O Rei – Por Lelê Teles

Uma nobreza de araque. A única rainha brasileira, rainha de verdade, com coroa na cabeça e o diabo, sangue de smurfete, reina na distante e fria Suécia.

Roberto Carlos faz 80 anos, que viva muitos anos.

não vou dar parabéns a ele porque ele nem vai ler o meu post, vou aproveitar para sentar-lhe o sarrafo.

roberto fez músicas para a mãe, para os amigos, para as gordinhas, para as coroas, para os caminhoneiros, para os taxistas, para as baleias, para Jesus Cristo e o cacete…

porém, nunca se dignou a fazer uma composição para as pessoas com deficiência, sendo ele um saci branco.

o velejador carioca, grael, nunca sei qual dos dois graéis, perdeu uma perna num acidente náutico; no dia seguinte, o medalhista olímpico ‘tava de sunga, exibindo a prótese que lhe substituía o membro amputado.

qual o problema?

roberto, no entanto, nunca botou uma bermuda.

no palco, está sempre estático para que os fãs não percebam sua claudicância ao caminhar.

embora todos saibam de sua condição física.

roberto perdeu uma grande oportunidade de representar as pessoas com deficiência durante a olimpíada do Rio de Janeiro.

poderia ter pedido para fazer abertura dos jogos paralímpicos, imagina o que isso não provocaria no imaginário e na autoestima das pessoas com deficiência.

de quebra, o mundo ainda saberia que temos um rei e que lhe falta uma perna.

mas faltou coragem a roberto.

coragem que não faltou ao tubarão Clodoaldo Silva e ao gigante Daniel Dias.

por outro lado, o mundo ficaria boquiaberto com a nossa fixação pela monarquia: é picanha nobre, folguedo com nome de reisado, é queijo do reino, é fruta do conde, é o príncipe da sociologia…

e, ainda, um tal de doutor ray, é rei do iê iê iê, rei do futebol, rainha dos baixinhos, rainha do bumbum, rainha das embaixadinhas, rainha da bateria, rei do mate, rei do kibe, rei das coxinhas…

uma nobreza de araque, a única rainha brasileira, rainha de verdade, com coroa na cabeça e o diabo, sangue de smurfete, reina na distante e fria suécia.

enfim, nessa mixórdia de nobres de sangue vermelho, roberto é só mais um rei…

e o rei tá coroa.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Lelê Teles

Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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