sexta-feira, 30 out 2020
Publicidade

Olavo de Carvalho defende a contrarrevolução permanente, mas não é o contrário de Trotsky

Estamos diante de uma avalanche de coisas estranhas acontecendo. Tão estapafúrdias e incríveis que nos deixam estupefatos. A luta entre as diferentes frações dentro do governo de extrema direita liderado por Bolsonaro mudou de tom. Começou a zoação.

Um dos líderes da ala militar partiu para a zombaria, mas errou feio. Errou grosseiramente. O general Villas-Bôas fez uma provocação e denunciou que Olavo de Carvalho seria um Trotsky de direita. A repercussão foi grande. Conseguiu disparar a procura no Google por Trotsky. Mas comparar o Rasputin do bolsonarismo com o revolucionário internacionalista, mártir da luta contra o capitalismo e o stalinismo, só que de signo invertido, foi injusto com Trotsky.

Portanto, paradoxalmente, agigantou Olavo de Carvalho em vez de diminuí-lo. Não, Olavo de Carvalho não tem, nem remotamente, a estatura de Leon Trotsky.

Independentemente da opinião que se possa ter sobre suas posições, Leon Trotsky é reconhecido, amplamente, muito além das fileiras dos militantes que lutam pela Quarta Internacional, e mesmo da esquerda em geral.

Foi um dos maiores líderes da revolução russa, um teórico criativo de mente irrequieta, um orador de imensa potência, um escritor brilhante com estilo elegante e um líder abnegado com irrefutável grandeza de caráter. Dizem os testemunhos dos contemporâneos que tinha uma personalidade firme, porém, agregadora, um temperamento enérgico, porém, equilibrado, uma atitude intensa e altiva, porém, amigável.

Trotsky foi um revolucionário gentil, um homem com gigantesca força e grandeza moral que lutou em tempos terríveis, e teve que tomar decisões terríveis.

Não era infalível. Ninguém é infalível. Mas se elevou acima da imensa maioria dos marxistas de sua geração. Enquanto existirem homens e mulheres engajados na luta contra o capitalismo, Trotsky estará presente entre nós, e sua memória será honrada.

O que define as intervenções de Olavo de Carvalho é o primarismo brutal que substitui, sistematicamente, argumentos por insultos, O extremismo delirante da defesa da contrarrevolução permanente não faz de Olavo de Carvalho o contrário de Trotsky. O líder intelectual da corrente neofascista merece ser comparado com Rasputin.
Um excêntrico messiânico.

Um maluco.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
Valerio Arcary
Valerio Arcary
É professor titular do IFSP. Doutor em história pela USP, estudou na Universidade de Paris e Lisboa entre 1974/78, participou da revolução portuguesa, voltou ao Brasil e se uniu à Convergência Socialista, esteve presente na reconstrução da UNE em Salvador em 1979, na fundação do PT em 1980 e da CUT em 1983, sendo secretário-geral da CUT/São Paulo entre 1985/86. Atuou na Apeoesp entre 1983/90, foi membro da Executiva Nacional do PT entre 1989/92, e foi presidente nacional do PSTU entre 1993/98 e, desde 2016 é membro da Coordenação Nacional do MAIS/PSOL. É autor de O martelo da história, entre outros livros.