens como eles dançavam e cultuavam o ritmo. Vão saber, por exemplo, que em uma madrugada de sábado para domingo de dezembro de 2019, a PM de São Paulo entrou na comunidade de Paraisópolis, durante um desses bailes e provocou a morte de, ao menos, dez adolescentes, além de deixar vários outros feridos.

Assim como eram as capoeiras na Bahia, as rodas de samba e choro no Rio de Janeiro, os bailes funk são hoje criminalizados. Sem mudar uma vírgula no discurso, os agentes da lei juram que nestes ambientes estão os malandros, marginais, traficantes e toda a sorte de degenerados que precisam ser combatidos.

Assim como eram nas primeiras décadas do século passado, ainda hoje são apenas garotos pobres e em sua maioria pretos que têm como única diversão disponível e acessível os bailes de suas comunidades. Ninguém duvida que drogas e criminalidades não entrem em festas como o Rock in Rio e o Lollapalooza. Mas não passa pela cabeça de ninguém que a PM entre em alguns desses eventos como fez desta vez no baile funk de Paraisópolis. Impensável.

O raciocínio canhestro e abusivo dos agentes da lei persecutório aos pobres deixo para quem é mais afeito ao assunto. Prefiro pensar no funk, assim como no samba e em todas as outras manifestações afro-americanas, trilha e cenário desse tipo de bestialidade desde que o Brasil é Brasil.

Mais do que isto, prefiro lembrar no quanto nós, que atuamos no campo democrático e tentamos pensar sobre o assunto, colaboramos para a cristalização dessa imagem deturpada e preconceituosa. Gostar e reverenciar o samba excelente e industrializado de nossos grandes compositores, é fácil.

Estou farto de publicar artigos aqui mesmo, nesta Fórum, no entanto, com comentários sobre artistas do funk, cantoras, produtores etc. e ler de volta frases do tipo: “Por que está revista perde tempo com esse lixo?”. O caro leitor, no entanto, vai se sentir vexado ao perceber o quanto este tipo de discurso é exatamente o mesmo que parte da “inteligência” fazia ao samba, assim mesmo, em alto e bom som. Quem duvidar que leia o ótimo artigo “A domesticação do Samba”, de Luiz Antônio Simas, uma das grandes autoridades brasileiras no assunto.

Contra o funk e a música eletrônica que se faz nas comunidades brasileiras hoje pesa um fato que, visto por um outro lado, é um grande mérito. Ao contrário da trajetória do samba, que foi absorvido pelas grandes indústrias do disco e empacotado para o gosto das elites, o funk sai das favelas pronto. Em uma grande maioria deles, ninguém coloca o dedo. A base, as letras, os batidões, tudo é feito pelos autores e disparado nas redes, sem nenhuma espécie de filtro.

O resultado é essa aversão ampla e absoluta que parte da elite tem com relação ao ritmo. Outra parte cada vez maior, por outro lado, se esbalda sem perder a distância. Acha divertido, mas assiste sempre na terceira pessoa, como nos mostram as novelas e programas de TV. Algo assim: “olha só que curioso e engraçado eles são”.

Posto isto, a manchete que mistura polícia e baile funk não nos surpreende mais. Uma vem sempre depois do outro como sinônimo de desordem, pornografia e criminalidade a ser combatida. Um discurso que se transforma em ação e que, muitas vezes, é endossado até mesmo por quem está do outro lado, por quem não quer mortes em favelas, espancamentos e assassinatos de jovens pobres e pretos.

Neste Dia Nacional do Samba, aproveito para me solidarizar com as famílias dos meninos mortos, que acabam de entrar para uma estatística repugnante e interminável que nos assola. E aproveito também para lembrar que meninos como eles são mortos dessa mesma maneira há séculos no Brasil.

E todos, sem exceção, sempre tiveram uma trilha sonora perseguida que, no momento seguinte em que é criticada e vilipendiada, vira alvo de lucro e sinônimo de status.

 

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