Raphael Silva Fagundes

08 de abril de 2019, 22h44

“O trabalhador não é o santinho que a esquerda pensa”, diz o analfabeto político

Raphael Fagundes afirma: “É hora de a esquerda romper com essa visão e apreender os proletários como uma força transformadora e não mais alguém que merece assistência enquanto tudo permanece no mesmo lugar”

Foto: Agência Brasil

Existe um erro em relação ao modo de como a esquerda concebe os trabalhadores, erro que, por sua vez, é fruto da ignorância perante à teoria marxista. Marx não considera o trabalhador como um ser idôneo ou santo. Nunca se dedicou à questão moral. Trata-se da questão do trabalho, que nas condições capitalistas desumaniza a pessoa. “À medida que a sua finalidade se resume ao aumento da riqueza, é danoso e insalubre”. Isso em dois sentidos, ou corrompe o trabalhador, ou o joga na pobreza.

Existe o trabalhador que vende as peças do caminhão do patrão na estrada trocando-as por de qualidade inferior. Existe o frentista que rouba gasolina, o policial que vende armas ao ladrão, o taxista que viola o valor da corrida, o feirante que diz que o produto que vende é livre de agrotóxico só para encarecê-lo, pessoas oportunistas que estão no MTST etc. Em todas as categorias existem pessoas que querem tirar vantagem. Aí vem um ignorante e diz: “Está vendo só. O trabalhador não é o santinho que a esquerda pensa”.

Esse é um raciocínio equivocado, já que pretende dissimular o objetivo real da esquerda, embora esta o tenha abandonado. Portanto, é preciso explicar.

Marx diz que à medida que o trabalho aumenta, aumenta a riqueza, exigindo mais trabalho. Isso não quer dizer – por incrível que pareça – mais emprego, e sim mais competição entre os trabalhadores e mais exploração, transformando-os em máquinas.

Os economistas veem os trabalhadores como seres abstratos, “como simples trabalhador. Por consequência, pode sugerir a tese de que ele, assim como um cavalo, deve receber somente o que precisa para ser capaz de trabalhar”. Desde Marx isso se sofisticou, pois o trabalhador não quer apenas comida, mas diversão e arte. Dessa forma, a indústria desenvolveu lazeres que fazem com que os trabalhadores reproduzam a sua condição nas relações de produção. Além disso, cria uma filosofia de que a vida cotidiana é a única realidade que presta, tornando todas as outras futilidades.

Aumenta-se a produção, aumenta a necessidade do patrão em comprar mais máquinas, ampliar seu espaço etc. Seus custos, portanto, aumentarão. O último da hierarquia da empresa é quem vai sofrer, ou seja, o trabalhador, que terá seu salário abatido proporcionalmente ao aumento do trabalho e aos lucros do patrão.

É contra essa lógica econômica do trabalho que Marx se posiciona e não na ideia de que é necessário proteger o trabalhador. Pelo contrário, Marx entenderia uma suposta proteção ou defesa ao trabalhador como algo risível, uma vez que essa proteção, descomprometida com a transformação da lógica capitalista, tem como finalidade manter o trabalhador na condição subalterna nas relações de produção.

A esquerda não deve ter a proteção do trabalhador como um fim, mas estimular nele a consciência da perversidade da atual economia política que o coloca como o elemento mais dispensável das relações de produção. Não se deve enxergar o trabalhador como um pobre coitado, vítima do sistema capitalista, mas como uma bomba prestes a explodir a qual, o tempo todo, as formas de dominação jogam água antes que o mecanismo sobreaqueça gerando uma combustão revolucionária.

Por exemplo, em 2013, após a divulgação da taxa de crescimento de 0,9% em 2012, a inflação aumentou um pouco, o governo recuou e aumentou a taxa de juros. Por seu turno, a taxa de câmbio que havia se depreciado em 20%, voltou a se apreciar, o que abaixou a taxa de lucro da indústria para 5%. A partir daí aconteceu uma coisa que jamais poderia acontecer: “os salários cresciam mais que a produtividade” (1). Os empresários industriais abandonaram o governo dando lugar para os rentistas e financistas de classe alta e média apoiados pela mídia tradicional. A solução para salvar o país partiu do ponto de vista dos economistas: gerar desemprego, cortar gastos e congelar salários. Ou seja, quem mais sofre é o trabalhador. Além disso, os movimentos de trabalhadores que se espalharam pelo Brasil tomaram um banho de água fria até se congelarem com a ascensão da extrema direita.

É preciso combater essa visão macroeconômica (sustentada pela grande imprensa) acerca do trabalhador, na qual ele é apenas número, um prejuízo para os lucros – que não existe sem o trabalhador, pois é, em prática, trabalho acumulado. E a solução não será entendendo-o como um ser imaculado ou objeto de qualquer tipo de pena, não foi essa a lição que Marx deixou.

O pensamento socialista inverte a lógica capital/trabalho e enxerga o processo de produção a partir do trabalho e não do capital. Busca arrancar o véu nebuloso e místico que encobre a mercadoria somente possível em uma “formação social em que o processo de produção domina o homem e não o homem o processo de produção”. A solução para uma crise deve ser aquela que pretende salvar o trabalho e não o capital. O trabalho vive muito bem sem o capital, enquanto este depende daquele, embora essa economia burguesa nos faz pensar o oposto.

Essa economia quer nos fazer crer que o valor das coisas está nelas mesmas e que o valor da mercadoria está ligado ao investimento do patrão que, por sua vez, precisa ser ressarcido. Na verdade, pelo menos se pretendemos ser marxistas, o valor é decorrente do tempo de trabalho dispendido no processo de produção. Contudo, “uma parte dos economistas está iludida pelo fetichismo dominante no mundo das mercadorias ou pela aparência material que encobre as características sociais do trabalho” (2).

Com a carga tributária que temos é possível ter fontes de investimentos que não venham do capital privado, além disso, é preciso aumentar a carga tributária sobre este último.

O trabalhador é a única classe capaz de derrubar o estado atual de coisas por meio da força, por isso a classe dominante investe em apaziguá-lo. A não ser que sua violência em potencial seja praticada contra outros trabalhadores, por isso há um mar de filmes policiais e sobre guerra, uma cultura do medo, o destaque da criminalidade na TV etc. O que contribui em dizer que o trabalhador é apenas um pobre coitado, uma vítima. É hora de a esquerda romper com essa visão e apreender os proletários como uma força transformadora e não mais alguém que merece assistência enquanto tudo permanece no mesmo lugar.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum