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06 de março de 2018, 21h21

O ataque ao conhecimento em tempos de achismo midiático

Em sua coluna na Fórum, Andrea Caldas destrincha de que maneira se encampa o ataque midiático contra as disciplinas universitárias que abordarão o golpe no Brasil

O incandescente combate de setores conservadores às universidades públicas ganhou mais um capítulo, a pretexto da disciplina sobre o Golpe de 2016, ofertada pelo Instituto de Ciência Política da Unb.

O curso, coordenado pelo professor Luis Felipe Miguel – pesquisador e autor de diversas publicações nacionais e internacionais – despertou o interesse de vários órgãos da imprensa, muito provavelmente por fazer constar no título uma das palavrinhas proibidas no index/manuais de redação dos jornalões, nos tempos atuais.

Em tempos pretéritos, outras palavras já constaram desta lista proibida, sempre renovada e atualizada.

No período da ditadura civil militar era proibido falar em ditadura; o termo oficial adotado era “revolução”. Tortura e morte, nem sinônimos possuíam nas notícias, já que eram fatos sumariamente ignorados.

Nos anos 90, em fase de acentuado desemprego e recessão, os vocábulos preferidos foram desaceleração, aumento da informalidade ou empreendedorismo (!) e por aí adiante. O transformismo discursivo era tanto que José Simão chegou a cunhar o neologismo “tucanar” para estas substituições supostamente semânticas.

Nos dias que correm, para os altivos editores da opinião publicada, o uso de determinado conceito parece definir, de per se, a inclinação ideológica de seu emissor. No caso em questão, a utilização da palavra golpe seria uma espécie de sinal de Caim, ou estigma de nascença que permitiria identificar os doutrinadores ocultos nas nossas universidades e escolas. E claro, nesta acepção, os doutrinadores são sempre de esquerda.

Para combater a perigosa “manipulação ideológica”, os franco-atiradores brandem a flâmula da defesa da ciência, num perigoso artifício sofista, uma vez que, propositalmente, confundem parâmetros epistemológicos com disputa de concepções.

Ao afirmar que a disciplina é um panfleto militante, o fazem sem citar qualquer definição de conhecimento científico -cujo complexo debate data dos tempos imemoriais.

Aliás, se tivessem dado mais atenção à ementa e ao programa saberiam que boa parte dos textos versa sobre a discussão do próprio conceito de golpe e suas acepções.

Conceito este que – como todos, no meio acadêmico – é objeto de aprofundamentos teóricos e disputas. E não estamos falando só das ciências humanas, visto que, mesmo nas áreas duras, definições e fórmulas são permanentemente revistas e atualizadas.

O crivo de cientificidade se dá por critérios definidos pelos métodos de elaboração de conhecimento e pela validação da comunidade científica.

Tais definições podem ser alteradas em face de novas descobertas ou de novos consensos. E aqui cabe sempre o debate, e não a negação.

Contudo, os supostos arautos da liberdade, entrincheirados nas redações da grande mídia, parecem querer defender que qualquer pessoa possa ser ser alçada à condição de validador do rigor científico, em mero exercício de diletantismo.

Nesta senda, o editorial do jornal paranaense Gazeta do Povo (04/03) sugere que indivíduos e comunidades se mobilizem para denunciar e repelir disciplinas que, supostamente, possuam conteúdo político-partidário.

Não esclarecem, todavia, como isto será feito e em que condições.

Tal elipse se reveste da maior gravidade.

Se, recentemente, o mesmo jornal criou uma plataforma de denúncias de professores “ideologizadores”, hoje, insinua o desejo de um Index acadêmico, definido por quem quiser e atuando onde desejar.

É a celebração do achismo como método e do salve-se-quem-puder como resultado.


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