O que o BBB tem a ensinar sobre nós? – Por Ingrid Gerolimich

Precisamos revisitar o real sentido da palavra ativismo e discutir sobre uma ética ativista que não confunda radicalidade (às vezes necessária) com autoritarismo

Ontem o Brasil parou para assistir à eliminação de uma das participantes mais odiadas que já passaram pelo Big Brother Brasil, Karol Conká, com uma votação histórica de 99,17%. Karol mereceu mesmo sair do jogo por conta das suas atitudes extremamente abusivas e não faço ideia se ela irá aproveitar a oportunidade para aprender com os próprios erros ou não, mas o fato é que uma vez aqui fora, as coisas deverão ser diferentes. A vilã de novela foi vencida e no seu lugar retorna a humana que tem direito a seguir com sua vida. 

O BBB, para além de um show de entretenimento, é um laboratório de experimentos humanos e, como tal, reflete em algum grau os dilemas coletivos que vivemos do lado de fora, enquanto sociedade. Neste sentido, o comportamento de traços narcisistas de Karol no jogo tem muito a dizer sobre ela e sobre o sentimento que ela gera no outro a partir disso, mas também pode nos ensinar muito sobre como não reproduzirmos aquilo que tanto combatemos e este é o foco deste texto.

Vocês sabiam que nos últimos 60 anos mais de um milhão de pessoas participaram de linchamentos no Brasil? Este e outros dados estão no livro ‘Linchamentos: a justiça popular no Brasil’ e é bom lembrar que estamos falando aqui de linchamentos físicos e não virtuais, porque, se fosse este o caso, os números seriam muito maiores. Quem se lembra do caso do menino espancado e amarrado pelo pescoço a um poste no Rio de Janeiro por um grupo de homens intitulados de ‘‘justiceiros’’, após ser acusado de praticar furtos pela região? Para além da atrocidade do ato, quero chamar a atenção para a expressão “justiceiros” assinalada pelos autores do crime como forma de definirem a si próprios, pois acreditam de fato que assim fazem justiça.

Ainda que seu conceito atual seja carregado da ideia de que se trata de uma reação a algum tipo de injustiça, o ato de linchamento, como conhecemos, surgiu nos EUA, por volta de 1870, como forma, na verdade, de subjugação e extermínio da população negra. Logo, não se tratava sequer de uma ideia distorcida sobre fazer justiça. O ato era um espetáculo de ódio e intolerância contra o que consideravam diferente e, portanto, ameaçador. Uma catarse coletiva onde o véu da multidão permitia que tudo o que fosse de mais animalesco viesse à tona em cada um dos presentes, mas que precisava, ao menos em algum grau, de justificativa. E assim, milhares de negros foram brutalmente assassinados por crimes que sequer cometeram em nome dessa “justiça”.

É importante dizer que a violência, seja física ou psicológica, está a serviço do capital e é explorada como uma mercadoria. É bastante rentável, por sinal. Além disso, a espetacularização da violência serve também como ferramenta de manutenção do status quo, como relata Foucault (1987) ao dizer que o espetáculo através da exposição dos corpos humilhados ou mutilados em praça pública, denota antes de qualquer coisa uma forma de controle social. E nesta fogueira em praça pública ganha quem mais corpos nela atirar, acreditam que assim reforçam sua superioridade moral e ainda evitam que o fogo seja ateado também aos seus próprios corpos.

Em termos ideológicos, é importante dizer que isto pode valer tanto para direita, quanto para a esquerda, pois ambas podem reproduzir o autoritarismo, ainda que de maneiras diferentes, em suas esferas de atuação. E como não tenho a pretensão de fazer com que esta reflexão chegue até os lares bolsonaristas, prefiro focar a minha intenção entre aquelas e aqueles com quem compartilho valores e visões do mundo convergentes.

O psicanalista Christian Dunker cunhou um termo que achei interessante e vou trazer para o debate. Chama-se “Ostentação da Consciência” e fala sobre algo que tem se tornado cada vez mais frequente entre ativistas progressistas, que é a idéia de que o militante tem que se colocar com uma alma superior, uma “fada sensata e sem defeitos”, sendo isso, inclusive, utilizado como um mecanismo para construir algo que está muito em alta: a “carreira de ativista”, com direito a status e muitos likes. Nada contra, o problema talvez esteja no fato disso, em alguns casos, se transformar no fim e não no meio.

Não é nada incomum assistirmos a alguém “dos nossos” ser jogado sem direito a julgamento na fogueira moral da internet e isso pode nos levar ao que Freud nomeou como “narcisismo das pequenas diferenças”, em razão da constatação de que são as diferenças sutis, e não as grandes diferenças, a razão da maior parte dos conflitos, de desentendimentos locais a guerras sangrentas. E, adicionando a esta questão ingredientes dos nossos dramas pós modernos, podemos lançar mão do termo “ativismo narcisista”, cunhado pela escritora e dramaturga Helena Vieira, onde o ativista narcisista é aquele que geralmente é intolerante e autoritário, não abre espaço para o diálogo e se preocupa mais em lacrar e viralizar do que debater. Conhece alguém assim?

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Talvez, como lembra Helena, precisemos revisitar o real sentido da palavra ativismo e discutir sobre uma ética ativista que não confunda radicalidade (às vezes necessária) com autoritarismo, que não perpetue a exclusão, discriminação e estigmatização que tanto buscamos combater e que esteja aberta ao diálogo, à escuta real. É perguntar-se a quem serve a sua luta e compreender que para mudar o mundo é necessário mudar a si mesmo.

O que acham?

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

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