Raimundo Bonfim

15 de maio de 2019, 06h09

O Brasil precisa enfrentar seu “Bicho de 7 Cabeças”

Raimundo Bonfim: “Nossa estratégia deve ser a unidade ampla em torno de bandeiras amplas. A aposentadoria e a educação são pautas de toda a sociedade e, portanto, todos devem participar”

Foto: Isac Nóbrega/PR

Quem conhece alguma versão da história de Hércules e seus 12 trabalhos, sabe que um dos seus principais desafios foi enfrentar a Hidra de Lerna, um ser mitológico que tinha corpo de dragão e sete cabeças de serpente e era tão venenosa, que podia matar homens com seu próprio hálito.

Ao tentar decapitar as cabeças da Hidra com uma foice, duas novas cabeças nasciam no lugar de uma. Para matá-la, ele teve que atear fogo (cauterizar) onde nasceriam novas cabeças, e a última cabeça – considerada imortal – foi esmagada por uma pedra.

Vejo que uma das principais tarefas do povo brasileiro hoje é justamente derrotar politicamente o governo Bolsonaro, que escolhe como alvo os mais pobres.

É um governo que possui várias faces – neopentecostal, militar, Chicago Boys, Olavete – mas que, no fundo, todas as cabeças são geradas do mesmo corpo, que deseja destruir o Estado brasileiro e qualquer capacidade de nosso povo reagir de forma soberana à aplicação de uma economia ultraliberal, que pretende privatizar tudo o que puder, inclusive nossos recursos naturais, e realinhar nossa política externa aos interesses dos Estados Unidos da América.

Por isso mesmo cada cabeça pensa de forma diferente e há divergências entre cada núcleo do governo, mas eles seguem unificados contra os trabalhadores.

É importante percebermos isso, pois acredito que a reforma da Previdência, que promete destruir nosso direito à aposentadoria, e o contingenciamento de 30% das verbas das instituições de ensino federais são duas faces dessa mesma moeda.

Não à toa, a Greve Geral da Educação contra a reforma da Previdência, convocada para esta quarta-feira (15), se potencializa com a participação de estudantes que estão indignados com a possibilidade de suas universidades não conseguirem se manter sequer até o final de 2019.

Se os opostos se atraem, é perceptível que o governo Bolsonaro elegeu a educação como sua principal inimiga, pois sabe que quem pensa de forma crítica percebe que o principal problema do Brasil é a desigualdade social. Sabemos que o fascismo se alimenta da ignorância. Por isso, a universidade é fundamental para os países que possuem a intenção de ser uma nação, porque o conhecimento emancipa.

Há anos nosso povo luta para participar das tomadas de decisão e rumos do nosso país, para que possamos conquistar nossa liberdade de fato. Tivemos muitos avanços frutos dessa luta, que estão sendo desmontados com esse governo.

Hércules é um exemplo para nós, de que devemos enfrentar esse desafio da forma mais correta. Se tentarmos derrotar o governo através de cada pauta que ele insere, de forma fragmentada e dispersa, cada vez que cortarmos uma cabeça, outras duas novas vão aparecer.

Por isso, nossa estratégia deve ser a unidade ampla em torno de bandeiras amplas. A aposentadoria e a educação são pautas de toda a sociedade e, portanto, todos devem participar.

Hércules derrotou a Hidra ateando fogo em seu corpo. Nossa chama é a esperança que reside em cada um de nós de que iremos construir um Brasil dos nossos sonhos, pois pode parecer um “bicho de 7 cabeças” enfrentar esses retrocessos, mas nossa tocha é a luta cotidiana, nas ruas, pois somente unidos poderemos transformar essa realidade.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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