O dia em que os Beatles se negaram a tocar para uma plateia segregada nos EUA

Os Beatles, assim como os Rolling Stones, sabiam muito bem de onde tinha a vindo a música que faziam

Muito já foi dito e escrito sobre os Beatles, a ponto de se tornar um tanto quanto chato e complicado encontrar algo novo sobre a banda. Há uma história, no entanto, pouco explorada e que talvez seja uma das melhores envolvendo o quarteto.

O caso aconteceu ainda no tempo da Beatlemania, durante a primeira excursão do grupo pelos EUA. No dia 11 de setembro de 1964, o grupo faria um show em Jacksonville, a cidade mais populosa do estado da Flórida.

Ao descobrir que a plateia do espetáculo seria segregada, ou seja, os negros teriam que ficar separados dos brancos, os Beatles não titubearam. Cinco dias antes da apresentação, a banda publicou uma nota oficial que dizia: “não vamos tocar, a menos que os negros possam ficar em qualquer lugar”.

John Lennon disparou: “Nós nunca tocamos para públicos segregados e não vai ser agora que iremos começar”. Após a reação da banda, a apresentação ocorreu sem a malfadada segregação.

O caso tocou os Beatles de tal maneira que, a partir de então, na turnê seguinte para os EUA, foi incluída uma cláusula nos contratos especificando que eles não tocariam para públicos segregados. Paul MacCartney declarou em 1966: “Nós sempre fomos contra o preconceito. Sempre gostamos de plateias integradas. Essa é a nossa atitude, compartilhada por todo o grupo, por isso nunca quisemos tocar na África do Sul ou em lugares onde os negros seriam segregados. Não é porque somos bonzinhos. Nós apenas pensamos: ‘Por que você deveria separar os negros dos brancos? Isso é algo estúpido, não é?’”.

Os Beatles, assim como os Rolling Stones e várias outras bandas inglesas e também muito artistas brancos de todas as partes do mundo, sabiam muito bem de onde tinha a vindo a música que faziam. Eram fãs incondicionais de artistas negros como Chuck Berry, Little Richards, Fats Domino, isso sem contar os músicos de blues, que reinventaram a canção americana, fonte onde todos os roqueiros beberam.

Em outro episódio raro, onde os Beatles se arvoraram a enfrentar poderosos locais, o final não foi assim tão auspicioso assim. Em 1966, ao se negarem a atender o convite de Imelda Marcos, esposa do então ditador filipino Ferdinand Marcos, para conhece-la no Palácio de Malacañang, a banda teve que sair fugida do país, entre insultos.

Na ocasião, Ringo chegou a levar um soco e ser pisoteado no caminho até o aeroporto. O avião decolou após cerca de 40 minutos de confusão. Antes disso, no entanto, “Bong Bong”, único filho homem da família Marcos, declarou, em tom de vingança: “Eu gosto mais dos Rolling Stones”.

Anos mais tarde, em 1969, o primeiro músico a ter seu nome creditado nas capas de álbuns dos Beatles foi o negro americano Billy Preston.

Dos quatro, o único que teve um longo e intenso ativismo político após a dissolução do grupo foi John Lennon. Ao longo da década de 70, ele se envolveu em manifestações contra a guerra do Vietnã e também pela libertação de Angela Davis e John Sinclair.

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Julinho Bittencourt

Jornalista, editor de Cultura da Fórum, cantor, compositor e violeiro com vários discos gravados, torcedor do Peixe, autor de peças e trilhas de teatro, ateu e devoto de São Gonçalo - o santo violeiro.

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