O que são os identitarismos políticos – Por Rodrigo Perez

Primeiro, é um equívoco achar que existe apenas identitarismo de esquerda. Existe, também, identitarismo de direita. Em muitos aspectos, identitarismos de esquerda e de direita são semelhantes, apesar de terem dimensões éticas e morais bastante diferentes

Se você acompanha o debate político com alguma atenção, certamente já teve contato com o termo “identitarismo”. Geralmente, a palavra tem sentido pejorativo, sendo usada para criticar militantes de esquerda ligados ao movimento negro, feminista e LGBT, como se suas pautas e agendas fossem menos importantes diante das necessidades econômicas da maioria.

Por seu lado, esses militantes repudiam o termo “identitarismo”, argumentando que seu uso, por si só, é manifestação daqueles que se incomodam com as reivindicações das minorias.

Aqui, quero tratar o identitarismo como objeto de reflexão, pois considero que seja uma das manifestações mais emblemáticas da crise geral que marca nossa contemporaneidade.

Primeiro, é um equívoco achar que existe apenas identitarismo de esquerda. Existe, também, identitarismo de direita. Em muitos aspectos, identitarismos de esquerda e de direita são semelhantes, apesar de terem dimensões éticas e morais bastante diferentes. Neste texto, trato das semelhanças.

Uma definição básica, simples e rápida:

O identitarismo consiste na autoafirmação de um grupo como portador de uma identidade (condição de existência) específica que estaria sendo oprimida por outras identidades, por outras condições de existência.

O identitário, portanto, é aquele que transforma a afirmação da especificidade de sua condição de existência em reivindicação política.

A pessoa negra militante, o LGBT militante se afirmam como portadores de identidades oprimidas pela identidade hegemônica, branca, masculina e heterossexual.

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O militante de extrema direita, branco, cristão e heterossexual, se apresenta como portador de uma identidade oprimida pelo avanço do marxismo cultural, que seria hegemônico no mundo ocidental desde meados do século XX.

Em ambos os casos, o específico da existência é evocado na forma da afirmação identitária.

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Em ambos os casos, a “minha condição de existência” está ameaçada por outras condições de existência, mais fortes e poderosas.

Há, ainda, outro aspecto fundamental ao identitarismo: a dúvida, a desconfiança e o ceticismo como afetos políticos.

O identitário, de esquerda e de direita, desconfia dos valores/instituições forjados na modernidade, especialmente o método científico cartesiano e a representação liberal.

Tanto o método científico cartesiano como a representação liberal demandam alguma confiança no abstrato, no não concreto.

Explico.

Ao eleger meu representante, eu, cidadão médio, volto aos meus afazeres particulares, aos meus interesses privados. É impossível acompanhar o dia a dia do meu representante para “ver com meus próprios olhos” se ele está cumprindo sua promessa. Preciso, simplesmente, confiar. Se não ficar satisfeito, mudo meu voto nas próximas eleições.

Quando um cientista diz que a cloroquina não funciona pra Covid-19, simplesmente acredito, pois não é possível que eu refaça sua pesquisa para “checar com meus próprios olhos”. Parto do princípio de que a instituição de conhecimento onde o cientista trabalha legítima aquela verdade. Acredito. Simplesmente acredito.

O identitário, de esquerda e de direita, é o cético, mas não ė o cético niilista, que aceita o não concreto como possibilidade. É o cético que busca, incansavelmente, o concreto.

O concreto é, exatamente, a identidade, a condição de existência.

A mulher negra militante vota em outra mulher negra, porque acha que só assim, na concretude de uma condição de existência compartilhada, a verdadeira representação é possível. O bolsominion desconfia do congresso, do judiciário e só se sente representado pelo chefe, que divide com ele a mesma condição de existência.

O identitário de esquerda vê com desconfiança o conhecimento produzido na universidade, que seria manifestação do poder ocidental branco, eurocentrado. O identitário de direita desconfia da universidade, que estaria manipulada pelo “marxismo cultural”.

A solução para ambos? O conhecimento produzido por um igual em condição de existência.  Somente esse conhecimento seria digno de confiança.

O cético que desconfia das instituições/valores modernos, e que busca o concreto nas identidades compartilhadas dentro de uma comunidade de iguais. Temos aqui a razão de ser do identitarismo político.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Rodrigo Perez Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.

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