Rodrigo Perez Oliveira

15 de junho de 2019, 07h00

O saldo da Vaza Jato, até aqui

Rodrigo Perez Oliveira: “Agora, é Moro a vidraça, é quem precisa de apoio. E Bolsonaro demorou para se manifestar. Esperou para ver a repercussão dos vazamentos, valorizou seu apoio na cotação do mercado político”

Foto José Cruz/Agência Brasil

A política institucional não para sempre que explode um novo escândalo. Pelo contrário: os corredores do palácio reagem à novidade e peças se movimentam no xadrez do poder. É exatamente isso que está acontecendo neste exato momento, enquanto todos aguardamos a “bomba” prometida por Glenn Greenwald.

O conteúdo a ser publicado irá mesmo alterar de forma considerável o jogo, dando início a um novo momento na cronologia da crise, ou tudo não passará de uma marolinha?

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Por enquanto, só dá pra dizer que a imagem de Sérgio Moro sai chamuscada. É impossível saber com clareza o tamanho do prejuízo, mas sem dúvida alguma se trata da maior dificuldade já enfrentada pelo ex-juiz em sua curta e meteórica vida pública.

A agenda negativa envolvendo a imagem do “superministro” da Justiça e Segurança Pública altera o equilíbrio de forças dentro do governo. Essa me parece ser a primeira consequência da Vaza Jato.

É sempre bom lembrar que o vínculo de Operação Lava Jato, liderada por Sérgio Moro, com Jair Bolsonaro é mais circunstancial do que o orgânico. Ou em outras palavras: a Operação Lava Jato, que desde 2014 atingiu grande sucesso de público e crítica encenando uma jornada de combate à corrupção, não está diretamente vinculada à figura de Bolsonaro.

A Lava Jato se mostrou ao país como uma força externa ao mundo político que o moralizaria de fora pra dentro. Era como se os políticos eleitos pelo voto fossem todos potencialmente corruptos e somente os bacharéis concursados teriam moral ilibada.

Bolsonaro é político profissional há 30 anos.

O encontro entre ele e a Lava Jato se deu no segundo turno das eleições presidenciais de 2018, quando o bolsonarismo nasceu como fenômeno político capaz de mobilizar as ruas.

O lavajatismo é anterior ao bolsonarismo, talvez seja uma de suas condições de existência.

Diante da possibilidade do retorno do PT ao governo, a Lava Jato escolheu um lado entre as possibilidades dadas pela realidade eleitoral, como mostra claramente o material já vazado pelo Intercept.

A Lava Jato fortaleceu a candidatura de Bolsonaro tendo a promessa de que faria parte do novo governo. Há quem aposte que uma das novidades a ser revelada por Greenwald é o convite de Bolsonaro a Sérgio Moro sendo feito ainda durante as eleições. Ainda não seria essa a bomba tão esperada. Todos desconfiamos de que o convite foi feito antes do resultado das eleições. Ver a prova manifestada em conversa de aplicativo não será a maior das novidades.

Seja como for, fato mesmo é que Moro chegou agigantado à esplanada dos ministérios, laureado pela mídia e com grande apoio popular. Por outro lado, Bolsonaro enfrentava a resistência dos mais poderosos veículos da imprensa e a rejeição convicta de, pelo menos, 30% da população, além de ter que lidar com escândalos envolvendo milícias, funcionários laranjas e lavagem de dinheiro.

Naquele momento, sem dúvida nenhuma, Moro era maior que Bolsonaro, talvez fosse seu único rival, já que Lula estava, e está, preso. Moro era aquele tipo de funcionário que nenhum chefe gosta de ter: o que não pode ser demitido.

E Moro ainda tinha o controle da PF e do COAF, que poderiam ser bastante úteis caso fosse necessário mostrar ao país as travessuras da família presidencial.

Definitivamente, o jogo virou.

A Vaza Jato atinge Moro em cheio e, por enquanto, nem rela em Bolsonaro. Pelo contrário: enquanto aguardamos o próximo vazamento, esquecemos de Queiroz, de Flavinho, dos 13 milhões de desempregados e dos cortes na educação.

Em um momento de grandes dificuldades, o presidente saiu dos holofotes. Bom pra ele.

Agora, é Moro a vidraça, é quem precisa de apoio. E Bolsonaro demorou para se manifestar. Esperou para ver a repercussão dos vazamentos, valorizou seu apoio na cotação do mercado político.

Depois de algumas palavras tímidas, Bolsonaro veio finalmente a público defender seu ministro, almoçou com ele, lhe levou pelo braço a um estádio de futebol, onde Moro assistiu ao jogo vestindo terno e gravata, desconfortável naquele que não é seu habitat natural.

Moro não é nada carismático. É homem de gabinete. Prefere conspirar nas sombras a enfrentar a imprevisibilidade do palanque. Não tem nenhuma vocação para a performance populista.

No estádio Mané Garrincha, assistindo ao jogo do time de futebol mais popular do Brasil, Bolsonaro mostrou-se ao lado de Moro em camarote devassado. Mediu a opinião pública e avaliou que o estrago não é grande e que vale investir capital político na defesa do ministro. Moro agradeceu, com sorriso amarelo, vestindo sem jeito uma camisa do Flamengo e se deixando abraçar pelo presidente.

Bolsonaro pediu para um torcedor lhe atirar uma camisa do Flamengo, gritando com animação: “é pra ele vestir, é pra ele vestir!”. Bolsonaro assumiu a narrativa. Foi aplaudido.

Hoje, Moro não é mais funcionário indemissível.

Mesmo que amanhã vaze material mostrando que Bolsonaro convidou Moro para ser ministro antes do fim das eleições, não será o presidente o principal prejudicado. Bolsonaro é político, na época era candidato em campanha. Moro era o juiz que aceitou o convite.

Moro tem muito a perder com isso tudo. Bolsonaro nem tanto.

Ao expor Moro, a Vaza Jato, indiretamente, fortaleceu Bolsonaro.

O presidente parece ter entendido o recado, a ponto de tomar coragem para demitir, em 13 de junho, Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo e uma das principais lideranças do núcleo militar do governo.

General condecorado, internacionalmente respeitado. Santos Cruz é discreto, um homem das instituições e vinha sendo voz contrária à radicalização ideológica promovida pelo núcleo olavista. Foi alvo de ataques, do fogo nada amigo disparado por Carluxo e pelo próprio guru da Virgínia.

Ao demitir Santos Cruz, Bolsonaro fez um gesto de radicalização ideológica, mostrando que a moderação no tom demonstrada nas últimas semanas e o afastamento de Olavo de Carvalho das decisões do governo não passavam de encenação.

Lula ainda está preso, Moro apanhando igual boi bandido e Bolsonaro à vontade para radicalizar ainda mais à direita. Até agora, é este o saldo da Vaza Jato.

Até agora.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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