O papel da Economia Criativa no cotidiano de pessoas com deficiência, por Ana Beatriz Prudente

Crianças e adolescentes com deficiência e suas famílias podem se beneficiar de produtos e serviços desenvolvidos pelo setor

Como uma pessoa debruçada na economia criativa, vejo nesse momento urgência de criarmos soluções para nichos e grupos sociais específicos, cujas realidades foram ainda mais impactadas por conta da crise do coronavírus. É o caso, por exemplo, das famílias com crianças e adolescentes com necessidades especiais. Com a necessidade de isolamento, provocada pela pandemia, os pais cujos filhos precisam de uma atenção diferenciada ou mais ampla  – que antes contavam com o suporte de instituições especializadas ou mesmo com profissionais e educadores da rede comum escolar – agora têm que absorver esses cuidados em casa. Ainda que crianças e adolescentes com deficiência estejam em aulas online, a presença dos pais se tornou mais do que obrigatória e essencial.

É difícil administrar qualquer criança e trabalhar ao mesmo tempo, sendo uma criança ou adolescente com necessidades especiais é ainda mais desafiador, pois as famílias devem redobrar a atenção.  Portanto, nesse momento, pais e mães precisam de um apoio doméstico, uma vez que essas crianças não vão retornar tão cedo para suas instituições de ensino. Pais e filhos carecem de conforto, de ambientes adaptados e voltados para o melhor desenvolvimento educacional. E como podemos tornar a casa mais adequada?  Com a criação de jogos, brinquedos e itens domésticos que propiciem mais aconchego para as pessoas com deficiência. Cabe à economia criativa esse papel, visto que ela faz parte do mundo de elaboração de produtos e serviços cujo capital é a criatividade, a cultura e a identidade. Os empreendedores da economia criativa devem ser incentivados a inovar nesse segmento. Mesmo as famílias com mais recursos financeiros enfrentam dificuldades de encontrar produtos e serviços que as atendam.

A conquista dos direitos das pessoas com necessidades especiais tem sido um caminho de muitas batalhas mas, felizmente, com bons avanços. No entanto, mesmo com  leis de acessibilidade e os avanços científicos, entre outros, as pessoas com deficiência ainda encaram muitos obstáculos na efetivação da sua plena cidadania, por muitas leis ainda não serem cumpridas e por sua vulnerabilidade social. Muitas estão fora do mercado de trabalho ou inseridas em uma família sem grandes condições financeiras, distanciando-se de facilidades tecnológicas e  da boa qualidade educacional.  Historicamente, a compreensão sobre a pessoa com deficiência evoluiu bastante, mas ainda há muitas lutas pela frente, especialmente no que diz respeito a acessibilidade na área de educação e em sua representatividade na mídia e no campo político. Na idade média, entre os séculos XVI e XVII, a deficiência física ou intelectual era considerada uma deformação e uma manifestação dos deuses ou demônios, algo imutável a ser banido. No século XVIII, na visão humanista cristã, as pessoas com necessidades especiais eram vistas como uma manifestação da natureza humana e uma oportunidade de purificação e, por isso, todos deveriam se conformar com sua condição. É nessa época que surgem o assistencialismo, abrigos e instituições de caridade para atendê-los.  Já no século XIX, pessoas com deficiência eram consideradas passíveis de tratamentos médicos e psicológicos. Nessa fase, começam alguns avanços da ciência sobre o tema.

Atualmente, temos leis de inclusão, para a promoção da cidadania e da equidade, mas nem sempre nosso olhar se volta para o social, ou seja, para a percepção de que a condição não está no indivíduo e, sim, na sociedade. É preciso criar condições para que a pessoa com deficiência possa participar ativamente da vida social, portanto, é necessário tornar todo seu entorno acessível.  Ainda hoje as escolas são desenvolvidas para crianças sem qualquer necessidade especial, seja de aprendizado ou de locomoção.

Existem possibilidades vastas de incluir e estimular as crianças e adolescentes com deficiência através de jogos e brincadeiras que estimulem a audição ou o tato, nas quais elas não só se divertem como aprendem.  Há outras atividades que trabalham a memória como as brincadeiras de roda, já as cartas em braile são estímulos para as pessoas cegas, que encantam e ensinam. Muitos produtos adaptados, entre eles, as bolas que possuem guizos ou outros elementos para que as crianças possam se apropriar de jogos lúdicos. O aprendizado por meio de atividades lúdicas é muito importante para o desenvolvimento de qualquer criança, especialmente, aquelas com necessidades especiais, pois por meio do brincar é possível estimular ações motoras, espaciais, entre outras. Jogos de diversas naturezas, até mesmo os eletrônicos, já são adaptados e podem ser utilizados com grandes benefícios para esse público.

Hoje vemos também bons exemplos da economia criativa que atendem crianças, adolescentes e adultos com deficiência: são os aplicativos que utilizam a tecnologia como ferramenta facilitadora do dia a dia.  Muitos, como o Be My Eyes, foram pensados para a interação social e para criar independência desse público nas tarefas diárias. Este aplicativo gratuito para IOS e Android auxilia na identificação de objetos. Ele funciona com uma chamada de vídeo, na qual voluntários ajudam as pessoas cegas ou com baixa visão a preparar uma refeição, escolher ou combinar cores de roupas, por exemplo. São ideias como essas que criam soluções para problemas diários de grupos específicos e que devem, cada vez mais, ser estimuladas pela economia criativa, setor essencial para o desenvolvimento econômico sustentável. É necessário pensarmos em formas efetivas e práticas de assegurar uma educação inclusiva, de qualidade e que promova oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas as pessoas com deficiência, e a economia criativa é um grande motor para isso.

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Ana Beatriz Prudente

Entusiasta da Economia Criativa e da Agrossustentabilidade, educadora do empreendedorismo sustentável com Design Thinking, membro do Comitê Permanente de Combate à Covid 19 da Faculdade de Educação da USP e cronista