Raphael Silva Fagundes

06 de abril de 2020, 22h47

O coronavírus e o projeto de Bolsonaro para aniquilar os aposentados

Raphael Fagundes: "O plano do governo era gerar empregos informais. Era aumentar o extermínio de policiais e milicianos sobre a população pobre, dando a classe média a ilusão de segurança"

Paulo Guedes e Jair Bolsonaro (foto: Xinhua)

O eleitor que ainda está fiel a Bolsonaro deve estar vivendo uma grande frustração pelo fato de diversos acontecimentos catastróficos estarem prejudicando o governo do seu querido “mito”. Existe até mesmo aquele que acredita que a esquerda está torcendo para que tudo dê errado. Mas para o governo as coisas estão acontecendo justamente como o planejado.

O trabalhador iludido com as promessas de Bolsonaro acreditou que a economia iria se recompor, que bons empregos seriam gerados, que a violência iria diminuir, de modo que a consequência do projeto de poder do presidente e sua corja seria uma vida melhor.

Mas o plano do governo era gerar empregos informais. Era aumentar o extermínio de policiais e milicianos sobre a população pobre, dando a classe média a ilusão de segurança. Era diminuir os investimentos em hospitais, escolas e políticas públicas. Ou seja, está tudo dando certo.

Só que o “certo” é uma questão de perspectiva. O projeto neoliberal defendido por Bolsonaro é similar ao de Trump, mas com um agravante: estamos em um país submetido aos interesses externos. As queimadas é parte do plano. O rompimento de barragens, a água infectada, enchentes e epidemias são consequências da exploração capitalista defendida pelo governo atual.  A uberização da mão de obra, que isenta o empregador de responsabilidade para com o empregado, assomado à precarização do Estado por meio da intensificação do corte dos gastos públicos, é parte do projeto político do governo Bolsonaro.

O governo não está dando certo porque a Globo não deixa Bolsonaro trabalhar, ou porque a esquerda “torce contra”, ou por causa do Congresso ou do STF que prejudicam os seus planos. Muito pelo contrário. O governo está trabalhando muito, a todo vapor. Da perspectiva dos pobres e da classe média baixa, está dando tudo errado, mas não está. Ou melhor, é pra dar errado mesmo. Contudo, o que é errado para nós é certo para eles, principalmente em termos econômicos. O rico só se sente realmente rico quando vê pobres ao seu redor.

O Estado não é uma entidade neutra garantidora da liberdade em nome da meritocracia, mas uma cúpula da classe dominante que orquestra os seus interesses. Hoje a classe dominante que controla o Estado aplaude o projeto econômico do governo, pois é perfeito para ampliar os seus lucros. Não é a toa que vemos os empresários entoando a frase “o Brasil não pode parar”, que o presidente ecoa parecendo ser de interesse de todos, quando na verdade é bom apenas para a classe dominante. 

O que é “certo” para uns é “errado para outros”. Enquanto alguns acreditam que o projeto de Bolsonaro não está dando certo por causa das crises mundiais, da imprensa e da esquerda, na verdade, o governo está indo de vento em popa, obrigado por se importar!

O Projeto Gemini de Bolsonaro

Ao dizer que o coronavírus ataca somente os idosos e que, por conta disto, o país deveria voltar à normalidade, o presidente deixa claro o seu projeto em relação à aposentadoria. Os idosos são um estorvo econômico, um rombo para o orçamento público. Nesta lógica, a morte dos aposentados seria gratificante para o governo, pois economizaria muito dinheiro, um recurso que poderia ser reinvestido em isenções de impostos para as grandes fortunas, pagamento de políticos para o apoio de medidas que prejudicam os trabalhadores, etc.. O Covid-19 foi um presente da natureza para Jair Bolsonaro. Caiu dos céus. 

O filme “Projeto Gemini” lembra o projeto genocida de Bolsonaro que negligencia as medidas contra o Covid-19. Como dizia Gregor Strasse, chefe da Organização do partido nazista, “Abram caminho, velhos” e “Caiam fora, velhos”. De acordo com o pensamento hitlerista, somente os jovens poderiam ser de fato nazistas, pois representavam o novo, livres das velhas ideias que contaminaram o Ocidente. Os jovens eram úteis, manipuláveis. Cada sistema inutiliza os velhos de uma forma: o nazismo de Hitler de outrora, o ultraliberalismo de Bolsonaro da atualidade…

Simone Beauvoir acreditava que a velhice tem dois sentidos diferentes: uma categoria social “mais ou menos valorizada segundo as circunstâncias. E para cada indivíduo, um destino singular”. O personagem protagonizado por Will Smith, Henry Brogan, decide se aposentar por ter mirado a cabeça e acertado o pescoço de seu alvo que repousava languidamente em um trem em alta velocidade. Acredita, então, estar saturado de tal vida. Velho demais para continuar. A agência militar para a qual trabalha, o considera, portanto, inútil, e cria uma versão mais jovem de Brogan com a missão de eliminá-lo. 

Mas ao longo do filme, a fórmula hollywoodiana de uma velhice ativa se constrói de maneira que o “cinquentão” (um tanto jovem para os padrões atuais de velhice) encara seu clone de 23 anos quase que mano a mano. Hollywood dificilmente retrata a decadência em termos etários. A decrepitude não é muito comercial. Assim, vemos Jack Nicholson e Diane Keaton redescobrindo o sexo na terceira idade em “Alguém tem que ceder”, Clint Eastwood e Meryl Streep vivendo uma aventura sentimental em “As pontes de Madison” e tantos outros exemplos. Como explicam Gilles Lipovetsky e Jean Serroy sobre o hipercinema: “Nas sociedades antigas, o ideal associado a esse momento da vida era a preparação para a morte. Não é mais assim. Agora o ‘velho’ é um indivíduo que se recusa a suportar passivamente o peso da idade”. Os velhos não são, deste modo, um incômodo para a indústria cultural. São consumidores em potencial.

Nestas circunstâncias sociais, os velhos são mais ou menos valorizados. Mas em um projeto de poder (como o encabeçado por Bolsonaro) que quer explorar a mão de obra ao máximo para alimentar o consumo em outras partes do mundo, a velhice torna-se inapropriada. Portanto, as visões do nosso presidente e do vilão do filme, Clay Varris, dono da agência militar dedicada a criação de jovens “soldados aumentados”, assemelham-se. Bolsonaro quer eliminar os idosos por serem inúteis para o trabalho, Varris porque são inúteis para o campo de batalha. O coronavírus é para Bolsonaro o que o clone mais jovem de Brogan é para Varris. Somente a união entre trabalhadores e soldados pode mudar essa lógica macabra!


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