Numerologia Cabalística: ‘Mulher-Maravilha 1984’ e ‘2020 Nunca Mais’, por Filippo Pitanga

Os números podem predizer algo sobre nossas vidas? Por que 2020 foi um ano cabalístico? É possível analisar criticamente a estética de um ano e de quaisquer obras que falem sobre ele a partir de sua numerologia?

Com a passagem do famigerado ano de 2020 para um fio de esperança em 2021, vamos analisar de forma crítica como pode a numerologia influenciar as energias das coisas. E faremos isso a partir de dois aguardados filmes a terem sido lançados às portas da virada, os quais utilizam da estética dos respectivos anos evocados em seus próprios títulos e narrativas: “2020 Nunca Mais”, de Al Campbell e Alice Mathias na Netflix (no original “Death to 2020”), e “Mulher-Maravilha 1984”, de Patty Jenkins, nos cinemas e no streaming internacional da HBO Max.

2020 entrou para a história como um dos anos mais difíceis que a humanidade enfrentou em muito tempo. Passamos pela ameaça de uma 3ª Guerra Mundial… Tivemos algumas das piores queimadas… Enfrentamos líderes mundiais ultraconservadores e o racismo da violência policial… E impossível esquecer a terrível pandemia global. Coisas que outrora só leríamos em livros de ficção científica, como o distópico “1984”, de George Orwell, publicado em 1949, ou o futurista “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Arthur C. Clarke, lançado no mesmo ano que a adaptação cinematográfica homônima de Stanley Kubrick (e inspirado em contos anteriores do próprio Clarke, como “A Sentinela” de 1948 e “Encounter in the Dawn” de 1953).

O ano de 2020 já continha uma singularidade em sua composição numérica, com um par de 20, dois números iguais, dando uma idéia de espelhamento, de reflexões a partir do duplo… Mesmo sem o leitor precisar ser especialista no assunto, bastaria igualmente somar 2+0+2+0 que obteria o número 4. Um número divisível por 2, também formando um par de números iguais: 2+2 = 4, analogia com a necessidade que este mundo passou de cuidar de seus pares na pandemia.

Assim como, se você somar 20+20 terá 40, um número cabalístico até mesmo na Bíblia, como com a Quaresma, um período de quarenta dias subsequentes à quarta-feira de Cinzas, em que os católicos e algumas outras comunidades cristãs se dedicam à penitência em preparação para a Páscoa (a morte e ressurreição de Cristo). Além de outros casos, 40 também é o número de dias em provação que Jesus jejuou no deserto. Coincidência do número 40?

Todas estas analogias com 2020 nos vêm à mente logo quando a raça humana enfrenta um vírus que não aflige nenhuma outra espécie do planeta (pelo menos não da mesma forma), e que forçou todo mundo a ficar ‘quarentenado’. Entende-se ‘Quarentena’ como um isolamento por período variável e proporcional ao da incubação da doença, e cujo nome vem dos 40 dias que os tripulantes de embarcações eram obrigados a esperar para o desembarque na época da Peste Negra na Europa do século XIV.

Porém, da mesma forma que estes parágrafos tentam dar algum sentido em palavras para os absurdos inexplicáveis testemunhados recentemente, um filme aproveitou o mote irresistível de tentar transformar as famosas retrospectivas do fim de ano em uma possível catarse curativa. Charlie Brooker e sua colaboradora Annabel Jones, nomes por trás da famosa série britânica de distopia moderna “Black Mirror”, escreveram o argumento original e o roteiro (com outras 18 pessoas creditadas) para o longa-metragem “2020 Nunca Mais”.

Numa paródia documental, com fatos reais narrados por personagens fictícias, reuniu-se um grande elenco como divertidos comentadores do apocalipse, dentre eles Samuel L. Jackson, Hugh Grant, Lisa Kudrow, Leslie Jones, Tracey Ullman, Laurence Fishburne (narrador do filme) e muito mais. Este subgênero denominado ‘mockumentary’, junção das palavras em inglês ‘mock’ (escárnio, falsidade) e ‘documentary’, seria a ferramenta escolhida como tentativa de resposta em forma de filme para catalisar o indizível.

Isto porque a internet já vinha chamando de “Black Mirror” os acontecimentos estapafúrdios da realidade atual… E os responsáveis por esta que se tornou uma das séries mais famosas da Netflix não queriam deixar de aproveitar o efeito ‘branding’ de suas narrativas distópicas como uma marca para o ano de 2020. De fato, até tinha tudo para dar certo, mesmo sabendo de antemão que as piadas ácidas talvez não chegassem durante a melhor fase para ser tão bem digeridas, ainda mais por um público severamente convalescente das perdas enfrentadas. Sabemos que o humor britânico geralmente é especialista em tocar nas feridas… Mas teria a hemorragia estancada o suficiente pra todos rirmos de nossas cicatrizes?

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Não que deixe de haver personagens a trabalhar bem a ironia, dando um ar de sobriedade que torna o texto até mais potente, sem precisar ridicularizar as palavras enunciadas. Dentre estes, podemos citar o jornalista interpretado por Samuel L. Jackson, que não tenta ser outra pessoa senão Samuel L. Jackson, mas lendo o texto do ponto de vista de um jornalista. Apenas ele poderia fazer uma crítica à branquitude do #OscarSoWhite da forma contundente que faz, pois ecoa a sua própria carreira no extracampo que dá força ao texto (vide a famosa cena de 2019 quando ele entrega a estatueta dourada de melhor roteiro para um emocionado Spike Lee com sua obra-prima “Infiltrado na Klan”). Ou seja, ponto positivo mais para o casting do que necessariamente para os roteiristas.

No mesmo tom, temos a excelente Leslie Jones (de Saturday Night Live e “Caça-Fantasmas” de 2016), como uma terapeuta comportamental e autora de vários livros fictícios, para falar sobre o tamanho da estupidez humana que contribuiu em muito para as fake news e extremismos de 2020… É ela quem dá sentido à sutil homenagem ao movimento #BlackLivesMatter, mesmo usando de humor sem ser desrespeitosa. E, por último, mas não menos importante, Lisa Kudrow, a eterna ‘Phoebe’ da série “Friends”, cujo maneirismo abobalhado de humor caiu como uma luva na representação de uma assessora de comunicação do governo Trump, sempre voltando atrás nas declarações de seu chefe. Essas seriam as partes boas do filme, que não duram muito.

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O que acaba sendo o tiro no pé desta empreitada é sua própria Babel de linguagens, ao se contradizer na oposição de estilos. E não é o tipo de miscelânea operística britânica à la Monty Phyton, que consegue unir a troça à estética com um crescendo de picardias. Já “2020 Nunca Mais” se perde na montagem entre imagens de arquivo, muito mais complexas e pesadas do que eles poderiam desdobrar em pouco mais de 1 hora, cuja bagagem é indissociável e heterogênea, em meio a interpretações dicotômicas de seu elenco ficcional.

Em tão pouco tempo de projeção, com mais três quartos do enorme elenco sobrando, cada bloco começa a diluir um ao outro, encarnando chaves completamente opostas de performance, como a caricatura, o minimalismo e o nonsense. A comediante Tracey Ullman, geralmente ótima, e o canastrão Hugh Grant, ambos cheios de maquiagem, dão vida à Rainha Elizabeth II e a um historiador idoso que tenta ocultar seu próprio racismo estrutural, respectivamente… E, mesmo que os depoimentos não se misturem, num estilo de entrevista individual, a maior prova da descartabilidade dessa digressão é propor que o espectador imagine qualquer um dos dois em alguma cena cara a cara com as personagens mordazes de Leslie Jones e Samuel L. Jackson, e comprovará, portanto, que parecem estar em filmes radicalmente diferentes.

A projeção já continha personagens bastante caricaturais por si só, como Donald Trump e Boris Johnson (que ainda ganha uma cena desnecessária utilizando erroneamente a referência do filme “Corra”, de forma que não daria nenhum orgulho a Jordan Peele)… Ou mesmo o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, cujas reportagens verídicas já tiram troça do seu absurdo pessoal. Até mesmo a Rainha, em seu primeiro discurso para o YouTube, já seria sua própria paródia, sem precisar de uma caricatura para tanto…

Além disso, de todas as personagens do mundo que eles poderiam criar representações únicas, decidem selecionar as categorias passageiras da vez, como influencers digitais, youtubers e até donas de casa que passam por boas mães da escola, quando na verdade estão alimentando redes de ódio através de grupos de supremacistas brancos… E o que poderia ser uma forte crítica cai num tom farsesco e estereotipado de hipérbole, retirando a possibilidade de gerar uma verdadeira catarse.

Junto com esta parte equivocada do elenco ainda começam as inserções de montagens superficiais: tanto na imagem, com memes e piadinhas naïf e sem graça, quanto no texto, como a fala do historiador (Hugh Grant) quando atesta que o mundo já foi assolado na vida real por White Walkers em Westeros (referência à série “Game of Thrones”). Isto só reduz os absurdos violentos de 2020, que já começam a transbordar em 2021, a apenas uma metáfora do ridículo… E quase 2 milhões de perdas em vidas humanas até agora jamais poderia ser algo relativizado desta forma.

Pois isto não é puritanismo, e sim, a partir da visão de uma crítica de cinema, é desrespeitar o potencial dramatúrgico com que a arte de fato poderia fazer um tributo pertinente, mesmo que o fosse com humor, remédio tão necessário e aqui desperdiçado na estética de 2020.

Mulher-Maravilha 1984

Em outro aspecto da numerologia proposta por esse texto, talvez o último grande lançamento mais aguardado nos poucos cinemas abertos em 2020 tenha sido “Mulher-Maravilha 1984”, um aparente paradoxo numérico. Isto porque ao trazer para si o subtítulo de 1984, ainda mais aportando em 2020, o novo filme da mais famosa heroína amazona, Diana Prince (Gal Gadot), pareceu querer dar um passo maior que suas pernas, através de duas coisas que se comunicam muito com o que já foi colocado anteriormente nesse texto.

Por um lado, podemos começar pelo conteúdo literário do respectivo ano, pois “1984” alude ao livro homônimo de George Orwell, que retratava uma sociedade sob vigilância governamental onipresente, e comandada por uma autoridade totalitarista denominada de ‘Big Brother’. Sim, para aqueles que não conheciam ainda a origem do nome da franquia de reality show da Endemol mais rentável de todas, até o nosso “Big Brother Brasil” ganhou este nome, derivado do original, por confinar pessoas que são vigiadas 24 horas por câmeras, além de terem suas vidas comandadas e decididas por outrem…    

E o atual filme com esta alcunha traz reflexões sobre estas câmeras que tudo vêem, como se a década de 80 já pudesse ser o agora, numa analogia crítica acertada. Situado na época demarcada ainda pela Guerra Fria, e pela corrida de exploração espacial, o roteiro coloca nos satélites a crônica deste olho que tudo poderia alcançar e controlar, como se a própria tecnologia pudesse ser um vírus se alastrando (algo que cresce metaforicamente com o presente).

Além disso, essa tecnologia vai testar o ser humano, cuja tentação é colocada à prova numa das maiores máximas da personagem: a verdade! Numa era de fake news, o laço da verdade da Mulher-Maravilha foi muito bem escolhido como o instrumento a ser realçado nesta seqüência. Lembrando que, no exemplar anterior, foram os braceletes que ganharam destaque, pois era homenagem do criador da heroína, William Moulton Marston, às sufragistas. Num símbolo de emancipação, as sufragistas acorrentavam a si próprias em protestos no início do século 20, mas sempre detinham a chave para se libertar. Por isso, quando Diana cruza seus braceletes, ela demonstra poderes inimagináveis.

A segunda faceta pela escolha dos anos 80 para o filme, para além do conteúdo, é a estética, não se restringindo a penteados e figurinos típicos, filiando-se também a uma tendência de resgate das marcas registradas do período em produções contemporâneas como “Stranger Things” e na própria “Black Mirror” (no seu episódio mais famoso, “San Junipero”). Estas assinaturas oitentistas vão da trilha sonora com bandas da época (até pouco utilizadas em “Mulher-Maravilha 1984”), além de muito sintetizador (quase esquecido aqui perante a trilha clássica pouco inspirada do mestre Hans Zimmer). Além de uma palheta cromática de neon à la “Blade Runner”, somados a um ritmo mais de matinê, advindo de “Os Aventureiros do Bairro Proibido”, “Os Goonies”, “Indiana Jones” e etc…

Esse colorido retrô pode parecer contraditório à cinzenta seriedade distópica de George Orwell, mas o cinema não é estranho a trabalhar com opostos. Infelizmente, o mal de que padece esta produção acaba sendo muito similar (não por coincidência) ao de “2020 Nunca Mais”, dando mais uma razão a estarem emparelhados nesse texto para além da numerologia. “Mulher-Maravilha 1984” incorre numa confusão lingüística muito similar ao já exposto acima. Sendo que, aqui, o desequilíbrio surge em tentar conciliar um excesso de referências.

Pra começar, possui a nobre intenção de aproximar o filme ao saudosismo do seriado da “Mulher-Maravilha” com Lynda Carter (que faz aparição especial, não percam nos créditos finais), contendo inúmeras cenas decupadas do querido programa da TV, inclusive nos efeitos especiais práticos. Isso dá um ar de ingenuidade no primeiro arco que parece que se extinguiria ali, para dar espaço de maturação à trama, só que continua acompanhando a projeção, com um look que pode ser confundido por desleixo pela alta exigência dos blockbusters de hoje em dia.

Noutro pecado, justamente diante da tentativa de alfinetar a geopolítica capitalista, o vilão escolhido é um antigo bufão magnata dos quadrinhos, Maxwell Lord (Pedro Pascal, de “O Mandaloriano”), o qual já foi dono da Liga da Justiça e até tentou lutar pelo bem (apesar de acreditar apenas no dinheiro) – imortalizado na fase clássica e bem-humorada que parodiava a Liga no riscado e traços de Keith Giffen e J.M. DeMatteis. Não podemos deixar de citar que ao longo dos anos Lord realmente foi assumindo sua faceta vilanesca, e acabou cruzando destinos com a Mulher-Maravilha mais de uma vez (pois ele não era seu rival de princípio).

Mas o tempo depurado pra desenvolver esta linha narrativa, de bufão à antagonista, mesmo bem defendido pelo ator Pedro Pascal, acaba ocasionando o maior desperdício na trama e roubando o potencial da personagem de Barbara Minerva, ou Mulher-Leopardo. Esta sim seria crucial pra mitologia canônica da heroína, como os dois lados da mesma moeda, Diana e Minerva, duas deusas gregas interligadas, Ártemis e Atenas. Algo que poderíamos citar como raro equivalente nas revistas em quadrinhos com a dupla Xavier e Magneto dos “X-Men”, e que deveria ser incorporada a todos os filmes como um Ás na Manga que ficaria cambiando de lado, sendo a Mulher-Leopardo uma espécie de Magneto para a Mulher-Maravilha. Ainda mais com uma intérprete do naipe de Kristen Wiig.

Num filme dirigido por Patty Jenkins, que vem defendendo a representatividade nas produções Hollywoodianas, gera certo incômodo (não o do tipo positivo) ver Kristen ser tão minada no seu arco evolutivo. Isso relativiza até as duras críticas bastante necessárias que haveria a relacionamentos abusivos no filme – vide a cena em que por pouco ela não mata seu assediador, sob uma trilha sonora de irmã gêmea do mal de novela mexicana, quase como se equiparassem de maneira bastante equivocada a legítima defesa da mulher ao ato do opressor…

Ainda mais porque a Mulher-Leopardo acaba se tornando mera guarda-costas de alguém que jamais foi arquiinimigo de Diana, nem nas HQs. Então, por que começar agora? Compreende-se, sim, que os roteiristas desejavam compensar a falta de desenvolvimento do vilão oculto no filme anterior (o Deus da Guerra Ares, por Danny Huston, que só dá as caras no finalzinho), mas dividir o antagonismo entre duas personagens tampouco deu certo. Uma péssima mania de continuações dos filmes de super-heróis, como se apenas um nunca fosse o suficiente.

E mais do que isso, como o filme oculta ao máximo possível a identidade divina ou mística que irá desequilibrar a balança de forças, já que tanto Barbara quanto Lord são humanos, o filme demora mais de 1 hora pra apresentar qual seria sua trama verdadeira. E distancia o mesmo da mitologia grega que tanto deu certo nos quadrinhos das fases dos Novos 52 e Renascimento, bem como no primeiro filme. A narrativa acaba por enrolar com subtramas desnecessárias, preenchendo os espaços vazios com conflitos físicos pouco inspirados e mal coreografados (reiterando que não deixam de ser louváveis as homenagens ao seriado original).

