domingo, 20 set 2020
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Palomas

“E, sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. (Mateus 3:16)”

os pombos, todos nós o sabemos, têm a sua importância anárquica no mundo.

são eles que, nas praças, cagam na cabeça das estátuas dos homens que, uma vez vivos, cagaram na cabeça dos homens não muito vivos.

bumerânguico, o pombo é aquele que voa e volta e voa em voltas.

os pombos estão sempre juntos, como bons camaradas, e gostam de se alimentar em bando.

um bando de gente mal alimentada fica a olhar pra eles nas praças dos lugares pobres do mundo.

os famélicos, desunidos, desnutridos, lançados sós à própria sorte, valem menos que a vida destes pombos que muitos já desejam a morte.

os que os alimentam, nas praças do mundo, o fazem para se aproveitar de sua fome insaciável e posar para fotografias ao lado dessas lépidas criaturas aladas, dando charme às echarpes.

outros os alimentam para ter um animal à seus pés, uma criatura animada que lhe devolva a alma, o ânimo, a anima.

mas há aqueles cujo amor pelos animais é tão verdadeiro quanto o amor que têm pelos humanos.

são esses os únicos que estabelecem uma comunicação intensa com esses seres emplumados.

os que se felicitam em ver um pombo vivo e se entristecem ao ver um pombo morto.

porque há os insensíveis que fotografam tanto os vivos quanto os mortos, mas não se enternecem em saber quantos estão mortos entre os vivos.

foi uma pomba que gritou a Noé: Terra a Vista. o Divino Espírito Santo entrou no mundo em forma de uma pomba.

a pomba é o símbolo da paz, meu rapaz.

os pombos, todos o sabemos, são essas frágeis criaturinhas bípedes beliscantes.

e embora caguem na cabeça de alguns homens, eles têm amigos humanos.

e talvez seja por isso mesmo que cagam na cabeça de alguns humanos estatuados!

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.