O fascínio da rebeldia bolsonarista, por Rodrigo Perez

A semântica revolucionária que fundou a modernidade foi sequestrada pela extrema direita

Por Rodrigo Perez *

A pandemia da Covid-19 já matou mais de 200 mil pessoas no Brasil. Muitas dessas mortes poderiam ser evitadas se o governo federal tivesse demonstrado alguma competência e boa vontade na gestão da crise sanitária. Em novembro de 2020, o desemprego chegou à taxa recorde de 14,6%, segundo o IBGE. Também em outubro de 2020, segundo a Fundação de Pesquisas Econômicas, a FIPE, a inflação de alimentos já acumulava crescimento de 16.41%.

Em qualquer outra situação, teríamos cenário de tempestade perfeita e o derretimento da popularidade do presidente da República seria consequência natural. Dilma desmoronou por muito menos. O semelhante não está nem perto de acontecer com Jair Bolsonaro. Mesmo depois de dois anos da mais completa inoperância administrativa, o presidente mantém inacreditáveis 40% de apoio popular convicto. Nas atuais circunstâncias, é muita coisa.

Ou em outras palavras, para ser ainda mais claro: segundo todos os institutos de pesquisa, quase 40% da população brasileira avalia o governo de Jair Bolsonaro como ótimo e bom.

É desafiador entender os motivos que explicam a força política do presidente. O que não falta é gente inteligente queimando neurônios com o problema. Aqui quero explorar algo específico, o que mais me chama atenção: o fascínio que a rebeldia personificada por Jair Bolsonaro exerce sobre setores numerosos da sociedade civil. Estou muito convencido de que grande parte do carisma de Jair Bolsonaro (e isso serve também para outros populistas de direita, como Donald Trump) se deve ao sequestro de todo um conjunto de códigos antissistêmicos que durante muito tempo foi capital político das esquerdas.

A semântica revolucionária que fundou a modernidade foi sequestrada pela extrema direita.

Explico melhor, pedindo licença ao leitor e à leitora para um breve testemunho, exercício de memória afetiva mesmo.

Meu primeiro lampejo de consciência política se deu ali por volta de 2001, quando, com 15 anos, iniciei o Ensino Médio. Escola Técnica Estadual Oscar Tenório, Marechal Hermes, subúrbio do Rio de Janeiro. A inspiração, é claro, veio de um professor de História.

Queiróz era um velho meio rabugento, viciado em coca-cola e água com gás. Amado pelos alunos. Os outros professores o viam com desconfiança, talvez alguma antipatia. Queiróz fumava como uma chaminé e em sala de aula. Falava palavrão. Sindicalista. Petista. Não conseguiu ver a vitória de Lula, pois morreu em outubro de 2002.

Com Queiróz, conheci o ateísmo e foi isso que me atraiu para a esquerda. Até então, eu nem pensava no assunto. “Esquerda”, “direita” não tinham o menor sentido pra mim. Mas como eu era filho de família católica, o ateísmo se tornou repertório poderosíssimo para desafiar as autoridades domésticas.

Definir-me como ateu foi meu primeiro ato de rebeldia.

Ah, os jovens. O tempo passou e hoje estou convencido de que os Deuses são tão importantes que nem precisam existir de verdade. Não sou mais tão ateu assim. Coisa perigosa é andar no mundo sozinho.

Logo depois, vieram os protestos contra a ALCA, contra a privataria tucana. Vieram as leituras sobre maio de 1968, sobre Woodstock, sobre a geração do desbunde, a sexualidade irrefreada. Era maneiraço ser de esquerda.

Mas a primeira força de sedução foi, sim, o ateísmo. Como eu adorava dizer, tête-à-tête com os bigodes do meu pai: “sou ateu!!!”. Coitado do velho, parecia que ia enfartar.

Num dia, o filho era coroinha, tava fazendo a primeira comunhão. No outro dia, tá dizendo que é ateu.

Naquela época, não existiam jovens de direita. Ou os jovens eram de esquerda ou não eram politizados o suficiente para reivindicar lugar no espectro ideológico.  Ser de esquerda significava rebeldia, dizer que o sistema era uma merda, xingar os políticos. Pedir o fim da Rede Globo.

As esquerdas, definitivamente, tinham vencido a guerra cultural. Aconteceu muita coisa nos últimos vinte anos. O jogo virou completamente. Destaco três eventos, que aparentemente não têm relação entre si. Apenas aparentemente.

– “Prefiro morrer transando do que morrer tossindo”, disse Renan Jair, o filho 04 do presidente Bolsonaro, em abril de 2020, nos primeiros momentos da pandemia da Covid-19.

– Em 1° de janeiro de 2021, o próprio presidente Bolsonaro protagonizou cena cuidadosamente arquitetada pelos seus marqueteiros. Mergulhou no mar da Praia Grande, litoral paulista. Nadou ao encontro de uma turba excitada, que ao mesmo tempo que gritava seu nome, xingava João Doria, governador de São Paulo. Tudo ali foi milimetricamente calculado. A praia tem lugar quase sagrado no imaginário brasileiro. É o espaço democrático, o lazer gratuito. Jair Bolsonaro, grupo de risco para a Covid-19, performou coragem e liberdade, antagonizando com João Dpria, que na narrativa bolsonarista representa a opressão e a ditadura sanitária. Não deixa de chamar a atenção como as esquerdas perderam até mesmo o posto de inimigo direto do bolsonarismo. O lugar foi ocupado pelo tucanato, a tal “direita democrática”.

– Washington, EUA, 6 de janeiro de 2021. Uma multidão formada por apoiadores de Donald Trump invadiu o prédio do congresso norte-americano, movida pela tese de que as eleições presidenciais foram fraudadas. Essas pessoas nem precisam de provas para confirmarem suas desconfianças. Convencidas que estão de que Trump, representando os desejos populares, é inimigo do sistema, qualquer eventual derrota somente pode ser explicada pela ação fraudulenta desse mesmo sistema.

Os três eventos mostram que o hedonismo sexual, a desobediência e a crítica ao sistema, afetos políticos que há bem pouco tempo pertenciam às esquerdas, foram dominados pela extrema direita.

É a extrema direita quem está nas ruas xingando os políticos, dizendo que a Rede Globo tem que acabar. Enquanto isso, as esquerdas representam a obediência e o controle. Obediência às regras sanitárias, o controle do comportamento por aquilo que se convencionou chamar de “politicamente correto”, respeito às autoridades e instituições vigentes.

Recentemente, o conselho científico que assessora o governo australiano na pandemia emitiu nota orientando “boas e seguras práticas sexuais” nestes tempos pandêmicos. Os especialistas dizem que a “masturbação mútua” e o “uso de máscaras durante a atividade sexual” são medidas profiláticas contra a disseminação do vírus. Espero com apreensão e medo o dia em que essas orientações chegarão ao Brasil. Bolsonaro virá a público se dizer defensor do sagrado direito de transar.

Tomara que eu esteja exagerando. Ora ou outra, sou dado a exageros.

Não conheço a solução para o impasse. Se soubesse, falaria. Mas me parece cada vez mais necessário disputar com a extrema direita a energia disruptiva que ainda atravessa a sociedade. Acho difícil que isso possa ser feito com a polidez e com o gestual bem educado e politicamente correto das esquerdas institucionalizadas nas universidades e nos partidos políticos.

Enfim, certeza mesmo é que era uma delícia chegar em casa gritando aos quatro cantos: “sou ateu!”. Bons tempos em que era gostoso ser de esquerda.

Que os Deuses, todos eles, nos ajudem.

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Rodrigo Perez Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.

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