Algumas cenas chegam a ser risíveis, seja em (d)efeitos especiais ou pura falta de mise-en-scène, como a perseguição de caminhões, que leva a cortes paupérrimos com péssimo continuísmo e equalização tampouco eficiente na finalização. A diferença de cores, renderização, computação e até dublês chega a ser equivalente a de filmes trash (vide o boneco das crianças ao final da seqüência referida). Com o demérito de aqui não parecer intencional. E a ótima cena da Casa Branca, na segunda metade da trama, já foi vista de modo muito superior na abertura de “X-men 2”.

Sem falar que mesmo atingindo naturalidade total como Diana, Gadot volta a não ter a cena toda para si, atuando ainda ao lado de seu par romântico interpretado por Chris Pine, cuja persona de Steve Trevor havia morrido numa das melhores cenas do filme anterior e é trazido de volta num truque bastante dispensável. É inegável que eles possuem carisma juntos, e Pine sabe tirar o melhor da situação. Todavia, ele termina por ficar deslocado e forçadamente encaixado nas cenas de ação da maior deusa do Olimpo, que prescindiria de qualquer auxílio – mesmo com a boa moral da história que vem junto disso (de que ela estaria perdendo os poderes por mentir pra si mesma). As cenas de amor, extremamente piegas, não acrescentam ao que já havia sido alcançado antes, com única exceção de um esperto uso do avião invisível da Mulher-Maravilha (eternizado pelos desenhos animados).

No entanto, por inúmeras razões adversas, polêmicas externas ao filme quase encobririam uma análise objetiva da obra… Como o fato, por exemplo, de as salas do circuito comercial terem ficado fechadas por quase o ano inteiro, retendo o lançamento de inúmeros blockbusters que costumam assegurar o rendimento anual de toda a indústria audiovisual. Isto gerou uma fome sem precedentes de pura nostalgia escapista quando as pessoas tanto precisavam, e o filme da super-heroína mais famosa da editora DC seria talvez a única válvula de escape restante. Não que os streamings tenham deixado de prover diversas produções neste meio tempo, mas nada se compara ao poder de atração transmídia da reação em cadeia das salas de cinema.

Enfim, como tudo pode sempre piorar, ainda havia um escândalo maior por vir: devido à crise financeira com a retenção das produções de maior orçamento, e, portanto, de maior expectativa de bilheteria, os estúdios começaram a tentar escoá-las nos streamings. Foi aí que a grande Warner Bros fez um acordo sem precedentes e que poderia mudar o mercado para sempre. Numa controversa declaração de final de ano, eles anunciaram que seus futuros longas-metragens seriam lançados simultaneamente no circuito e no streaming do canal HBO Max (que vem tentando rivalizar com os investimentos da Netflix e da Disney Plus para dominar o setor). Isto esvaziaria as salas de cinema e poderia correr o risco de fechá-las para sempre, caso as pessoas tenham a alternativa de ver as mesmas obras no conforto de suas casas.

E o primeiro filme deste famigerado acordo foi justamente “Mulher-Maravilha 1984” de Patty Jenkins. Agora, além de a produção servir de bode expiatório para uma manobra devidamente criticada, ainda por cima foi liberada num período de plena segunda onda de contaminação por covid-19. Todos estes sintomas bastante pesados perante a leveza estética e até cômica que o filme desejava oferecer, mesmo em meio às grandes cenas de ação típicas deste porte, também pode ter prejudicado a absorção da obra como apenas mais um entretenimento escapista. No mesmo nível de tantos outros antes deste.

Contudo, vale dizer que a carreira online de um filme fraco como este já quebrou todos os recordes em plataformas digitais, até o de “Hamilton” e “Soul”, podendo representar um triste réquiem para o circuito de salas de cinema. Parafraseando “2020 Nunca Mais”, podemos estar diante de uma sina como a de ‘Cinema Nunca Mais’. E o que resultará disso é algo estranho ainda a ser compreendido.

Talvez justamente esta seja a sina da junção de 2020 com 1984, cuja soma numérica também dá o mesmo resultado (1+9+8+4=22; 2+2=4), e estejamos todos atônitos diante das transformações do mundo, somente procurando tabulas referenciais já conhecidas para emparelhar explicações… quando muitas vezes o desconhecido por desbravar não é par, é ímpar. Que venha 2021 (2+0+2+1=5).

PS: Agradecimentos na pesquisa à Jane Pitanga pelo conhecimento em numerologia compartilhado com a coluna.

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Filippo Pitanga

Jornalista e advogado, crítico, curador e professor de cinema

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