Os dois exércitos de Jair Bolsonaro – Por Rodrigo Perez

Hoje, milícias e o Exército estão do mesmo lado. De prontidão, montando guarda na porta do Palácio do Planalto, protegendo a quadrilha que governa o país

02/03/2021: 1.726 mortes.

03/032021: 1.910 mortes.

A cada dia que passa o Brasil pulveriza seus próprios recordes na carnificina em que a pandemia da Covid-19 se transformou entre nós. Ainda nesta semana, passaremos da impressionante marca de 2.000 mortes por dia.

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro continua boicotando as medidas de isolamento social, o uso de máscara. Ataca governadores e prefeitos, publicando informações manipuladas sobre repasse de verbas, agitando a sociedade contra as medidas de isolamento adotadas nas cidades e nos estados.

Bolsonaro parece estar confortável na pandemia. A situação lhe serve como álibi pra justificar o caos administrativo que é seu governo. Permite-lhe continuar performando o adversário do sistema, o outsider, confrontando o STF e outras autoridades, em defesa da “liberdade” da população contra as medidas sanitárias de controle social.

Fora da atmosfera do conflito, do ódio, Bolsonaro não existiria. Ou melhor, continuaria sendo o deputado de baixo clero, braço legislativo das milícias cariocas e atração de programa de auditório. O conflito, a possibilidade da ruptura e a retórica da guerra são oxigênio para Bolsonaro.

Quanto mais a pandemia durar, melhor para Bolsonaro.

Bolsonaro não é o resultado da crise estrutural da democracia brasileira que começou em 2013. É a manifestação mais completa dessa crise. O resultado ainda virá. Não dá pra saber o que será. A situação ainda pode piorar.

Enquanto pessoas morrem esperando leitos, afogadas no seco sem oxigênio, Flavio Bolsonaro comprou uma mansão em Brasília no valor de 6 milhões de reais, numa operação financeira completamente incompatível com seus proventos como senador da República. Flávio Bolsonaro passou os últimos dois anos sendo destaque no noticiário político, acusado de todo tipo de corrupção.

Ainda assim, na cara dura, comprou uma mansão de 6 milhões de reais. É a certeza da impunidade.

Mas de onde vem essa certeza?

Podemos reformular a pergunta e chegaremos na mesma conclusão.

O que falta para Jair Bolsonaro cair? O que o presidente e sua família precisam fazer para serem retirados do poder?

Pergunta retórica. Eu mesmo faço e eu mesmo respondo: não falta mais nada. Os motivos já são mais que suficientes. Ainda assim, Bolsonaro não caiu, e nem vai cair. Não, a culpa não foi do Rodrigo Maia, por não ter tido “coragem” pra dar seguimento ao processo de impeachment.

Maia, político experimentado que é, sabia muito bem que Bolsonaro é inderrubável. Não exatamente pelo apoio do centrão, pois todos sabem que a lealdade não é maior virtude desse grupo político.

A resposta é outra.

Bolsonaro é inderrubável porque está blindado por dois exércitos: o exército regular, aquele da farda verde oliva, e as milícias, disciplinadas ideologicamente e em crescente processo de armamento, impulsionadas pelos decretos que estão desmontando a legislação antiarmas.

A questão é exatamente esta: Bolsonaro está blindado por homens armados, muitos homens armados.

Dados do TCU relativos a junho de 2020 apontam para 6.157 militares da ativa e da reserva em cargos de segundo e terceiro escalões do governo. Penduricalho nos contracheques, pequenos poderes de repartição.

Saltam na imprensa notícias de litros de cerveja e quilos de picanha sendo enviados aos quartéis. Regime especial de previdência para militares.

Jair Bolsonaro foi oficial de baixa patente, militar indisciplinado e reformado aos 33 anos de idade. Passou mais tempo na política do que na caserna. Jamais foi respeitado pelos seus superiores e, ainda assim, conseguiu capturar o Exército Brasileiro, transformando a corporação em aliado direto e leal.

Bolsonaro seduziu o Exército usando o Diário Oficial.

Ao mesmo tempo em que lambuzava os militares com todos os nababos que o dinheiro público pode comprar, o presidente enfileirava decretos que esvaziaram a competência legal das Forças Armadas para decidir qual tipo de armamento pode ser portado pelos particulares.

Fuzis, metralhadoras. Os decretos autorizam particulares a comprarem esse tipo de armamento, até então de uso exclusivo das Forças Armadas. Que tipo de gente quer ter em casa um arsenal? Aqueles que consideram seriamente a possibilidade de se engajar numa guerra civil.

Bolsonaro corrompe os militares, joga Exército Brasileiro na lama.

Bolsonaro conseguiu a façanha de implodir a distância que historicamente separa as Forças Armadas regulares das milícias privadas.

As milícias privadas são, ou deveriam ser, a antítese das Forças Armadas regulares. O miliciano responde ao poder local, não tem farda, não tem disciplina, não respeita código de conduta. Nada disso faz mais diferença.

Hoje, milícias e o Exército estão do mesmo lado. De prontidão, montando guarda na porta do Palácio do Planalto, protegendo a quadrilha que governa o país.

Não é possível derrubar um governo protegido por tantos homens armados. Mesmo que morram cinco mil pessoas por dia na pandemia, mesmo que o presidente estrangule alguém na frente das câmeras. Ainda assim, Bolsonaro não cairá.  Receio que não cairá nem no dia em que perder as eleições. Como faz pra convencer mais de 6.000 militares que eles devem respeitar o resultado das urnas e deixar a chave do cofre pra outro?

E do lado de cá, ficamos projetando cenários eleitorais. Ciro, Haddad, PT. As militâncias brigando, quase saindo no tapa. É a esperança dos condenados.

Definitivamente, Bolsonaro não cairá. Está firme, blindado pelos seus dois exércitos. Somos todos reféns.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Rodrigo Perez Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.

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