Sindicato Popular

20 de abril de 2019, 12h34

Nova cultura de trabalho é grande desafio para sindicatos

No Blog Sindicato Popular, Tadeu Porto diz que “o mundo mudou e com ele vemos surgir uma classe trabalhadora com novos anseios, angústias, desejos e objetivos. É desafio dos sindicatos saber dialogar e representar essa nova classe”

Foto: Paulo Pinto/Agência PT

Um dos grandes desafios do sindicalismo brasileiro, assim como de outras organizações sociais, é o dever de se adequar às mudanças culturais que o tempo traz consigo.

O trabalho está inserido, direta ou indiretamente, no dia a dia da vida de toda a população brasileira. Portanto, o comportamento coletivo da nossa sociedade se reflete diretamente no mundo do trabalho e vice-versa.

Podemos pensar, por exemplo, como a modernização acelerada dos meios de comunicação parece ter feito o trabalho invadir as casas. Ou como variáveis econômicas decididas por algumas dezenas de burocratas, como o cálculo inflacionário e a taxa de juros, ditam o ritmo do emprego e, consequentemente, a vida cotidiana do país.

Há ainda outras mudanças mais sutis, mas definitivamente não menos importantes, que também refletem diretamente no mundo do trabalho: o comportamento cultural.

É interessante observar, por exemplo, uma pesquisa divulgada pelo Valor acerca do desejo da juventude trabalhadora – classificada como geração Z, nascidos depois de 1994 – de ter maior flexibilidade no horário de trabalho.

Não é apenas uma vontade, mas sim a característica de trabalho que jovens de 24 anos – idade do Djonga, para termos um parâmetro – consideram como a mais importante para ter uma carreira estável no emprego.

É importante que o sindicalismo fique atento a mudanças desse tipo, pois existe todo um agrupamento de trabalhadores e trabalhadoras que deseja características de trabalho diferentes do que é de costume.

A flexibilidade da carga de trabalho, por exemplo, é oferecida (às vezes de maneira irresponsável) por aqueles que desejam que as relações de trabalho sejam guiadas por leis de empresa (CNPJ).

Obviamente, todo trabalho tem sua importância para geração de riqueza do mundo e precisa ser valorizado. Contudo, é fato que muitos empresários se aproveitam da CNPJ para fugir de encargos trabalhistas que visam proteger o trabalhador de efeitos colaterais da vida laboral (cada vez mais intensa).

Mazelas como acidentes de trabalho ou doenças ocupacionais podem inviabilizar por meses, anos ou por toda vida a capacidade de trabalho do nosso povo. Qualquer modalidade de relações de trabalho precisa levar isso em conta e proteger nossa população.

O sindicalismo parece ser forjado a entrar agora numa nova era, onde as grandes fontes pagadoras dos trabalhadores estão pulverizadas, de tal maneira que o próprio trabalhador se vê empreendedor de si mesmo. Assim, políticas de organização coletiva ficam mais dispersas e a maneira de se organizar muda de alguma forma.

Temos o desafio de entender a nova configuração social da classe trabalhadora brasileira a ponto de mudar o sindicalismo, sem prejuízo aos aprendizados históricos que tivemos com as diversas lutas que foram travadas por trabalhadores no passado.

Podemos discutir as relações de trabalho além das variáveis econômicas, por exemplo. Cláusulas nos Acordos Coletivos que proponham relações de trabalho mais favoráveis são uma alternativa nesses tempos em que os ganhos econômicos estão praticamente congelados.

O mundo mudou e com ele vemos surgir uma classe trabalhadora com novos anseios, angústias, desejos e objetivos. É desafio dos sindicatos saber dialogar e representar essa nova classe, sem muito espaço para erros, sob pena de serem substituídos por organizações oportunistas e sem compromisso com o passado de lutas ou o futuro de sonhos dos trabalhadores e trabalhadoras.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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