Pane nas redes sociais e a busca pela diversidade – Por Raphael Fagundes

Veja o caso das redes sociais. Elas enclausuram as pessoas em bolhas em vez de expandir o conhecimento. Não lhes oferecem novas coisas, apenas o mais do mesmo

“Se você retira as lagartas de dado habitat, você não fica com o mesmo meio ambiente menos as lagartas, mas com um novo ambiente e terá reconstituído as condições da sobrevivência; o mesmo se dá se você acrescenta lagartas a um ambiente que não tinha nenhuma. É assim que a ecologia do meio ambiente funciona. Uma tecnologia nova não acrescenta nem subtrai coisa alguma. Ela muda tudo”.[1]

A pane no sistema das redes sociais de Zuckerberg mostra que se tirarmos a lagarta que ele introduziu na sociedade, duas coisas podem acontecer: ou morreremos de tédio, de uma abstinência irremediável, ou encontraremos novas formas de nos comunicar, caminhos diversos para acessar a realidade sem a intermediação dos logaritmos manipuladores.

A função da tecnologia no capitalismo é nos tornar dependentes das ferramentas que ela cria. Habermas mostra que “a tecnologia proporciona igualmente a grande racionalização da falta de liberdade do homem e demonstra a impossibilidade ‘técnica’ de ser autônomo, de determinar pessoalmente a sua vida”.[2]

Contudo, a tecnologia nunca favoreceu os trabalhadores. Com o modo de produção capitalista, explica Habermas, foi adotado um mecanismo regular que assegurasse um crescimento da produtividade contínuo a longo prazo. Deste modo foi “institucionalizada a introdução de novas tecnologias e de novas estratégias, isto é, institucionaliza-se a inovação enquanto tal”.[3] Com o discurso de que a máquina facilita o trabalho, aumenta-se a exploração. Isso porque não é possível tirar da máquina mais-valia. É como disse o professor Ricardo Antunes, “sem alguma forma de trabalho humano, o capital não se reproduz, visto que as máquinas não criam valor, mas o potencializam”.[4]

A inovação tecnológica nunca irá preceder a mudança social. Elas apropriaram-se da palavra “revolução” para deslegitimar o caráter revolucionário da mudança social. Por outro lado, por ter se tornado mais ideológica do que prática no sistema capitalista, flerta com a alienação. Veja o caso das redes sociais. Elas enclausuram as pessoas em bolhas em vez de expandir o conhecimento. Não lhes oferecem novas coisas, apenas o mais do mesmo. Se você é racista, por exemplo, mais grupos, pessoas, comunidades racistas etc, você terá acesso, expandindo, assim, o seu conhecimento para dentro das fronteiras da bolha, não para fora. Por isso, o logaritmo oferece “títulos semelhantes” para consumir.

Esse processo de alienação alimenta o ego e impede a descoberta de que a tecnologia nada serve para o trabalhador, para aqueles que realmente constroem o mundo, apenas aumenta a eficiência do seu trabalho. É como a uberização. “O ‘aplicativo’ se apropria do mais-valor gerado pelo sobretrabalho dos motoristas, sem nenhuma regulação social do trabalho”.[5] Para a tecnologia não há humanos, apenas trabalho a ser explorado.

O computador pode ter aumentado o poder das organizações lucrativas, bancos e publicidade; pode ter ajudado pesquisadores, cientistas etc, mas no que ajudou os trabalhadores? “Eles são seguidos e controlados com mais facilidade; são submetidos a mais exames; muitas vezes são reduzidos a meros objetos numéricos. São inundados por correspondência inútil. São alvos fáceis das agências de publicidade e de organizações políticas. As escolas ensinam seus filhos a operar sistemas computadorizados, em vez de ensinar coisas mais valiosas para as crianças. Resumindo, para os perdedores não acontece quase nada do que precisam”.[6]

A redes sociais nos permitem receber uma grande quantidade de informações, mas sem instrução adequada. “Nossa resposta aos meios e veículos de comunicação – ou seja, o que conta é o modo como são usados – tem muito da postura alvar do idiota tecnológico”, nos mostra Marshall McLuhan.[7]

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Hoje, a tecnologia se tornou uma espécie de aparelho ideológico do Estado que funciona mais ou menos como a Igreja em tempos medievais que, por meio da promessa do paraíso, mantinha o controle dos indivíduos reproduzindo incessantemente os mecanismos tradicionais de dominação. “O Iluminismo na Europa do século XVIII exigiu que todos os costumes e instituições se justificassem como úteis para a humanidade. Sob o impacto dessa demanda, a ciência e a tecnologia se tornaram a base para as novas crenças”[8], explica Andrew Feenberg. No entanto, o que aconteceu é que a ciência e a tecnologia foram apoderadas pelo capitalismo para demonstrar uma espécie de dominação neutra e racional.

A apropriação da tecnologia pelo capitalismo começa com a invenção do relógio. Este foi criado por monges ao longo dos séculos XII e XIII “que queriam dedicar-se mais rigorosamente a Deus; ele [o relógio] terminou como a tecnologia de maior uso para os homens, que desejavam dedicar-se à acumulação de dinheiro. Na eterna luta entre Deus e os bens materiais, o relógio favoreceu estes últimos, de maneira bastante imprevisível”.[9]

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A partir daí, mais tarde, com a ascensão do modo de produção capitalista, a tecnologia passou a estar a serviço da necessidade do crescimento produtivo. A cada ano, o PIB dos países precisa ser maior que o do ano anterior. A inovação tecnológica acelera a produção, cria novos mercados, novos consumidores ávidos para consumir o último lançamento. A sociedade pós-moderna, líquida, insaciável, eternamente insatisfeita, é fundamental para o sucesso deste projeto.

É como disse Paulo Freire: “Divinizar ou diabolizar a tecnologia ou a ciência é uma forma altamente negativa e perigosa de pensar errado”. Pensar certo, “demanda profundidade e não superficialidade”.[10] Esse é o ponto. Aceitar cegamente a tecnologia fora de um projeto social e político, de uma padronização cultural que atende aos interesses mercadológicos, seria um erro.

É preciso saber se apropriar das tecnologias e não seguir apenas as indicações oferecidas pelos aplicativos, forçando-nos a consumir mais do mesmo. Comparamos o que é semelhante o tempo todo. Precisamos de diversidade para refletir.


[1] POSTMAN, N. Tecnopólis. São Paulo: Nobel, 1994, p. 27.

[2] HABERMAS, J. Técnica e ciência como ideologia. Lisboa: Edições 70, p. 1968, p. 49.

[3] Id., p. 62

[4] ANTUNES, R. Trabalho intermitente e uberização do trabalho no limiar da indústria 4.0. ANTUNES, R. (Org.). Uberização, trabalho digital e Indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 14.

[5] Id., p. 12.

[6] POSTMAN, p. 20.

[7] MCLUHAN, M. Os meios de comunicação como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 2005, p. 33.

[8] FEENBERG, A. O que é filosofia da tecnologia. Ricardo T. Neder (org.). A teoria crítica de Andrew Feenberg: racionalização democrática, poder e tecnologia. Brasília: Observatório do Movimento pela Tecnologia Social na América Latina / CDS / UnB / Capes, 2010, p. 51.

[9] POSTMAN, p. 24.

[10] FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e terra, 1996, p. 37.

  *Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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