O que o brasileiro pensa?
12 de julho de 2020, 21h41

O racismo brasileiro na Netflix

“Coisa Mais Linda” é uma série brasileira da Netflix que tem o mérito o de não fingir que o racismo não existe, fugir da narrativa farsesca da “democracia racial” e trazer à tona algumas cenas e realidades que nossa teledramaturgia se caracteriza por evitar

Divulgação

“Coisa Mais Linda” é uma série brasileira que está na Netflix e que é bem legal. Não é a melhor série da história das séries, mas acho que é boazinha, e tem alguns méritos. Um deles é o de não fingir que o racismo não existe.

Sem ser o tema principal da série (e, por isso mesmo, sem propor um debate mais amplo sobre o tema), ao menos foge da narrativa farsesca da “democracia racial” e traz à tona, especialmente nesta recém estreada segunda temporada, algumas cenas e realidades que nossa teledramaturgia se caracteriza por evitar.

A roteirista é uma gringa loira, e acho que isso não tira valor, mas havendo no Brasil roteiristas negras com talento seria legal que elas tivessem espaço pra contar suas histórias, sobre vários temas, incluindo histórias sobre o racismo tipicamente brasileiro como tema principal.

Muitos consideram a teledramaturgia brasileira uma das melhores do mundo, e embora esteja bem longe de ser ruim, essa máxima não pode ser totalmente verdadeira enquanto o país não for capaz de sincerar, em suas obras, suas mazelas históricas.

Quando o mundo é sacudido pelo afã de saldar a dívida histórica com o racismo, o Brasil se encontra na estranha situação de não negar totalmente o problema, mas tentar fazer um reconhecimento sem a profundidade necessária.

Por exemplo, na Globo, maior produtora de conteúdo do país, um dos diretores de maior poder é autor de uma obra-prima do típico racismo negacionista brasileiro, uma tentativa tosca de desmentir o racismo estrutural e as consequências da escravidão na sociedade brasileira.

Se trata de um diretor de jornalismo, mas isso é um detalhe. A questão é que seu pensamento também é o pensamento dos donos desta emissora, que trabalha há décadas para impor essa distorção como verdade, seja nas novelas, onde a realidade do racismo é simplesmente ignorada ou pasteurizada, para parecer menos dramática do que é na verdade; seja no jornalismo, onde o caso de George Floyd levou a emissora a aceitar mais espaço às figuras negras do seu elenco de jornalistas, tentando mostrar justamente aquela falsa “democracia racial”, e escondendo que os negros continuam distanciados dos cargos de maior hierarquia em sua estrutura.

Na Globo, na Netflix e em quase todas as plataformas de comunicação de massa, essa batalha precisa ser travada. O Brasil ainda tem um bom caminho para andar, na missão de saldar sua dívida histórica com o racismo, e esses meios são extremamente necessários para isso . Seria bom se “Coisa Mais Linda” for um bom começo nessa trilha, mas ainda falta muito.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum