Nossas vidas importam

Leia na coluna de Adriana Dias: O que eu falo para uma mãe cujo filho pode morrer pelo descaso do governo com um grupo que ele chama de “apenas”? A mensagem do governo até agora foi capacitista e ageísta

O medo passou a fazer parte do cotidiano. Ao tentar “acalmar” os brasileiros, o desgoverno atual chama a maior crise que o mundo enfrenta desde a segunda guerra de histeria e diz que o problema do coronavírus afetará “apenas” pessoas idosas e com doenças crônicas. Leio esse “apenas” como um aviso de descarte, e toda uma população se lê descartada, mais de trinta milhões de idosos, segundo o Censo de 2010, mais de 10 milhões de pessoas com doenças raras, que podem tornar-se crônicas.

No Brasil, assim como noutros países, as Doenças Crônicas não transmissíveis são o maior o problema de saúde, responsável por 72% das mortes, com proeminência de quatro grupos de causas de morte: cardiovasculares; câncer; respiratórias crônicas; e diabetes, o que significa mais de um milhão e cem mortes por ano. O grupo dos diabéticos no Brasil comporta, sozinho, mais de seis milhões de pessoas. Mais de 23% da população brasileira têm deficiência, e numa porcentagem dela, entre 6 e 43% a depender do tipo de deficiência, renda e idade, a deficiência compromete mais a funcionalidade. 

Obviamente, uma pessoa com deficiência pode ser idosa, e diabética, portanto, os conjuntos têm espaços de intersecções, mas estamos falando de milhões e milhões de pessoas, a grande maioria de baixa renda, extremamente vulneráveis, e muitos em localidades remotas. As estimativas apontam pelo menos 40 milhões de pessoas que o governo chamou de “apenas”.

Nesse “apenas” caibo eu, que sofro de problema respiratório grave, cabe meu marido que tem leucemia crônica, e como pelo Skype tenho falado com amigos cadeirantes, que por estarem nessa condição, tem a função respiratória mais frágil e cabem também nesse “apenas”. Tenho falado com mães com medo por seus filhos, e com filhos com grande temor por seus pais, tenho falado com sobreviventes do Holocausto muito idosos, que sobreviveram a campos de concentração, mas não sobreviverão ao neonazismo do “apenas” do atual governo.

Nesse governo, vidas humanas não importam: quase todo o dinheiro que pensionistas e trabalhadores receberão é apenas seu próprio dinheiro remanejado: 13º ou FGTS, adiantados, sonhos futuros sacrificados pela epidemia. Enquanto na Europa o governo assume 70% a 80% dos salários das empresas que não fizerem demissão, o Brasil sugere a empresários reduzir horas e salários. O governo volta-se contra o seu povo, esperando sacrificá-lo no matadouro do neoliberalismo aproveitando a epidemia como arma. Nesse momento temos genocidas no poder, e estão escolhendo matar: indígenas, pobres, quilombolas, e os catalogados como “apenas”, os vulneráveis, vidas que custam ao Estado, e que esse governo neonazista resolveu eliminar.

Podemos ficar em casa, nos proteger. Mas, muitos de nós sequer tem acesso ao mínimo para tanto: para muitos, sabão, saneamento, álcool gel, são objetos de luxo. Desde o fim do bolsa família e os cortes do LOAS/BPC, muitos ficaram sem se alimentar adequadamente. E ainda chamam o aumento de um quarto de salário mínimo para meio salário mínimo para essa população extremamente vulnerável de risco tributário. Risco tributário é tirar imposto de games usados pela classe B e A, é não aumentar impostos de cigarros e bebida. É favorecer bancos e deixar “apenas”, nós os vulneráveis, para o matadouro. Canalhas. Genocidas. Neonazistas. É preciso denunciar esse governo por seus atos a Tribunais Internacionais.

Por favor, compreendam meu desespero: o que eu falo para uma mãe cujo filho pode morrer pelo descaso do governo com um grupo que ele chama de “apenas”? A mensagem do governo até agora foi capacitista e ageísta: apenas dizem a nós:  vocês são dispensáveis, vocês custam por Estado. Falam do “apenas”, como se nós não soubéssemos a quem esse “apenas” se dirige.  Todos os especialistas afirmam que o governo perdeu um empo precioso e indispensável para decretar quarentena, e tomar medidas adequadas nessa crise. Muitos acham que aqui ficará pior que a Itália, lugar onde médicos já fazem escolhas super duras, deixando muitos para morrer por falta de leitos e respiradores.

Imagina se essa decisão chegar aqui? O governo responderá: se “apenas” vocês morrerem tudo bem, o país será mais forte sem vocês, mais rico sem vocês.

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Eles parecem não aprender nunca. A epidemia mostrou ao mundo que Estado Mínimo não resolve crises como essa, e como não sabemos quando uma crise dessa pode acontecer, ESTADO MÍNIMO SIMPLESMENTE NÃO SERVE. Vejam como os Estados europeus estão salvando seus cidadãos.

Mas, por favor, falem comigo, o que diremos agora a esse governo neonazista, além de gritar bem alto: NOSSAS VIDAS IMPORTAM?

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Adriana Dias

Graduada em Ciências Sociais e mestre e doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp. Coordena o Comitê “Deficiência e Acessibilidade, da Associação Brasileira de Antropologia". Também é membro da American Anthropological Association. Siga a autora no Twitter em @dias_adriana

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